Economia

Copom muda regras do jogo para cortar juro e gera ruído no mercado

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, não surpreendeu o mercado. Mas a comunicação adotada pela autoridade não foi bem recebida: na curva de juros, os prefixados ampliaram o fosso para a taxa básica, e o juro do papel de inflação subiu ao maior nível da série.

Para Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, a explicação passa pela citação, no comunicado, do primeiro trimestre de 2028 como justificativa para cortar a Selic, que adicionou um ruído desnecessário ao processo, quebrando a coerência histórica do modelo utilizado pelo Banco Central, e aparentando que o BC quis mudar as regras do jogo.

“Deu a impressão de que [o Copom] teve que lançar mão de uma modificação no arcabouço com o qual ele trabalha para poder cortar o juro”, avalia Sobral em entrevista ao InfoMoney.

Leia também: Comunicado do Copom traz sinais de que fim – do ciclo de cortes – está próximo

O trecho que causou incômodo cita que “o Comitê avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos.” Para quem acompanha os comunicados à risca, citar um período fora da análise atual abre espaço para interpretações.

Tradicionalmente, o BC projeta seis trimestres à frente, o que culminaria no quarto trimestre de 2027. Ao estender o horizonte para o início de 2028, o Copom passou a impressão de estar “arrumando subterfúgios para cortar o juro num cenário que ele devia estar parado”, avalia Sobral.

Para ele, a “escolha infeliz” do ponto de vista reputacional obrigará a instituição a passar os próximos meses se explicando ao mercado. “Ele poderia acomodar a decisão desde que mantivesse a coerência com o discurso anterior”, afirma.

Foco na eleição: O fator “Lula 4”

Para o mercado, o conflito no Oriente Médio já é assunto resolvido, com o petróleo tendo passado do pico inicial, afirma Sobral. Ele aponta que, desde que o cenário eleitoral se consolidou com o favoritismo de Lula para um quarto mandato, o mercado mudou de postura, com o real apresentando desempenho inferior ao de outras moedas.

O mercado opera agora com a expectativa de que o Banco Central terá que interromper o ciclo de cortes na reunião de agosto devido à piora nas expectativas de inflação e à percepção de leniência da autoridade monetária frente ao cenário político.

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Sobral argumenta que o Brasil não sustenta mais quatro anos com juros reais em patamares tão elevados, em torno de 10%, o que acelera o crescimento da dívida pública mesmo com esforço no resultado primário. O receio é que, após a eleição, o governo tenha que escolher entre um ajuste fiscal rigoroso ou uma guinada para políticas heterodoxas, semelhantes às adotadas na Turquia, o que aumentaria a desconfiança dos investidores.

Economia real: dualidade e custo do capital

Na economia real, há uma dualidade: setores ultraprodutivos de commodities e agro, muitas vezes subsidiados, sobrevivem bem, enquanto o restante da indústria sofre com o custo do capital. Isso faz com que a economia avance em “múltiplas velocidades”, dependendo da conexão dos setores com o governo.

“Se o próximo governo for parecido com este, em que o fiscal for frouxo e tudo ficar nas costas do Copom, o Banco Central provavelmente vai aumentar o juro”, afirma Sobral.

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O alto custo de crédito e a energia cara são apontados como entraves severos para o investimento, especialmente na indústria de transformação. “O Brasil tem essa eterna promessa da energia barata, mas que não se materializa. O arcabouço jurídico é inseguro, a energia é cara, você está longe do centro consumidor”, analisa Sobral.

Infomoney

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