Saúde

Por que dançar faz tão bem?

A geração que ajudou a popularizar o TikTok com coreografias virais é a mesma que tem deixado as pistas mais tímidas. Basta uma rápida pesquisa nas redes sociais para encontrar centenas de vídeos sugerindo, às vezes de forma irônica, que sair para dançar já não é uma prioridade de boa parte dos jovens da Geração Z. Em tempos marcados por uma epidemia de solidão, o declínio desse tipo de lazer reduz as oportunidades de aliviar a tensão e de conexão com outras pessoas sem a mediação de uma tela. A seguir, apontamos o que está por trás desse comportamento e por que dançar faz tão bem para a saúde física e mental.

Medo de errar

Mesmo quando ninguém está filmando, a possibilidade está sempre ali, no bolso do colega. E saber disso pode ser suficiente para travar alguém na pista —especialmente numa época em que a preocupação com a performance frequentemente fala mais alto do que a vontade de viver verdadeiramente uma experiência. Para quem pensa dez vezes antes de publicar uma imagem nas redes sociais, soltar-se na dança —sem filtro, sem edição e sem segunda tentativa— pode parecer vulnerabilidade demais. Não à toa, várias casas noturnas pelo mundo estão criando regras para coibir registros e até exigem que os frequentadores coloquem adesivos sobre as câmeras antes de entrar. Em Ibiza, ilha espanhola que há décadas dita as tendências noturnas, boa parte dos clubes já aderiu à política “phone-free”.

Também vale lembrar que, devido à pandemia, milhões de pessoas passaram anos decisivos da adolescência e do início da vida adulta longe de festas, shows e casas noturnas. Quando tudo voltou ao normal, o interesse e a familiaridade com esses espaços já estavam perdidos —e também a desenvoltura para abordar alguém, circular entre desconhecidos ou simplesmente dançar.

O poder do movimento

A diversão já seria motivo suficiente. Mas esse hábito também faz bem para o corpo. Dançar melhora o condicionamento cardiorrespiratório, fortalece a musculatura e está associado a um menor risco de doenças cardiovasculares. De quebra, ainda ajuda a desenvolver equilíbrio, flexibilidade, coordenação motora e consciência corporal.

A mente também agradece. Segundo Peter Lovatt, psicólogo e autor do livro The Dance Cure, a dança ativa áreas do cérebro ligadas à emoção, à memória e à tomada de decisão. A improvisação corporal — sem coreografia, sem espelho — estimula a criatividade e a flexibilidade mental. É por isso que empresas, escolas e até hospitais vêm usando a prática como ferramenta de conexão e resolução de problemas.

No mesmo ritmo

A pista também aproxima as pessoas. Quando sincronizamos os movimentos, a sensação de presença e conexão com quem está ao redor aumenta. Um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, concluiu que dançar em grupo reforça a sensação de pertencimento e fortalece os vínculos sociais.

Talvez seja por isso que a dança tenha ocupado um papel tão importante na vida coletiva ao longo dos séculos. Essa atividade social, comum em tantas culturas, transcende gerações, classes sociais, nacionalidades e posicionamentos políticos. É, também, uma poderosa forma de expressão. Tradições como o bumba meu boi, o frevo, o maracatu, o carimbó, reconhecidas inclusive como patrimônio imaterial brasileiro, mostram como o corpo em movimento também traduz identidades coletivas.

Um, dois, três

O poder de engajamento de uma coreografia vai além das redes sociais. Aprender uma dança pode ser um bom jeito de movimentar o corpo, conhecer gente nova e descobrir uma atividade prazerosa. Da zumba ao samba rock, passando pelo charme, hip hop, dança do ventre ou contemporânea: é só achar o passo certo. Diferente de muitos hobbies, essa prática não exige equipamento caro ou grande preparo físico. Além disso, há aulas gratuitas espalhadas por centros culturais, praças e ruas de diversas cidades.

Além dos benefícios físicos e das oportunidades de convivência, dançar oferece uma experiência cada vez mais rara numa rotina orientada pela produtividade: fazer algo sem precisar demonstrar competência. Quando o objetivo é aproveitar a música, há espaço para improvisar, errar um passo e deixar de controlar cada gesto. A atenção se volta para o corpo, o ritmo e o que acontece naquele momento, sem a obrigação de produzir algo que possa ser medido ou publicado. Em grupo, essa experiência ganha outra dimensão: acompanhar os movimentos de alguém, dividir o espaço e responder a um gesto são pequenas formas de interação que dispensam palavras.

Informação

Folha de São Paulo

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