Saúde

Melinda Gates: EUA falham com mulheres na menopausa – 06/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

No início do século 20, o parto nos Estados Unidos era muito diferente do que encontramos hoje na maioria das maternidades. Muitos partos hospitalares envolviam o “sono crepuscular”, um coquetel de medicamentos que deixava a mulher inconsciente. Se ela começasse a se debater, como frequentemente acontecia, podia ser amarrada à cama. Não havia nenhum ente querido no quarto para defendê-la, e ela não tinha voz no processo. Apenas drogas e desorientação.

A maioria de nós olha para essa época com arrepio. É difícil imaginar como aceitamos uma prática assim como padrão. Às vezes me pergunto se minhas netas terão reação semelhante quando olharem para trás e souberem como nosso sistema de saúde trata a menopausa hoje.

Assim como as mulheres que eram sedadas para seus partos, as mulheres que passam pela menopausa têm uma chance alarmantemente alta de receber um atendimento que as decepciona completamente.

Eis uma cena que se repete regularmente: uma mulher entra no consultório médico com um conjunto de sintomas cada vez mais debilitantes —sono destruído, dor nas articulações, coração acelerado, memória falhando— e sai sem diagnóstico, sem tratamento e sem um plano.

Talvez você a conheça. Talvez você já tenha passado por isso. Quase 1 em cada três mulheres norte-americanas com mais de 40 anos experimenta sintomas severos de menopausa, sintomas que podem ser graves o suficiente para atrapalhar a vida cotidiana.

Para muitas mulheres, a menopausa significa ondas de depressão que nunca experimentaram antes ou insônia terrível. As mudanças hormonais subjacentes que causam esses sintomas aumentam o risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e alguns tipos de câncer.

Frequentemente, esses sintomas surgem quando a mulher está no auge de sua carreira, criando filhos e cuidando de pais idosos. A Clínica Mayo, instituição com foco em medicina integrada, educação e pesquisa, estima que os sintomas relacionados à menopausa custem 26 bilhões de dólares aos Estados Unidos em despesas médicas e tempo de trabalho perdido todos os anos.

Ainda assim, apenas cerca de 1 em cada 4 mulheres na menopausa nos EUA recebe tratamento para seus sintomas.

Mesmo tendo acesso a um excelente atendimento de saúde e tendo passado os últimos 25 anos como defensora da saúde da mulher, quando notei os primeiros sinais de que estava entrando na menopausa havia muita coisa que eu simplesmente não sabia.

Alguns sintomas, descobri, podem ter consequências duradouras se não forem tratados: a insônia pode aumentar o risco de perda de função cognitiva ou de desenvolver diabetes tipo 2, e as mudanças hormonais podem levar a doenças cardíacas. Não é exagero dizer que o cuidado que uma mulher recebe nesse momento pode mudar a trajetória de sua vida.

Sinto-me sortuda por viver uma era em que as mulheres falam sobre o que a geração de nossas mães enfrentou em silêncio, mas solidariedade não substitui mudança sistêmica.

É por isso que estou expandindo meu trabalho em saúde da mulher para incluir novos financiamentos significativos para cuidados na meia-idade e na menopausa. Esses investimentos elevarão meu financiamento total para a saúde da mulher para mais de US$ 600 milhões nos últimos dois anos.

Em um momento em que os direitos das mulheres estão sob ataque e muitas estão morrendo durante a gravidez e o parto, continuo profundamente comprometida com meu trabalho de longa data em saúde reprodutiva e materna.

A abordagem de nossa sociedade em relação à menopausa e à perimenopausa reflete as falhas profundas de um sistema de saúde que há muito tempo trata as mulheres como algo secundário.

Considere o fato impressionante de que, segundo uma pesquisa, menos de um terço dos programas de residência em ginecologia e obstetrícia nos Estados Unidos oferece qualquer tipo de currículo sobre menopausa. Isso mesmo: os próprios médicos que se especializam em nossos corpos nem sempre estão preparados para nos apoiar durante um evento biológico que todas nós vamos enfrentar.

Além da lacuna na formação, há lacunas no tratamento e no conhecimento. A proporção de mulheres na pós-menopausa que usam terapia hormonal, a solução mais eficaz que temos atualmente para controlar os sintomas, despencou para menos de 5% nos EUA.

Embora saibamos que a menopausa tem implicações para a saúde óssea, cardíaca e cerebral, não sabemos como proteger as mulheres desses riscos.

Precisamos de uma revolução da menopausa no país. Melhor formação é um ponto de partida óbvio. Ao incluir os cuidados com a menopausa tanto na educação básica como na educação continuada dos profissionais de saúde, podemos prepará-los para apoiar suas pacientes.

Também precisamos da ação dos formuladores de políticas. Inclusive para garantir que mulheres na menopausa tenham proteções no local de trabalho da mesma forma que têm durante a gravidez —como a possibilidade de tirar folga para buscar atendimento— para que possam continuar fazendo seus trabalhos sem sacrificar sua saúde.

Campanhas de educação também podem ter um papel essencial ao iniciar novas conversas sobre a menopausa e abordar as barreiras estruturais que levam a disparidades no atendimento. Nos Estados Unidos, mulheres brancas na pós-menopausa têm mais do que o dobro de probabilidade de usar tratamento com terapia hormonal, na comparação com mulheres negras e hispânicas.

Por fim, precisamos de pesquisas adicionais para aprender mais sobre a gama de mudanças causadas pela menopausa e suas implicações para o bem-estar das mulheres —e para acelerar novas descobertas e tratamentos. Para cada dólar que o mundo gasta em pesquisa e desenvolvimento médico, apenas cinco centavos vão para a saúde da mulher.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.

Informação

Folha de São Paulo

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