Disputa na Amazônia ignora floresta em pé, e candidatos defendem abertura de áreas e grandes obras

A floresta em pé não é pauta e não dá votos na disputa pelo poder nos estados da Amazônia, a julgar pelos discursos e pelas campanhas dos candidatos aos governos estaduais que têm chances de ser eleitos no próximo domingo (4) ou no segundo turno da disputa, no dia 25.
O que existe é o contrário: candidatos defendem abertamente a anistia a fazendeiros que desmatam, a reversão de demarcações de territórios para populações tradicionais, o direito de mais abertura de áreas de floresta e a consolidação de grandes empreendimentos de infraestrutura que impactam comunidades, expandem a degradação de áreas de floresta e permitem mais grilagem de terras.
Discursos e promessas de campanha são carregados de negacionismo, inclusive climático, em que se nega a existência de seca extrema –como a registrada em 2023 e em 2024– como um ponto fora da curva dos ciclos naturais do bioma amazônico. Esse negacionismo contraria o que a ciência já constatou.
A floresta é um regulador do clima, e a preservação é decisiva para eventual freio do aumento global de temperaturas. Diferentes mecanismos de geração de renda são discutidos, e já implementados, em associação à floresta em pé e ao modo de vida diretamente ou indiretamente integrado ao bioma. Esse modo de vida é a realidade de milhares de amazônidas.
A degradação de áreas tem impactos diretos em comunidades e cidades, com mais fogo, fumaça, cheias descontroladas e alteração climática. Nada disso, porém, faz parte do dia a dia das campanhas pela cadeira de governador nos estados.
Na região amazônica, a disputa eleitoral é protagonizada por candidatos de direita e de centro-direita.
O discurso bolsonarista de flexibilização da fiscalização e do licenciamento ambientais –e de permissividade a atividades como o garimpo de ouro e a expansão de áreas devolutas ocupadas por gado e soja– ganhou corpo no mesmo ritmo do avanço de arcos de desmatamento, especialmente no sul do Amazonas, no Acre e em Rondônia.
Na busca por votos, de uma forma que a candidatura se mostre competitiva, não sobrou espaço para plataformas distintas, como provam as últimas disputas pelos cargos de governador na Amazônia.
O senador Omar Aziz (PSD-AM), que quer voltar a ser governador do Amazonas, tem como uma das bandeiras de campanha –e de toda a sua pré-campanha– a pavimentação do trecho do meio da BR-319, rodovia construída durante a ditadura militar e que conecta Manaus a Porto Velho.
Manaus ficou sob densa fumaça por dias seguidos em setembro, repetindo a crise verificada na seca extrema de 2023 e 2024, quando as ondas de fumaça duraram meses. A fumaça é proveniente da derrubada e queima da floresta, inclusive em áreas que estão no percurso da BR-319.
“Todo mundo disse que ia ter uma grande seca [neste ano] e não está tendo”, disse o senador no debate promovido pela TV Globo e afiliadas, entre candidatos a governador, na última terça-feira (29). “Isso aqui está normal.”
Omar defendeu a pavimentação da BR-319; a inviabilidade de se ter lugares com 90% de preservação, como a região de Barcelos (AM), no médio rio Negro; e a exploração de potássio na região de Autazes (AM), um projeto privado que usa o território do povo mura. O candidato também propõe a exploração de terras raras e de ouro no Amazonas.
“O amazonense nasce em cima da riqueza, vive em cima da riqueza e morre na pobreza”, disse Omar.
Os oponentes do senador fazem discursos semelhantes. A bolsonarista Maria do Carmo (PL) afirmou no debate que “seca acontece todos os anos”, um discurso negacionista sobre os extremos. “Existe amadorismo diante disso, não temos aeronaves para apagar os incêndios.” Roberto Cidade (União), atual governador, quer a exploração de potássio e outras obras de grande impacto.
Em Rondônia, os candidatos competitivos na disputa são bolsonaristas. O senador Marcos Rogério (PL-RO) diz que quer ser governador para “promover política de regularização fundiária efetiva”. Adailton Fúria (PSD), ex-prefeito de Cacoal, afirma que é preciso rever demarcações de áreas.
“Criaram reserva em cima de área documentada, tirando pai de família de área produtiva”, disse o ex-prefeito no debate na terça. Ele ecoa um discurso comum no estado, feito por grileiros que avançam por áreas devolutas da União. Em Rondônia, atos de governo já reverteram a criação de áreas de preservação. O estado é um dos mais desmatados e degradados na Amazônia.
A regularização fundiária e a expansão de áreas para soja e milho estão entre as principais propostas dos candidatos de direita do Acre, o terceiro estado da chamada Amacro –o arco de desmatamento que se estende por Amazonas, Rondônia e Acre.
Mailza Assis (PP), governadora que tenta a reeleição, diz que o espaço de terras para o agronegócio é pequeno no Acre, em razão da presença da floresta. “É preciso haver expansão do território que possa ser cultivado. Já exportamos soja e milho”, afirmou no debate entre candidatos antes do primeiro turno.
O principal oponente de Mailza, senador Alan Rick (Republicanos-AC), vai na mesma direção. “Vou buscar aumentar nossa área produtiva, fazer regularização fundiária e dar fim a embargos que maltratam produtores rurais”, disse.
Na amazônia oriental, o discurso de segurança jurídica no campo –com regularização fundiária e sem “perseguição” a produtores rurais– marca a disputa pelo governo do Pará, um estado onde a disputa pela terra se manifesta com violência e mediante grilagem em boa parte dos casos.
“O governo de vocês trata o produtor rural como bandido”, disse o ex-prefeito de Ananindeua (PA) Daniel Santos à atual governadora Hana Ghassan (MDB). Os dois disputam o governo do Pará e participaram do debate entre candidatos a governador na terça. “Nosso produtor quer segurança jurídica. E o garimpeiro quer a oportunidade de se legalizar”, afirmou o ex-prefeito.
Hana, que coordenou as ações preparatórias do governo local para a realização da COP30 (conferência do clima da ONU) em Belém, em novembro do ano passado, menciona em suas falas o combate ao desmatamento e diz que houve redução da devastação no Pará –ela é uma dos poucos candidatos em toda a Amazônia que fazem menções do tipo nos discursos.
Ainda assim, a governadora faz acenos aos produtores rurais do estado. “Sabemos que o Pará tem vocação para produzir, o governo vai apoiar cada vez mais. A regularização fundiária é fundamental no nosso estado.”
No Amapá, tanto o governador Clécio Luís (União) quanto seu oponente, o ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD), defendem a exploração de petróleo na costa amazônica. A Petrobras detectou hidrocarbonetos no processo de perfuração de um poço em alto-mar, na altura de Oiapoque (AP), e vai perfurar mais três poços para dimensionar a viabilidade comercial do empreendimento.
Folha de São Paulo



