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Na Copa do Mundo, uma carta à torcida brasileira – 14/06/2026 – CasaFolha na Copa

A seleção já estreou na Copa do Mundo, a competição que define qual país é o melhor no futebol. O nosso futebol. Isso sempre nos afeta, queiramos ou não. Porque na bola, nos gramados, no grito de gol tem muito da nossa história e das nossas cicatrizes.

De um lado, uma parte nossa diz: “Se proteja, não acredite, você já se machucou antes”. A outra parte, sedutora, indaga: “E se der certo? Muita coisa mudou. Lembra como ela já te fez tão feliz?”.

E a gente lembra de cada momento, da família reunida, dos amigos se abraçando, do grito de gol, do Galvão gritando “É tetra! É tetra!”. Até quem não tinha nascido escuta as histórias e se encanta.

Mas também lembramos das dores, da decepção, do choro. E é isso que nos mantém nessa ambivalência: entre a memória do que foi bom e o medo de que doa de novo.

Quando uma paixão nos decepciona, dói. A gente vai seguindo, em parte superando, em parte varrendo para baixo do tapete. Mas aí a esperança bate à porta. Afinal, é ela: a amarelinha, a única com cinco estrelas. Quando ela entra em campo, algo acontece, não na razão, mas no coração. A gente se defende ou se entrega, mas ninguém fica indiferente.

O trauma existe. O gosto amargo do 7 a 1, as expectativas frustradas em tantas Copas. A mente aprende rapidamente a evitar aquilo que machuca. Chamamos isso de prudência, maturidade, realismo. Mas, muitas vezes, é medo disfarçado de lucidez. Quando tentamos eliminar o risco da frustração, eliminamos também a possibilidade da alegria. Quem se fecha não sofre menos, só vive menos.

A Copa nos dá permissão coletiva para sentir. Mas sentir é exatamente o que assusta. Porque a mesma abertura que deixa entrar a alegria do gol deixa entrar também a dor da derrota. Talvez seja isso que esteja em jogo quando a gente hesita em torcer: não é só medo de perder. É medo de sentir.

Trabalho com atletas há muitos anos e uma coisa aprendi: quem estaciona no trauma não vence. Fica monitorando o risco em vez de jogar. Protege o corpo, evita o chute, o drible, recua antes de ser derrubado.

Os melhores competidores do mundo entram em campo não porque têm garantia de vitória. Entram porque desenvolveram a capacidade de acreditar mesmo quando a derrota é uma possibilidade real. A esperança não é ingenuidade. É o que precede a ação. Sem ela, o atleta entra em campo, mas não está inteiro lá dentro.

Já vi atletas entrarem em competições importantes monitorando cada passo para não errar. Tecnicamente preparados, emocionalmente fechados. O corpo está lá, a cabeça também, mas algo essencial ficou do lado de fora: a disposição de arriscar, de se expor, de querer de verdade. Sem isso, a performance é apenas execução. Nunca é o melhor que aquela pessoa tem.

E aí me pego pensando no torcedor que se fecha, cruza os braços, recusa-se a acreditar e ainda assim quer que o time entre em campo aberto, disposto, com fome de gol e amor à camisa. A gente exige do time exatamente o que se nega a fazer: arriscar, se jogar, acreditar antes de ter certeza. A seleção em campo acaba sendo um espelho. O que fazemos com ela diz algo sobre o que fazemos com a vida.

O primeiro jogo passou e talvez tenha trazido ainda mais ambivalência e dúvida. Faz parte. Alta performance não se constrói num jogo só, e paixão de verdade também não. O time volta a campo. A pergunta que fica é simples e desconfortável: você também volta?


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Esporte / Folha de São Paulo

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