Bicheiro ligado à Turma de Vorcaro já foi condenado por sequestro

Conhecido no Rio de Janeiro como “Manolo Dom”, Manoel Mendes Rodrigues, apontado pela Polícia Federal como um dos líderes da estrutura clandestina que atuaria em favor da família do banqueiro Daniel Vorcaro, acumula um histórico que inclui condenação criminal, atuação no jogo do bicho e uma tentativa frustrada de ingressar na política.
Preso na Operação Compliance Zero, “Manolo” é descrito pela PF como integrante de um núcleo responsável por intimidar, monitorar, perseguir e pressionar pessoas consideradas como ameaças aos interesses da família Vorcaro.
De acordo com os investigadores, a estrutura comandada por Manoel apresenta características compatíveis com uma organização paramilitar, com pessoal treinado e até mesmo fuzis.
Antes de aparecer no centro das investigações, porém, Manoel tentou construir uma trajetória na política. Em 2016, ele concorreu a uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo então Partido da Mobilização Nacional (PMN), atual Mobilização Nacional (Mobiliza), onde permanece filiado até hoje.
A candidatura, no entanto, acabou barrada pela Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) indeferiu o registro com base na Lei da Ficha Limpa em razão de uma condenação.
A condenação que levou “Manolo Dom” a ser impedido de disputar as eleições ocorreu em 2012. Naquele ano, ele foi condenado pelo crime de associação criminosa em processo que também teve como réu José Guilherme Cárdia Soares — à época apontado pela PF como um dos maiores estelionatários do Sudeste e investigado por fraudes envolvendo cartões de crédito.
Na sentença, Manoel recebeu pena de um ano e nove meses de reclusão, em regime inicial aberto. O processo transitou em julgado em 2013, sem possibilidade de novos recursos. Ao analisar o registro de candidatura, em 2016, o TRE-RJ concluiu que Manoel estava com os direitos políticos suspensos por causa da condenação, o que inviabilizava a sua empreitada eleitoral.
“Manolo Dom” continuou a aparecer em investigações da PF e da Justiça do Rio. Em 2010, segundo registros, ele chegou a ser investigado pela Polícia Federal por participação em um bingo clandestino e em máquinas caça-níqueis, no Estácio, no Centro do Rio.
Anos depois, contudo, Manoel voltou ao radar das autoridades em investigações de maior alcance. Segundo a Polícia Federal, ele se tornou uma peça importante da chamada “Turma”, grupo que teria atuado para proteger interesses da família Vorcaro por meio de monitoramento de adversários, obtenção de informações sigilosas e intimidação de desafetos.
Relatório da PF aponta que Manoel mantinha contato constante com Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, inclusive para discutir estratégias jurídicas após fases da Operação Compliance Zero. Em mensagens interceptadas pelos investigadores, ele demonstrava preocupação com os avanços da investigação e cobrava alinhamento das defesas dos integrantes do grupo.
Quem é quem
- André Martins Hodge, de acordo com a PF, atuava como intermediário entre Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e Manoel Mendes.
- Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, segunda a PF, atuava como operador financeiro em favor da “Turma” e mantinha contatos frequentes com Manoel, especialmente em favor da família do Sicário.
- Manoel Mendes Rodrigues é apontado como líder de uma organização fortemente armada Rio de Janeiro, com seguranças privados portando diversos armamento de grosso calibre, incluindo fuzis, veículos blindados e outros recursos típicos de organizações paramilitares.
Segundo a Polícia Federal, Manoel e Henrique Vorcaro mantinham comunicação constante e chegaram a trocar mensagens e telefonemas de longa duração até mesmo às vésperas da operação que resultou na prisão dos dois.
Os investigadores também identificaram movimentações financeiras envolvendo empresas ligadas a Manoel. Segundo a PF, uma de suas empresas recebeu transferências de R$ 200 mil de uma companhia associada a pessoas do círculo de Henrique Vorcaro.
Sicário
Em outras conversas analisadas, Manoel aparece tratando de pagamentos relacionados a integrantes da organização investigada e discutindo ações com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Segundo a PF, antes de Mourão ser preso em março deste ano, ele trocou 58 mensagens com “Manolo Dom”.
Após a morte do “Sicário” na prisão, Manoel viajou a Belo Horizonte, com o aval de Henrique Vorcaro, para se reunir com a mãe e a irmã do falecido. A intenção dele era comprar o silêncio das familiares, que cobravam dinheiro da família Vorcaro e ameaçavam acabar com a “delação do filho [Daniel Vorcaro], do cunhado e ainda jogo ele [Henrique Vorcaro] atrás das grades também”.
A Polícia Federal também relata que “Manolo” foi responsável por ameaçar, a mando de Daniel Vorcaro, Leandro Garcia da Silva, ex-chefe de cozinha do banqueiro, e Luis Fernando Woyceichoski, ex-capitão de um iate de Vorcaro.
Segundo depoimentos colhidos pela PF, Manoel Mendes Rodrigues se apresentava como um “empresário de jogos”, associado ao bicho. Conhecido há anos nos meios da contravenção, “Manolo Dom” também é apontado como parceiro do contraventor Bernardo Bello.
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