Novas tarifas dos EUA podem gerar risco reputacional e comercial ao Brasil


A decisão dos Estados Unidos de propor uma tarifa adicional 12,5% sobre produtos brasileiros por considerar que o Brasil falha em proibir a importação de bens com trabalho forçado pode gerar “risco reputacional e comercial” ao país. O alerta foi feito pela adidância agrícola em Washington após a manifestação do USTR (Escritório do Representante Comercial americano) no início de junho.
“Embora o documento não trate apenas do Brasil, a inclusão brasileira na lista de economias consideradas sem proibição efetiva de importação de bens produzidos com trabalho forçado cria risco reputacional e comercial. O tema pode afetar a percepção sobre cadeias produtivas brasileiras, especialmente em setores com exposição a debates internacionais sobre rastreabilidade, sustentabilidade, conformidade trabalhista e due diligence”, diz o documento.
O material foi revelado mais cedo pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmado pelo Valor, que teve acesso aos documentos. Procurado, o Ministério da Agricultura ainda não respondeu.
As investigações dos EUA começaram em 12 de março de 2026 e miraram 60 países. Segundo o USTR, 54 economias, entre elas o Brasil, não teriam imposto nem aplicado efetivamente uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado e outras seis teriam legislações sobre o tema, mas falharam na aplicação efetiva.
Para os EUA, a ausência de uma proibição efetiva de importação de bens produzidos com trabalho forçado seria uma prática injustificável e que oneraria ou restringiria o comércio dos americanos.
A proposta de aplicação da nova tarifa, de 12,5%, pode ser adicionada de outra sobretaxa, de 25%, também em avaliação pelos EUA e focada no Brasil por conta de temas como o desmatamento.
Produtos como carne bovina, miudezas, frutas tropicais, castanhas, café, chá, mate, especiarias, cacau, sucos e alguns produtos processados foram excluídos da possível taxação. A medida não se restringe ao agronegócio e poderá alcançar outros setores, com a possibilidade de perda de competitividade aos exportadores brasileiros, alerta o documento da adidância.
Etanol, açúcar, pescados, mel, café solúvel e madeira são os produtos agropecuários brasileiros potencialmente afetados se a nova tarifa for aprovada. O documento da adidância foi encaminhado ao Ministério da Pesca e Aquicultura para avaliação de medidas cabíveis. O prazo para manifestação por escrito no processo é 6 de julho. O governo brasileiro e o setor agropecuário ainda não enviaram novas posições.
O USTR também propõe um mecanismo específico para têxteis e vestuário, que permitiria determinado volume de importações com tarifa reduzida, condicionado a fluxos comerciais relacionados a insumos têxteis e algodão dos EUA.
A adidância recomendou mobilizar os setores produtivos para verificar, com urgência, se os produtos exportados estão contemplados na lista de exceção, de acordo com o código específico de cada item.
“Para produtos não excluídos, será importante avaliar o impacto econômico da eventual tarifa de 12,5%, identificar importadores e usuários norte-americanos afetados, e preparar comentários técnicos em inglês demonstrando eventual risco de desorganização de cadeias de suprimento, aumento de custos para empresas dos EUA, ausência de fornecedores alternativos e baixa efetividade da medida para o objetivo declarado”, diz o documento.
Antes da decisão do USTR, a representação agrícola do Brasil em Washington havia enviado comentários sobre a investigação e os temas agropecuários citados em audiências do órgão no fim de abril. A adidância já alertava para os riscos “regulatório e reputacional” para a agropecuária brasileira.
Na ocasião, houve menção expressa aos produtos madeireiros do Brasil e na competição internacional no algodão, relatou a adidância. A sinalização era de riscos em três frentes: de pressão por rastreabilidade e due diligence trabalhista em cadeias de exportação ao mercado norte-americano; de aplicação medidas tarifárias ou restritivas amplas; e de efeitos indiretos de retaliação e desvio de comércio, especialmente em soja e algodão.
Nesse último caso, a avaliação foi que os produtores americanos temem que novas tarifas contra terceiros países provoquem “reação chinesa e ampliem a vantagem competitiva de fornecedores como Brasil e Austrália”, diz outro documento interno da adidância agrícola brasileira nos EUA, produzido em 22 de maio.
“A linha defensiva mais consistente seria reforçar que qualquer medida deve ser baseada em evidência concreta, produto-específica, proporcional e compatível com cooperação técnica, evitando penalização ampla de cadeias produtivas responsáveis e já submetidas a controles de legalidade, sustentabilidade e rastreabilidade”, conclui o documento.
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Globo Rural



