Prefeitura de São Paulo pagou R$ 3,5 milhões em serviços para evento gospel de produtora de ‘Dark Horse’

A Prefeitura de São Paulo pagou R$ 3,5 milhões com recursos públicos para cobrir custos estruturais e operacionais da feira gospel The Connect Faith 2025, realizada em junho do ano passado no Expo Center Norte.
O evento privado teve como organizadora a empresária Karina Ferreira da Gama, presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC) e proprietária da GoUp Entertainment, produtora executiva de “Dark Horse”, cinebiografia ficcional do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Os pagamentos foram feitos pela Secretaria Municipal de Turismo (SMTUR), na época chefiada pelo pastor e deputado estadual Rui Alves (Republicanos), sendo formalmente executados pela São Paulo Turismo (SPTuris).
A liberação dos milhões ocorreu sob o formato técnico de “apoio institucional” e, por conta dessa modalidade, os gastos detalhados não foram publicados de forma explícita no Diário Oficial do Município, permanecendo ocultos dos olhos públicos em pastas compactadas no portal de processos internos.
Uma planilha de custos finais do evento revela que os cofres municipais bancaram uma extensa lista de despesas logísticas para a feira privada, que cobrou ingressos para shows e palestras, além de comercializar cotas de patrocínio.
Entre os itens financiados pela prefeitura constam a locação de palcos, sonorização, painéis de LED, serviços de limpeza, segurança, equipes de produção e carregadores, além de materiais básicos como camisetas, lanches, café, água mineral e transporte em vans e ônibus.
Dentre as prestadoras de serviço contratadas com verba pública para o evento, a empresa MM Quarter — pivô de recentes investigações e escândalos contratuais no âmbito da SPTuris — recebeu o montante de R$ 183,5 mil.
O pagamento foi efetuado para o fornecimento de produtores, recepcionistas e carregadores durante seis diárias operacionais, embora a feira gospel tenha tido duração oficial de apenas quatro dias, entre 12 e 15 de junho de 2025.
Diferente do patrocínio, que exige solicitação formal, envio de documentos, apresentação de contrapartidas institucionais claras e prestação de contas rigorosa ao ser publicizado, o “apoio institucional” burla esses mecanismos e carece de justificativas técnicas anexadas.
A destinação de recursos para a feira gospel não é um caso isolado e se conecta a uma teia de contratos vultosos firmados entre a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e entidades controladas por Karina Gama. A empresária também preside a Organização Não Governamental (ONG) Instituto Conhecer Brasil (ICB), que se tornou alvo de uma investigação criminal conduzida pela Polícia Civil de São Paulo devido a indícios de irregularidades administrativas.
O inquérito policial foi aberto em março de 2026 para apurar suspeitas de frustração de caráter competitivo de licitação, fraude contratual e emprego irregular de verbas públicas em um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a prefeitura e o ICB. O acordo bilionário, revelado inicialmente em dezembro de 2025 pelo portal Intercept Brasil, previa a instalação de pontos de sinal wi-fi em comunidades de baixa renda na periferia da capital paulista.
Outro lado
O Brasil de Fato questionou formalmente a Prefeitura de São Paulo a respeito dos critérios de transparência e dos motivos técnicos para a escolha da modalidade de “apoio institucional” para o financiamento da feira gospel. A reportagem também solicitou posicionamentos oficiais à Academia Nacional de Cultura (ANC) e à GoUp Entertainment — das quais Karina Ferreira da Gama é presidente e proprietária, respectivamente — a fim de esclarecer a destinação dos R$ 3,5 milhões em despesas logísticas e a relação comercial estabelecida com a gestão municipal.
Em nota, a Secretaria Municipal de Turismo informou que atende, em média, 3.000 eventos por ano com apoio de infraestrutura e que o mesmo procedimento adotado nesses casos foi usado para o The Connect Faith 2025. “A modalidade de apoio consiste em oferecer materiais como palcos, gradis, segurança, entre outros itens, mediante solicitação dos organizadores. Cabe ressaltar que esta modalidade é diferente de patrocínio, em que os recursos são repassados ao promotor do evento a partir da apresentação de um plano de trabalho. A Pasta reforça que todos os itens solicitados foram viabilizados por meio de contrato firmado pela SPTuris para atendimento de diversos eventos na cidade. Essa contratação seguiu rigorosamente o princípio da transparência, com publicação no Diário Oficial e disponibilização no Portal da Transparência”, diz a nota.
O Brasil de Fato não conseguiu contato com a prestadora de serviços MM Quarter. O espaço segue aberto para manifestação.



