Política

43 milhões têm EaD como única porta de entrada

O município de Tabatinga fica no extremo oeste do Amazonas, onde o Brasil termina e começam o Peru e a Colômbia. Chegar à capital Manaus de barco pelo Rio Solimões leva pelo menos sete dias. A passagem aérea, quando há voo, custa uma fortuna.

Jaciana Saraiva, moradora da cidade, tentou cursar faculdade na modalidade presencial três vezes e, em todas, desistiu. Em 2019, o Centro Universitário Fametro passou a atuar em Tabatinga e a modalidade de Ensino a Distância (EaD) surgiu como uma possibilidade viável para que ela realizasse o sonho de concluir uma graduação.

Naquele mesmo ano, Jaciana começou a cursar Nutrição a distância, pagando R$ 450 por mês — metade do que custaria o mesmo curso em Manaus, sem contar os gastos com moradia e transporte.

“Sem o EaD, não teria feito a faculdade. Sair do interior e ir para Manaus estudar é difícil. O custo de vida é caro. O curso é caro. O preço da passagem de avião também. Viajar de barco de Manaus para Tabatinga é cansativo, são sete dias subindo o rio Solimões. Ficaria inviável”, afirma.

A história se repete em pelo menos 2,3 mil municípios brasileiros onde não existem cursos presenciais, mas há acesso a um polo de EaD.

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Acesso ao ensino

Dados do Censo da Educação Superior de 2024 apontam que 43,1 milhões de pessoas, cerca de 20,3% da população do país, só podem ter acesso a um diploma de graduação por meio do ensino a distância.

O EaD tornou-se a principal via de acesso ao ensino superior brasileiro entre 2020 e 2021, impulsionado pelo período pandêmico e de isolamento social, aponta o Censo EAD.BR 2024: Relatório Analítico da Aprendizagem a Distância no Brasil. Nos anos seguintes, 2023 e 2024, a liderança se consolidou com dois em cada três novos estudantes optando pela modalidade a distância.

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles reconhecem que o ensino a distância democratiza o acesso ao ensino superior no Brasil. No entanto, alertam que a rápida expansão da modalidade evidencia desigualdades estruturais.

Em muitos municípios que dependem exclusivamente do EaD, persistem obstáculos como acesso precário à internet, falta de equipamentos adequados e limitações de infraestrutura. A modalidade também enfrenta elevados índices de evasão, que refletem os desafios não apenas de ingressar no ensino superior, mas de permanecer estudando e concluir a graduação.

Impulsionado pela expansão e interiorização do sistema de ensino e por um perfil de alunos cada vez mais diversificado, o governo federal assinou, em maio de 2025, o Decreto nº 12.456/2025, que regulamenta a Nova Política de Educação a Distância (EaD).

O marco regulatório tenta “corrigir distorções”, como a expansão sem qualidade e as altas taxas de evasão, promovendo um acompanhamento mais efetivo dos alunos.

Apesar de ser visto como um avanço na regulação do setor, críticos apontam que parte das exigências do decreto pode dificultar o acesso ao ensino superior em municípios sem oferta presencial e reduzir a capacidade de expansão e consolidação do EaD, especialmente entre instituições públicas.

Nesta sexta-feira (12/6), o Metrópoles publica uma série de reportagens sobre a expansão do ensino superior para o interior do Brasil por meio da educação a distância. As reportagens acompanham histórias de estudantes de cidades sem oferta de cursos presenciais, analisam dados de acesso e evasão e discutem os desafios da modalidade para transformar matrículas em diplomas.

Leia também as outras reportagens:

Interiorização do ensino no Brasil

Os números do Ensino a Distância (EaD) no Brasil são expressivos. Dados do Censo da Educação Superior de 2024 mostram que, pela primeira vez na história, as matrículas em cursos a distância superaram as do ensino presencial: 50,7% dos estudantes de graduação no Brasil estão matriculados em cursos EaD. Em 2013, o percentual era de menos de 20%.

Em 11 anos, a participação do EaD no ensino superior brasileiro saltou de menos de 20% para 50,7% das matrículas — um crescimento de 153,5%.

Em pouco mais de uma década, o EaD saiu de uma modalidade complementar para se tornar a principal porta de entrada no ensino superior brasileiro.

A virada foi impulsionada, sobretudo, pelo avanço da internet, pela expansão das redes privadas de ensino para municípios onde nunca havia existido uma faculdade e pelo período da pandemia da Covid-19.

Embora a região Sul lidere proporcionalmente a adesão ao ensino a distância no Brasil, é no Norte que a modalidade avança de forma mais estratégica para ampliar o acesso.

A região concentra o menor número de Instituições de Ensino Superior (IES) do país, com um total de 196 instituições, segundo a 15ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil.

Em 2023, 51% dos estudantes de ensino superior nortistas estavam matriculados em cursos EaD, o equivalente a 432,4 mil alunos. A modalidade já é majoritária em cinco dos sete estados da região: Pará (57,3%), Roraima (56,9%), Acre (55,7%), Amapá (52,1%) e Rondônia (51,1%).

O Pará concentra a maior oferta de instituições, com 76 IES presenciais e 114 polos de EaD. Na outra ponta, Acre e Roraima registram a menor rede presencial da região, com apenas nove instituições cada.

Amazonas e Tocantins são os únicos estados onde o ensino presencial ainda predomina. Mesmo assim, as matrículas em EaD cresceram 13,7% e 12,2%, respectivamente, em ritmo superior ao da modalidade presencial.

Segundo a pesquisadora Andréia Mello Lacé, professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) e avaliadora de cursos a distância pelo Ministério da Educação (MEC), o perfil predominante dos estudantes da educação a distância no Brasil é formado por adultos que buscam conciliar os estudos com o trabalho e outras responsabilidades da vida cotidiana.

“Há uma prevalência do perfil feminino nos cursos de licenciatura — pessoas adultas, trabalhadoras, mulheres com responsabilidades familiares. Há uma maior heterogeneidade social, menor renda e trajetórias escolares marcadas pela descontinuidade”, afirma a pesquisadora.

Adilson, a lancha e R$ 700 por prova

Adilson Guerreiro, ribeirinho de 33 anos, mora na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas, com a esposa e mais três filhos, entre eles uma bebê de 1 ano. A comunidade, localizada entre os municípios de São Sebastião do Uatumã e Itapiranga, é acessível apenas por via fluvial.

Cerca de 250 famílias ribeirinhas vivem na reserva e se sustentam através da agricultura familiar, pesca artesanal e extrativismo de produtos como castanha-do-pará, tucumã e babaçu.

Morador da reserva desde a infância, Adilson conta ter enfrentado desde muito novo os desafios de crescer em uma região onde o acesso à educação é limitado.

Após concluir o ensino fundamental, precisou deixar a comunidade para tentar dar continuidade aos estudos, já que não havia oferta de ensino médio na localidade. Anos depois, conseguiu concluir a escola por meio do sistema de ensino mediado por tecnologia, implantado pelo governo do Amazonas. Ainda assim, voltou a interromper os estudos após a conclusão dessa etapa.

A oportunidade de ingressar no ensino superior surgiu apenas em 2022, quando Adilson foi selecionado para cursar Gestão em Turismo na modalidade EaD por meio de um projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com a Universidade Nilton Lins e apoio financeiro da marca de luxo francesa Louis Vuitton.

A iniciativa da organização da sociedade civil buscava ampliar o acesso à graduação para moradores de regiões onde a oferta de ensino superior presencial é praticamente inexistente.

“O curso presencial na região não tem. Se não fosse pela modalidade EaD, não teria feito esse curso, por conta da dificuldade de morar numa região distante e ter toda essa questão de custo para fazer presencial. Então, com certeza, não teria feito”, afirma o ribeirinho, o primeiro da família a concluir o ensino superior.

De acordo com a FAS, o curso iniciou com 52 moradores das RDS do Rio Negro e Uatumã matriculados no projeto. Ao final, 10 concluíram a graduação e outros seis alcançaram mais de 90% da carga horária.

Em nota ao Metrópoles, a fundação reconhece que, em áreas remotas da Amazônia, fatores como geração de renda, deslocamentos, responsabilidades familiares e desafios de infraestrutura podem influenciar a permanência dos estudantes em cursos e projetos.

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Turma de Gestão em Turismo começou com 52 estudantes das RDS do Rio Negro e Uatumã matriculados
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Turma de Gestão em Turismo começou com 52 estudantes das RDS do Rio Negro e Uatumã matriculados

Material cedido ao Metrópoles/ Bruna Martins

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Ao final, 10 alunos concluíram a graduação e outros seis alcançaram mais de 90% da carga horária
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Ao final, 10 alunos concluíram a graduação e outros seis alcançaram mais de 90% da carga horária

Material cedido ao Metrópoles/ Laura Souza

Na RDS do Uatumã, Adilson Guerreiro foi o único a concluir a faculdade entre os sete participantes locais do projeto da FAS
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Na RDS do Uatumã, Adilson Guerreiro foi o único a concluir a faculdade entre os sete participantes locais do projeto da FAS

Material cedido ao Metrópoles/ Laura Souza

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5 de 5Material cedido ao Metrópoles/ Laura Souza

Adilson conta que, no início, ele e outros três moradores dividiam o valor da gasolina da lancha, necessária no deslocamento até a comunidade São Thomé para a realização de provas, uma vez por mês.

“A distância era de três horas de barco para ir e três horas de barco para voltar. Saía às seis horas da manhã de casa e retornava às cinco horas da tarde. Cada viagem dessas era, aproximadamente, R$ 700 reais. Cada prova tinha esse custo.”

Dos colegas da RDS do Uatumã, Adilson foi o único da turma a concluir o curso de Gestão em Turismo. Ele relaciona as desistências às dificuldades de logística de estudo e a distância até o polo. Além de fatores climáticos que tornavam o trajeto inviável e que o levou, inclusive, a perder conteúdos e provas em algumas ocasiões.

“Desistir nunca foi uma das opções na minha cabeça, apesar de todas as dificuldades na época que estava fazendo a faculdade. Estudava mais à noite ou à tardinha, depois do expediente de trabalho. Não tenho internet em casa, então ia para a escola Martins Gomes usar a internet do colégio para estudar”, relembra.

Hoje, ele trabalha na Prefeitura de Presidente Figueiredo, concursado no cargo de técnico em endemias. Também planeja abrir seu próprio negócio no setor de turismo. “A vida melhorou”, considera.

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Adilson Guerreiro, ribeirinho de 33 anos, mora na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas, com a esposa e mais três filhos
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Adilson Guerreiro, ribeirinho de 33 anos, mora na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas, com a esposa e mais três filhos

Arquivo pessoal

A viagem de barco até o polo EaD para a realização de provas durava cerca de 6 horas, ida e volta, entre a RDS do Uatumã e a comunidade de São Thomé, no Amazonas
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A viagem de barco até o polo EaD para a realização de provas durava cerca de 6 horas, ida e volta, entre a RDS do Uatumã e a comunidade de São Thomé, no Amazonas

Arquivo pessoal

Sem internet em casa, Adilson estudava no colégio da comunidade ou na casa da irmã
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Sem internet em casa, Adilson estudava no colégio da comunidade ou na casa da irmã

Material cedido ao Metrópoles

Adilson foi o único de sete colegas da RDS do Uatumã, selecionados pelo projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Universidade Nilton Lins, a concluir o curso de Gestão em Turismo na modalidade EaD
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Adilson foi o único de sete colegas da RDS do Uatumã, selecionados pelo projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Universidade Nilton Lins, a concluir o curso de Gestão em Turismo na modalidade EaD

Material cedido ao Metrópoles

Primeiro da família a concluir o ensino superior, hoje Adilson é concursado pela Prefeitura de Presidente Figueiredo no cargo de técnico em endemias
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Primeiro da família a concluir o ensino superior, hoje Adilson é concursado pela Prefeitura de Presidente Figueiredo no cargo de técnico em endemias

Material cedido ao Metrópoles

A FAS avalia que, embora tenha sido o único morador da região a concluir a graduação, a formação de Adilson representa um resultado relevante da iniciativa. A fundação defende que projetos de ensino superior em áreas remotas da Amazônia não devem ser medidos apenas pelo número de concluintes, mas também pelas oportunidades educacionais abertas e pelos impactos gerados nas comunidades atendidas.

De acordo com a fundação, a experiência gerou aprendizados que devem orientar novas ações de formação e desenvolvimento sustentável na Amazônia.


Metrópoles

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