Vamos ficar com um olho na Copa e outro na prisão domiciliar de Vorcaro

Subiu no telhado a segunda tentativa do banqueiro fraudador Daniel Vorcaro de emplacar uma colaboração premiada a seu favor no processo criminal que vem enfrentando na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, a cargo do ministro André Mendonça. O inquérito foi originado a partir da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que alvejou os malfeitos envolvendo o Banco Master, que já se consubstanciam na maior fraude financeira da História do país.
Vorcaro está tentando convencer delegados da Polícia Federal e membros do Ministério Público Federal (encarregados de negociar a sua delação) do impossível.
O ex-banqueiro insiste em afirmar que as mesadas e depósitos, totalizando centenas de milhões de reais, que fez em favor de inúmeros políticos poderosos e altos agentes públicos de expressão nacional ocorreram tão somente em razão da “amizade” que mantinha com essas figuras.
A explicação esfarrapada de Vorcaro seria praticamente uma revogação da velha máxima de que “não existe almoço grátis”.
Podem fazer parte desse grupo de “grandes amigos” um seleto número de senadores, deputados federais, um candidato à Presidência da República, ex-governadores, um chefe de Poder, e quiçá até ministros do STF. E esse grupo poderá aumentar, na medida que peritos da PF forem acessando os muitos celulares apreendidos com o ex-banqueiro.
Enfim, trata-se de um número de pessoas poderosíssimas que facilitaram a vida do banqueiro na captação meteórica e fraudulenta de centenas de milhões de reais em verba pública, mormente de fundos de pensões de cofres estaduais.
Mas é muita amizade envolvida…
Mas, tirando o acinte dessa justificativa, é evidente que Vorcaro vem apenas tentando ganhar tempo.
Com a Copa do Mundo chegando – e nas próximas cinco semanas tomando manchetes dos jornais e a atenção da população – o ex-banqueiro já deve ter recebido sinais de que a velha e boa equipe de socorro dos poderosos está apenas esperando o melhor momento para agir.
Nessa altura, socorrer Vorcaro com uma prisão domiciliar significaria automaticamente a salvação de dezenas de políticos e autoridades corruptas, que vêm, de 9h00 às 18h00, de segunda à sexta-feira, de seus gabinetes mantidos com dinheiro público, enriquecendo ilicitamente e traindo o Brasil.
Se isso acontecer (novamente), o Brasil perderá mais uma chance de desmascarar essa enorme, extensa, abominável e institucionalizada estrutura de blindagem que impede que ricos e poderosos sejam punidos criminalmente no país.
Não poderia haver prejuízo maior do que a perda de oportunidade tão rara, aliás, nunca uma derrubada geral de corruptos poderosos – um strike – seria tão edificante para o Brasil.
Termos, de uma só vez, incriminados e processados, senadores, deputados federais, governadores e, principalmente, alguns ministros do STF, seria uma quebra de paradigma extremamente positiva para o país.
A nossa sociedade está cada vez mais degenerada justamente por conta do descrédito das nossas autoridades. São escândalos em sequência, cada um pior do que o outro, que demonstram cabalmente que nosso sistema judicial não consegue alcançar cabeças coroadas.
Não podemos seguir com tantos agentes políticos, nas mais altas funções, nos três Poderes da República, sem autoridade moral nenhuma, isto é, totalmente desmoralizados perante a nação. Essa situação literalmente contamina a sociedade de alto a baixo.
Não é à toa que o Brasil vem sendo engolido pelo crime organizado, pelas facções de traficantes e milícias, pois faltam pessoas com comprovada autoridade moral para, top-down, enfrentar essa criminalidade com o desassombro necessário para lograr o êxito esperado.
Nas próximas semanas seria importante que ficássemos com um olho na seleção brasileira e o outro na ocorrência de “movimentos” visando à decretação da prisão domiciliar de Vorcaro.
O banqueiro – depois do que foi descoberto sobre sua máfia privada de ameaças violentas e de invasões de sistemas processuais – não poderia em hipótese alguma receber a benesse de uma prisão domiciliar.
O que significa que não será possível um ministro do STF propor tal hipótese (da prisão domiciliar para o banqueiro) sem se desmoralizar por completo perante à nação.
Vamos ver até que ponto estarão dispostos a se desmoralizar, e até que ponto a sociedade brasileira vai engolir mais essa degeneração institucional das nossas mais altas autoridades.
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