Política

Quem ensina matemática aos nossos filhos?

Eu adorava passear com a minha mãe quando era criança e pedia que ela me desse contas para eu resolver. Para mim, era uma diversão. No sexto ano, tive algumas dificuldades em matemática e acabei precisando de aulas particulares. Assim, embora gostasse da disciplina, percebi que o desempenho nem sempre evolui de forma linear. O importante é não deixar que os desafios que surgem ao longo do caminho afastem os alunos da matemática.

Trata-se de uma disciplina cumulativa, e quando perdemos o fio da meada, precisamos de apoio para retomar o percurso e seguir em frente. Nem todo estudante, porém, tem acesso a aulas particulares. Por isso, é fundamental que as escolas ofereçam oportunidades de reforço e acompanhamento a quem enfrenta dificuldades.

Nessa trajetória, o professor desempenha um papel central na formação dos alunos. Em geral, quando a aula é boa ou quando criamos um vínculo com o docente, o interesse pelo conteúdo aumenta. A qualidade da formação dos professores também faz toda a diferença.

Nesse contexto, a PND (Prova Nacional Docente) representa um avanço na avaliação dos profissionais da educação. O exame, realizado pelo MEC (Ministério da Educação) e pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), tem como objetivo auxiliar estados e municípios nos processos de seleção de professores.

Os resultados da edição de 2025 revelam um cenário preocupante. O Inep considera um professor com desempenho básico aquele que obteve, no exame, entre 50 e 69 pontos, e com desempenho adequado aquele que alcançou mais de 70 pontos. De acordo com os microdados disponibilizados pelo Inep, a média da nota geral na área de matemática (licenciatura), que engloba as provas objetiva e discursiva, foi de 48,8 pontos.

Analisando por estado, o Rio de Janeiro apresentou a maior média, de 53,9, enquanto Roraima registrou a menor, de 41,9. Cerca de 45% dos professores obtiveram entre 50 e 69 pontos, mas apenas 4,8% alcançaram nota superior a 70. O Rio de Janeiro tem o maior percentual de docentes nesse grupo, com 12,2%, enquanto no Acre nenhum participante atingiu esse patamar. Entre os participantes do exame, 75% são mulheres, enquanto, na área de matemática, os homens representam 55% dos candidatos, o que evidencia a persistência das diferenças de gênero nessa área de formação.

Dos candidatos que realizaram o exame na área de matemática e preencheram essa informação, 33% cursaram licenciatura em área específica e 51,7% tiveram formação superior voltada à docência (pedagogia ou normal superior), ou seja, a maioria provavelmente não recebeu formação específica em matemática. Essa questão importa porque a formação do professor está diretamente associada ao desempenho dos alunos.

O artigo de Dayane Souza, Luciano Sampaio e Raquel Sampaio, “Does the Area and Learning Modality of Teacher Qualification Matter to Middle School Students’ Performance in Mathematics?“, que utiliza dados de estudantes da rede pública do 9º ano do ensino fundamental no Brasil, mostra que professores com formação em matemática, mesmo quando obtida na modalidade a distância, apresentam turmas com melhor desempenho do que docentes sem formação específica na área ou sem ensino superior.

O resultado geral da PND 2025 assusta, mas não surpreende. A questão é: quais medidas o poder público adotará com base nessas informações?

Precisamos melhorar a formação dos professores, desde os cursos de licenciatura até os de formação continuada, e colocar em sala de aula professores com formação na área. Sem professores bem preparados, dificilmente conseguiremos melhorar a aprendizagem em matemática e reduzir as desigualdades educacionais.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo