Celebridades perdem espaço para IA e humor nas redes nessas eleições, avaliam especialistas

Nas eleições presidenciais de 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva tentava seu terceiro mandato pelo PT contra a reeleição de Jair Bolsonaro, a cultura se tornou um campo de batalha.
O petista contava com apoio de uma mistura de celebridades da velha guarda, com histórico de engajamento político, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil –que foi ministro da Cultura do petista em seu primeiro mandato–, e nomes mais jovens, como as cantoras pop Pabllo Vittar, Anitta, Ludmilla e Iza. Atores como Wagner Moura, Fernanda Torres, Camila Pitanga e Marieta Severo também se manifestaram.
O lado bolsonarista contou com apoio em peso do setor sertanejo. Gusttavo Lima, Chitãozinho, Zezé Di Camargo, Leonardo e Fernando –da dupla com Sorocaba– foram vocais em sua preferência pelo então presidente. Os jogadores de futebol Neymar e Ronaldinho Gaúcho também declararam seu suporte.
Hoje, o cenário é outro. Até a metade de setembro, poucos famosos haviam declarado voto ou pedido apoio para Lula, que ruma ao quarto mandato, ou Flávio Bolsonaro, que representa o pai, preso desde 2025.
Entre os artistas que se manifestaram por Flávio está Amado Batista. Em julho, o cantor recebeu o candidato em sua fazenda, em Goiás, e declarou apoio a ele em um vídeo publicado nas redes do senador.
Segundo o estudioso de mídias sociais e professor da Faculdade Cásper Líbero, Luis Mauro Sá Martino, o posicionamento político por parte de celebridades é uma relação de mão dupla.
Por um lado, artistas emprestam aos políticos o que ele chama de “capital midiático”, ou seja, o prestígio e a visibilidade. Por outro lado, o político oferece o “capital político”, que ele define como a relevância na tomada de decisões sobre questões públicas.
Ele afirma que existe um risco de perda de público quando um artista se posiciona politicamente. “Uma coisa é o artista se posicionar em relação às questões de seu tempo, de maneira mais geral; outra é assumir um apoio partidário”, afirma. Ao se vincular a um candidato, político ou partido, artistas precisam tomar posições mais incisivas e acabam associando suas carreiras ao desempenho daquele político. “Artistas buscam públicos, não necessariamente eleitores”, diz Sá Martino.
Em 17 de setembro, Janja publicou nas redes um vídeo de apoio à reeleição de Lula com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Malu Mader, Paulinho da Viola, Sophie Charlotte e Xamã. Na gravação, eles dizem “Bora Lula”, e alguns fazem o “L” com os dedos. A ação foi coordenada pela 342 Artes, movimento encabeçado por Paula Lavigne, empresária e mulher de Caetano Veloso.
Xamã voltou a se manifestar na quinta-feira (24). Em uma publicação no X, o rapper escreveu que “não existe rap de direita” nem “trapper bolsonarista” e criticou artistas que se dizem apolíticos.
A campanha de Lula se mobiliza nas redes para angariar apoio dos fandoms, grupos de fãs de determinados artistas como Beyoncé, Anitta, Lady Gaga, Marina Sena, Dua Lipa, Harry Styles e o grupo coreano BTS.
Para fins comparativos, em 2022 as eleições eram tema no meio artístico desde o primeiro semestre. No Lollapalooza daquele ano, em março, Pabllo Vittar bradou: “Fora, Bolsonaro!” e ergueu uma toalha com o rosto de Lula.
Neste ano, nem o Lollapalooza, em março, nem o Rock in Rio, em setembro, foram palco de posicionamentos políticos explícitos. Durante seu show, Ivete Sangalo disse que “a gente não precisa de armas, precisa de amor”, em uma mensagem crítica, mas cifrada, a Flávio Bolsonaro. Depois, a cantora “fez o L” em um show em Salvador. Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, fez um discurso crítico aos ministros do STF e políticos em geral antes de tocar “Que País É Esse?”, do Legião Urbana.
Segundo Fabio Malini, coordenador do Labic (Laboratório de Internet e Ciência de Dados) da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), o discurso político nas artes aparece hoje de forma menos vinculada às eleições. Anitta, por exemplo, passou do discurso anti-Bolsonaro para uma defesa da tolerância religiosa, pauta associada ao campo progressista no Brasil.
Malini afirma que a mudança do funcionamento das redes teve papel importante na passagem de celebridades para o segundo plano das eleições. No último pleito presidencial, em 2022, o conteúdo que aparecia para um usuário ainda era aquele produzido pelos perfis que ele seguia. Isso dava força ao conteúdo produzido por influenciadores e celebridades.
Hoje, o conteúdo que chega aos usuários não é o dos perfis que eles seguem, mas o que a própria plataforma “empurra via feed algorítmico”, diz Malini. Isso significa que perfis perdem espaço para “trends”, e produtores perdem espaço para interesses.
Na prática, isso dá mais peso a influenciadores de médio porte e a perfis humorísticos. Segundo Malini, são esses tipos de conteúdo que têm dado o tom das eleições de 2026. Ele afirma que não é exagero dizer que o humor e as postagens feitas a partir de inteligência artificial são o ecossistema que domina as redes nessas eleições. Hoje, isso é bem maior que as contas de influência, como Choquei, que disseminavam o discurso político das celebridades.
Agora, imperam os cortes curtos em vídeos, o humor com IA, as trends e os áudios compartilhados e utilizados à exaustão em vídeos cômicos.
Folha de São Paulo



