Cotada para vice de Flávio, senadora Tereza Cristina integra instituto patrocinado por empresas

A senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS), cotada para vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, está à frente de um instituto que tem o patrocínio de oito empresas dos setores do agronegócio, financeiro, combustíveis e infraestrutura, que não revelam os valores gastos na iniciativa.
São atividades que podem ser afetadas, positiva ou negativamente, por diversos projetos de lei em discussão no Congresso, sobre os quais a ex-ministra têm influência. Ela e as empresas afirmam que o instituto estabeleceu regras internas para evitar situações de conflito de interesses.
Em seu estatuto, o Instituto Diálogos lista como objetivos influenciar a formulação de políticas públicas para defender o livre mercado, a propriedade privada, as liberdades individuais, o desenvolvimento socioeconômico nacional sustentável e o combate a desigualdades sociais. Para isso, pretende elaborar estudos e pesquisas, além de produzir palestras, eventos e congressos sobre esses temas.
Tereza Cristina foi eleita presidente do conselho de administração —atividade que, de acordo com o estatuto, não tem remuneração. Os fundadores e proprietários são oito empresas, e novas adesões só serão aceitas se aprovadas por dois terços dessas companhias.
A legislação não proíbe que parlamentares exerçam essa função nos conselhos ou na diretoria, exceto se as empresas receberem benefícios ou contratos com o poder público ou se forem estatais. No entanto, especialistas apontam para riscos éticos e defendem a necessidade de transparência para evitar conflitos de interesses.
A maioria das fundadoras é ligada à área principal de atuação da senadora, o agronegócio, caso de Tereos Açúcar e Energia, Cargill, Yara Fertilizantes, Corteva Agriscience, Cocamare e FS Indústria de Biocombustíveis. Também fazem parte o Itaú Unibanco, do sistema financeiro, e a Hidrovias do Brasil, dos ramos de logística e setor portuário.
O valor do pagamento mensal das empresas não consta dos documentos registrados pelo instituto no cartório, mas banca pelo menos a contratação de um diretor com salário de R$ 50 mil e a realização de eventos e viagens. Quem ficar inadimplente por mais de três meses perde direito a voto nas decisões.
A Folha questionou as empresas, a senadora e o próprio instituto sobre o valor da contribuição mensal, mas todos se negaram a divulgar a informação. No site, há uma página sobre transparência, mas nenhum balanço financeiro. A informação de que oito empresas são fundadoras e patrocinadoras do instituto foi divulgada no portal apenas após a reportagem procurá-las.
O estatuto social, obtido pela Folha em um cartório de Brasília e posteriormente publicado pelo instituto em seu site, permite que a entidade amplie suas receitas por meio de doações ou contratação para elaborar estudos e pesquisas e fornecer apoio técnico para interessados. De acordo com o documento, todo o dinheiro deve ser reinvestido no instituto, que não tem fins lucrativos.
Embora seja formalmente apenas presidente do conselho de administração, a senadora é a face pública do instituto, foi a principal palestrante no dia do lançamento dele e reconheceu, no evento realizado em fevereiro em um espaço alugado em um hotel em Brasília, também ser sua idealizadora.
“Quando na escolha dos nossos apoiadores, dos nossos colaboradores, isso foi discutido de maneira muito ampla”, disse à platéia, sobre a intenção de ir além do debate parlamentar. “Quando eu sair do Senado, eu vou me dedicar 100% a esse instituto. Eu já aviso que vai virar uma fundação.”
Desde que foi fundado, o instituto só realizou um único evento desde o lançamento em Brasília. Nesta terça (9), fez um seminário fechado para convidados sobre a nova geoeconomia mundial.
Procuradas separadamente pela Folha, as oito empresas patrocinadoras optaram por responder em conjunto. “As empresas apoiam o Instituto Diálogos por alinhamento ao propósito de estimular debate técnico, plural e fundamentado sobre temas estruturantes do país, visando qualificar decisões públicas e privadas”, afirmou em nota o diretor-presidente do instituto, Inácio Muzzi.
Ele diz ainda na nota que a instituição não tem finalidade nem vínculo político-partidário e que as sócias fundadoras não identificam conflito de interesses em patrocinar um instituto ligado a uma parlamentar. A escolha da senadora ocorreu, segundo ele, “por sua trajetória técnica e capacidade de diálogo em uma governança colegiada e independente, sem implicar vínculo partidário”.
Além de Muzzi, o instituto tem como diretores Isabella Martins do Carmo, diretora de Relações Governamentais da Cargill, e o engenheiro civil Jacyr da Silva Costa Filho, sócio da consultoria AgroAdvice e diretor financeiro da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo). Quatro empresas indicaram vice-presidentes: Hidrovias do Brasil, Tereos, Corteva e Yara.
No dia do lançamento do instituto, Tereza Cristina disse que a entidade não tem a finalidade de defender interesses privados no Congresso e que vê sua atuação como de iniciativa individual.
“Nós não vamos fazer lobby. Nós vamos discutir assuntos gerais que sejam de interesse do país”, afirmou na ocasião, afirmando que o lobby do setor já é feito pela Frente Parlamentar da Agropecuária —da qual ela é vice-presidente. “Quero sentar no conselho do instituto sem o chapéu de senadora. Eu quero sentar com o chapéu de uma brasileira que tem muita preocupação com os rumos do nosso país”, afirmou.
À Folha a senadora disse em nota que planejava havia pelo menos três anos a criação do instituto, fundado em setembro de 2025, e que o estatuto tem salvaguardas e até punições para eventuais conflitos de interesse. Destacou ainda que o trabalho é voluntário.
“Nenhum tipo de lobby empresarial é permitido e não há qualquer vinculação dos temas discutidos —aprovados sempre por maioria— à agenda legislativa, muito menos ao mandato parlamentar, exercido de forma altamente republicana”, afirmou.
Tereza Cristina é um dos nomes citados por aliados para a vice de Flávio, mas tem dito que não quer ocupar esse espaço na chapa e se movimenta em busca de apoio para presidir o Senado em 2027, em caso de vitória da oposição.
Folha de São Paulo



