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Primeira mulher a narrar uma Copa na TV aberta, Renata Silveira fala sobre maternidade e os desafios de ser mulher no futebol

Primeira mulher a narrar uma Copa do Mundo na TV aberta no Brasil, Renata Silveira (36) nunca foi jogadora de futebol, mas bate um bolão! E suas façanhas são muitas: narradora, empresária, mãe, mulher e até bailarina — em vez de chuteiras, ela preferia as sapatilhas. Mas o futebol parecia estar escrito em seu destino! Após meses dedicados à maternidade da caçula, Rafaela (6 meses), a locutora voltou ao trabalho na TV Globo e no SporTV para viver mais uma Copa do Mundo, desta vez, in loco. Para viajar tranquila, sabendo que tudo seguirá bem no Brasil, ela conta com a ajuda de um timaço, formado pelo marido, o empresário Leandro Guimarães (39), e pelo primogênito, Bernardo (13). Em papo exclusivo com CARAS, a carioca reflete sobre seu pioneirismo na narração esportiva, representatividade e maternidade.

Renata Silveira, o marido Leandro Guimarães e os filhos Rafaela e Bernardo. Fotos: Marcio Farias

— Mais uma Copa! Se acostumou ou ainda dá frio na barriga?
— Frio na barriga sempre! Cada Copa tem algo especial. A de 2014 foi a primeira, tudo novo, até a narração, entendendo uma nova carreira. Em 2018, foi outra oportunidade e ali, sim, acreditando que aquilo podia ser possível. E em 2022, já consolidada, chegando à TV Globo, sendo a primeira mulher a narrar um jogo de Copa do Mundo na TV aberta… foi quando a ficha caiu. Recebi mensagens de mulheres da minha idade ou até mais velhas, falando: ‘Obrigada por não ter desistido, por estar aí. Tentei e não consegui e você está representando a gente’. Recebi vídeos de meninas pequenas me imitando. Entendi a importância de comandar uma transmissão de Copa do Mundo para a TV Globo, que tem uma audiência gigantesca. E é muito sobre isso, essa representatividade das meninas ligarem a TV e enxergarem mulheres em todos os setores. Antigamente o espaço da mulher era limitado, mas hoje temos narradoras, comentaristas e repórteres. As meninas podem ligar a TV e entender que é possível seguir esse caminho. Eu não tive essa referência. A Glenda Kozlowski, Vanessa Riche, Fernanda Gentil, eu olhava e pensava que queria ser igual, mas nenhuma delas narrava. Então, nunca imaginei ser uma narradora. Hoje, as meninas têm essa referência e isso é muito legal.

Renata Silveira na redação do SporTV, no Rio de Janeiro. Fotos: Marcio Farias

— E agora você vai narrar uma Copa pela primeira vez in loco!
— Com certeza, vou ficar emocionada. Já estou muito feliz, grata, até pelo momento que estou vivendo isso. Eu estou voltando da licença-maternidade… é quando as mulheres voltam cheias de incertezas, se vão ou não continuar no trabalho. E eu vou viver o auge da minha carreira. Estou realizada. Essa Copa já é a minha preferida.

— Como vai se organizar?
— Além da TV, eu também tenho uma escola de dança, a La Vie Danse. Então, desde o início foi um caos, porque assim que a Rafa nasceu, duas semanas depois, já teve o espetáculo da academia, que é o maior evento do ano. A gente está se organizando desde que ela nasceu, até antes na verdade. Já tínhamos o Bernardo, mas a gente sempre quis ter outro filho. E quem trabalha com grandes eventos tem sempre que pensar quando vai engravidar (risos). Então foi um período para dar certo e eu não ficar fora de nenhum evento, porque Copa do Mundo é só a cada quatro anos. A princípio, vou para ficar duas semanas e vou fazer EUA e Canadá, não sei ainda se vou para o México, porque a gente vai sabendo da escala ao longo da competição. Nessas duas semanas, Leandro vai dar conta de tudo, vai arrasar, ele é um paizão. Bernardo ajuda bastante também. E a gente está vendo uma pessoa para ajudar. E eu tenho rede de apoio, os meus pais ajudam. Ela não está só no peito, já está na fórmula, isso me deixa mais tranquila, ela vai se alimentar direito, já dorme a noite toda. Vai dar tudo certo.

Renata Silveira, o marido Leandro Guimarães e os filhos Rafaela e Bernardo. Fotos: Marcio Farias

— É um momento de realização pessoal e profissional…
— Ter essa rede de apoio, ter a empresa acreditando em você, entendendo que a maternidade não é um freio e que ela vai te impulsionar, faz diferença. Porque é difícil, a gente olha o cenário, principalmente no Brasil, de mães que não têm uma estrutura para seguir uma carreira. Às vezes, elas têm que abrir mão, têm que escolher uma coisa ou outra. E eu tenho o privilégio de poder ser mãe e também ser a narradora.

— O que entrou na sua vida primeiro, a dança ou o futebol?
— Eu danço desde os 3 anos e comecei a ir para estádio assistir ao jogo com meu pai aos 6, 7.
Eu já tenho essa vivência de torcedora, de viver o futebol. Sempre normalizei esse ambiente, por mais que fosse sempre muito masculino. E eu danço a vida toda, comecei a trabalhar com dança aos 15. Na faculdade, fiz Educação Física e, quando terminei, fiz uma pós em Jornalismo Esportivo, porque eu não me via em uma carreira
de sucesso na dança. Acabou que por conta da pós, fiz um concurso de narradora da Rádio Globo
na Copa de 2014 e, por conta de uma matéria de empreendedorismo, resolvi abrir a escola de dança. Foi tudo junto.

Renata Silveira e o marido Leandro Guimarães. Fotos: Marcio Farias

— Como é ser uma pioneira?
— Eu queria que outras mulheres já tivessem conquistado isso antes, até para diminuir a minha responsabilidade, o peso que eu tenho o tempo todo. Um dia tudo isso vai acabar e será só mais uma mulher narrando. Quero que isso aconteça. Eu fico feliz, honrada, mas é uma conquista que não é só minha. Muitas viram portas fechadas, foram silenciadas e não conseguiram, mas agora essa porta se abriu e eu abracei a oportunidade. Estou abrindo portas para que outras mulheres venham ocupar esses espaços e para as próximas gerações verem que é possível.

— Ainda existe preconceito com a mulher no futebol?
— A resistência ainda é grande, mas já entendi que faz parte. Lido bem com isso, porque alguém vai ter que passar por essas situações para que as próximas gerações sofram menos. Não vai acabar tão cedo, mas a tendência é que vá diminuindo. Tomara! Eu já vejo isso. Meu nome é muito forte em relação a isso, porque trabalhar na TV Globo é diferente, então o canhão é maior. Eu não posso errar, porque se eu errar vai virar meme, vai tomar uma proporção grande. Se fosse qualquer outro narrador, não teria a mesma repercussão. Eu preciso estudar mais, porque se eu errar vou provar para as pessoas que duvidam que eles estavam certos. Torço para que isso mude. Não tem problema não gostar do meu trabalho, do meu estilo de narração, faz parte. O problema é achar que a mulher não pode estar ali pelo fato de ela ser mulher.

Renata Silveira leva o marido Leandro Guimarães e os filhos Rafaela e Bernardo para conhecer a redação do SporTV, no Rio de Janeiro. Fotos: Marcio Farias

— E você mostra que uma mulher pode fazer de tudo.
— São várias possibilidades, a gente não pode ser colocada dentro de uma caixinha. A gente pode ser o que quiser. A gente pode ser narradora, pode ser empresária, mãe, mãe de novo. Que bom que a gente pode ter várias versões.



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