Saúde

Uma vida entre rios assassinados e redivivos

Pode um rio estar vivo? Robert Macfarlane precisou de 374 páginas para rodear a questão num livro com esse título, obra que seu filho de nove anos, Will, predisse que deveria ser curta, porque a resposta, claro, é “sim”. Só que não: adultos precisam de longos argumentos para aceitar o óbvio.

“Crianças pequenas habitam instintivamente e respondem a um mundo repleto de árvores falantes, rios canoros e montanhas pensativas”, explica o escritor britânico em “Is a River Alive?” (2025). “Houve um tempo em que a maioria de nós sentia que os rios estavam vivos.”

Quem nasceu em São Paulo na segunda metade do século 20 concordaria com Will e Robert, ainda que por experiência negativa própria. Se rios podem estar mortos, como o Tietê e o Pinheiros, é porque já estiveram vivos –e foram assassinados.

Em criança, a caminho de Ubatuba saindo pela marginal, era intrigante passar pelo Clube de Regatas Tietê. Impossível imaginar competições de remo naquela pocilga fedorenta. Menos ainda acreditar no avô materno quando dizia que tinha participado de competições de natação ali, décadas antes.

Não é fácil crescer na presença de um rio morto, sobretudo porque ele encarnava a mitologia de heroísmo bandeirante, tão falsa quanto genocida. Na fabulação, paulistas empreendedores que saíam em batelões atrás de ouro e pedras preciosas. Em realidade, escravizadores de indígenas, história tão desencontrada quanto um rio que corre para o interior nascendo tão perto do mar.

Já maior de idade, a descoberta de que um rio, além de estar vivo ou morto, pode ressuscitar. Ao reencontrar o Tietê na fazenda Anhangaí, em Araçatuba, a mais de 500 km da capital, sair para pescar –nas mesmas águas? Nem mesmo o mesmo rio.

Heráclito de Éfeso disse não ser possível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Um corpo d’água que flui serve de metáfora líquida para a impermanência de tudo no curso da vida. Para o bem e para o mal: se um rio consegue transmutar-se de cloaca em piscoso, a ditadura podia acabar, mesmo o desespero sendo moda em 73.

Outros rios foram passando. O Paraíba em Tremembé (SP). O São Francisco, de Bom Jesus da Lapa (MG) a Juazeiro (BA). A Portela, no Rio. O Tejo, em Lisboa. O Tâmisa, em Londres. O Negro e o Solimões, em Manaus. O Arno, em Florença. O Spree, em Berlim. O Sucuri, em Bonito (MS).

Até o Xingu, na aldeia icpengue Moigu, em 2009, para escrever sobre a nascente Rede de Sementes. Depois em Altamira (PA), 2013, quando uma reportagem multimídia, A batalha de Belo Monte, impôs testemunhar o assassinato desse caudal mítico para povos indígenas e para os antibandeirantes Villas-Bôas, irmanados na tentativa de salvá-los por confinamento no Parque Indígena do Xingu.

Documentar a Volta Grande do Xingu por terra, água e ar, na companhia de Lalo de Almeida, só se compara em realização profissional com encontrar-se na Antártida, em Patriot Hills, ou no Ártico, em Svalbard, onde reinam as titânicas torrentes de gelo dos glaciares.

A Volta Grande secou. Um assassinato premeditado e consumado em nome da hidreletricidade ineficiente da Norte Energia e da mineração de ouro da Belo Sun.

Os rios estão vivos, sim, até serem mortos. Somos todos cúmplices no genocídio.


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Informação

Folha de São Paulo

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