Invenção e reinvenção do futebol

Ancelotti, pela primeira vez, reconheceu que existe uma carência de grandes meio-campistas no futebol brasileiro. Disse ainda que a Espanha joga com muita posse de bola, muita troca de passes e associações no meio-campo porque tem a sorte de possuir jogadores excepcionais no setor.
Não é por sorte.
A Espanha forma um grande número de excelentes meio-campistas por convicção. No Brasil, os jogadores hábeis e criativos são deslocados para atuarem mais na frente, centralizados, no ataque ou pelas pontas.
Aqui persiste ainda a antiga divisão no meio-campo entre os volantes que marcam e os meias que atacam, embora nos últimos anos tenham surgido bons meio-campistas que atuam de uma intermediária à outra. Porém não há, com exceção de Bruno Guimarães, outro meio-campista de talento para o nível de uma seleção brasileira. Existem promessas.
A Espanha, campeã do mundo, bastante aplaudida, poderia ter jogado melhor se Pedri tivesse brilhado, como faz habitualmente, e se Lamine Yamal estivesse em forma, pois se recuperava de uma contusão durante o Mundial.
Há décadas os espanhóis priorizam o meio-campo. Uns 20 anos atrás, o Barcelona encantou o mundo e revolucionou o futebol, sob o comando de Guardiola, com um trio de craques meio-campistas formado por Busquets, Xavi e Iniesta. No mesmo modelo, a Espanha foi campeã do mundo em 2010 e bi da Europa em 2008 e 2012.
O time atual do Barcelona, com a contratação de Rodri, maestro e condutor do meio-campo da seleção, ficou ainda mais forte com a presença de outros campeões do mundo: Pedri, Olmo, o zagueiro Cubarsi, além de Raphinha.
Evidentemente, a maneira de jogar da Espanha não é a única eficiente. O ideal é unir, em um mesmo jogo, a posse de bola e a troca curta de passes, com as transições rápidas da defesa para o ataque, de acordo com o momento. Para isso, é necessário saber o instante certo de pausar, ficar com a bola, e o de acelerar em direção ao gol.
O futebol brasileiro vive um impasse. Não sabe se aposta no passado, como querem muitos saudosistas, priorizando o drible, a improvisação e as jogadas de efeito, ou se adota uma postura mais cientifica, pragmática, racional, como se tivesse um GPS para mostrar o caminho em direção ao gol.
Após o encantador futebol dos anos 60 e 70 —época de esplendor também nas artes, com o magistral “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e o surgimento de artistas geniais, como Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros— houve, a partir dos anos 80, progressivamente, uma grande transformação no futebol por causa da evolução cientifica. O jogo ficou mais estratégico, previsível e ruim.
Nos últimos 20 anos ocorreu uma reação, especialmente na Europa, com a união entre o jogo inventivo dos anos 60 e o pragmatismo e a disciplina tática. O futebol renasceu, voltou a ser bonito e eficiente, uma maneira de jogar que ainda não foi bem assimilada pelo futebol brasileiro e é uma das razões dos fracassos nos últimos seis Mundiais.
Seja qual for a época, não existe um único caminho para obter ótimos desempenhos e resultados. No instante do lance, os grandes craques inventam e reinventam o futebol.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Esporte / Folha de São Paulo



