Criadora da estátua de Pedro Ludovico morreu sem vê-la pronta

Quem passa pela Praça Cívica, em Goiânia, encontra Pedro Ludovico Teixeira montado a cavalo em uma estátua de sete metros de altura. O que muita gente não sabe é que a mulher responsável pela criação do monumento morreu sem conseguir vê-lo pronto. A escultora Neusa Moraes dedicou os últimos 12 anos de vida ao projeto, encomendado pela Prefeitura em 1991. A obra enfrentou problemas financeiros, passou anos nos fundos de uma igreja e só foi instalada em 2010, seis anos após sua morte.
Neusa morreu em 28 de fevereiro de 2004. Na época, a estrutura da estátua já havia sido produzida, mas ainda faltava o revestimento em bronze, necessário para sua conclusão. A história está documentada em pesquisa do historiador Rildo Bento de Souza, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), publicada na revista científica Mosaico, da PUC Goiás.
A escultora também criou o Monumento às Três Raças, instalado no centro da mesma praça e inaugurado durante sua vida. As duas obras estão entre os símbolos da capital, mas a história da estátua de Pedro Ludovico reúne quase duas décadas de espera, falta de recursos e discussões sobre o lugar onde deveria ficar.
Prefeitura contratou artista em 1991

A ideia de construir uma estátua de Pedro Ludovico surgiu durante as comemorações pelos 100 anos de nascimento do político, em 1991. Naquele período, a Prefeitura de Goiânia era comandada por Nion Albernaz.
Neusa Moraes foi contratada para produzir uma escultura que mostrasse Pedro Ludovico montado a cavalo. O projeto recebeu o nome de Resgate à Memória e contou com a participação do escritor José Mendonça Teles.
O contrato nº 030/91, publicado no Diário Oficial de Goiânia em 27 de dezembro daquele ano, previa 150 dias úteis para a execução artística do monumento. A Prefeitura ficava responsável pela etapa de fundição em bronze.
A previsão inicial, entretanto, ficou distante da realidade. O trabalho começou, Neusa produziu a estrutura, mas a conclusão da obra esbarrou na falta de financiamento para o revestimento final.
O projeto, pensado para homenagear o fundador da capital, atravessou diferentes administrações sem chegar ao destino planejado.
Estátua ficou anos nos fundos de uma igreja
Depois de produzir a estrutura em ferro e gesso, Neusa aguardou os recursos necessários para transformar o projeto no monumento de bronze que hoje está na Praça Cívica.
A etapa final não foi realizada pela Prefeitura conforme a previsão original, e a escultura permaneceu durante anos nos fundos da Igreja Coração de Maria, no Centro de Goiânia.
O episódio consta da pesquisa de Rildo Bento de Souza, que recupera publicações da época e relatos sobre as tentativas de Neusa para conseguir a conclusão do trabalho.
A situação se prolongou até os últimos anos de vida da artista. Embora a obra já estivesse modelada, ainda não havia condições de instalá-la em uma praça pública.
Neusa morreu em 2004, sem acompanhar a fundição, o transporte e a inauguração do monumento.
Após sua morte, o projeto teve continuidade com a participação de Júlio Valente, escultor que havia trabalhado como seu assistente. O Governo de Goiás assumiu a etapa de fundição em bronze, realizada pela empresa Fundiart, em Piracicaba, no interior de São Paulo.
Somente em outubro de 2010 a estátua chegou a Goiânia. Para realizar o transporte, a peça precisou ser dividida em oito partes.
No mês seguinte, o monumento foi instalado na Praça Cívica, aproximadamente 19 anos depois de sua encomenda.
Estátua quase foi parar no Morro da Serrinha

A demora para concluir o monumento não foi o único problema. Quando a obra finalmente ficou pronta, outra discussão surgiu: onde colocar uma estátua de sete metros de altura e aproximadamente 2,5 toneladas?
Uma das propostas era instalar Pedro Ludovico no alto do Morro da Serrinha. A ideia tinha relação com a narrativa histórica de que o fundador de Goiânia teria observado daquela região o terreno escolhido para construir a nova capital.
A localização permitiria representar Pedro Ludovico montado a cavalo e voltado para a cidade.
Entretanto, a proposta enfrentou resistência. Familiares do homenageado defendiam a instalação na Praça Cívica, espaço diretamente ligado à história política de Pedro Ludovico. Também surgiram preocupações ambientais relacionadas à ocupação do Morro da Serrinha.
A discussão envolveu artistas, historiadores, arquitetos, ambientalistas, políticos e integrantes da família do fundador de Goiânia.
Em 26 de julho de 2010, a Lei Municipal nº 8.942 determinou que o monumento Resgate à Memória fosse instalado na Praça Cívica.
A chegada da estátua, porém, não encerrou a história. Inicialmente, ela ficou ao lado do Palácio Pedro Ludovico Teixeira, em um pedestal menor.
Em 2015, durante a requalificação da Praça Cívica, a obra foi transferida para sua localização atual e recebeu uma nova estrutura de sustentação.
Assim, o monumento encomendado em 1991 só alcançou seu lugar definitivo 24 anos depois.
Quem foi a mulher que criou a estátua?

Neusa Rodrigues Moraes nasceu em 1932, na Cidade de Goiás, antiga capital do estado. Desde a infância, demonstrou interesse pelo desenho e recebeu incentivo das religiosas do colégio onde estudava.
O tio responsável por sua criação, Jorge Félix de Souza, que era engenheiro e arquiteto, também influenciou sua aproximação com a arte.
Após conquistar uma bolsa de estudos em um concurso artístico, Neusa mudou-se para São Paulo, onde estudou na Escola de Belas Artes e se especializou em escultura.
De volta a Goiás, passou a trabalhar com diferentes materiais, como madeira, pedra-sabão, ferro, bronze e cerâmica. Suas obras chegaram a exposições e coleções dentro e fora do Brasil.
Entre 1971 e 1992, foi professora no Instituto de Artes da UFG, atual Faculdade de Artes Visuais. Depois de se aposentar, concentrou parte do trabalho na criação da estátua de Pedro Ludovico.
Mas essa não foi sua primeira contribuição à paisagem de Goiânia.
Décadas antes, Neusa havia criado o Monumento às Três Raças, inaugurado em 1967, no centro da Praça Cívica. A escultura representa três figuras humanas, tradicionalmente identificadas como um indígena, um negro e um branco, que sustentam juntas uma estrutura em referência à formação da cidade.
O monumento se tornou uma das imagens mais conhecidas de Goiânia. Neusa participou de sua inauguração e acompanhou a presença da obra no cotidiano da capital durante décadas.
Com a estátua de Pedro Ludovico, sua experiência foi diferente: a artista morreu antes da conclusão do projeto ao qual dedicou os últimos anos de vida.
Dois monumentos da mesma mulher na Praça Cívica

Atualmente, quem visita a Praça Cívica encontra duas obras de Neusa Moraes a poucos metros uma da outra.
De um lado, o Monumento às Três Raças representa os trabalhadores associados à construção da capital. De outro, Pedro Ludovico aparece montado a cavalo, em uma homenagem ao responsável pela transferência da capital estadual.
A trajetória da artista também passou a receber reconhecimento em outros espaços públicos. Em 2016, a Câmara Municipal de Goiânia inaugurou o Espaço Cultural Neusa Moraes, destinado a exposições de artes plásticas.
A história da estátua equestre, entretanto, acrescenta um capítulo à memória da capital: a obra que hoje integra a paisagem da Praça Cívica foi concluída somente após a morte da mulher que a criou.
Neusa viu seu primeiro monumento chegar ao centro de Goiânia. O segundo precisou esperar seis anos após sua morte para ocupar a praça.
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