Doenças neurológicas atingem quase metade das pessoas nas Américas

Cerca de 2 em cada 5 pessoas no continente americano convivem com pelo menos uma condição neurológica. Isso representa aproximadamente 470 milhões de portadores de demências, tumores, epilepsia, Parkinson, problemas de neurodesenvolvimento, entre outros. Os dados são de um estudo conduzido pela Organização Pan-Americana da Saúde, recém-publicado no The Lancet Regional Health.
Os autores mapearam o cenário em 38 países das Américas entre 1990 e 2025 quanto à prevalência, mortalidade e incapacidade de 19 condições com alta taxa de morbidade e mortalidade precoce. Entre as doenças avaliadas, muitas estão associadas a fatores de risco modificáveis e, portanto, seriam passíveis de prevenção. As principais condições na região, incluindo o Brasil, são enxaqueca, Alzheimer e acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico e hemorrágico.
Ao longo dos últimos anos, houve uma queda nas taxas de AVC isquêmico e hemorrágico e um aumento de doenças neurodegenerativas, como esclerose múltipla e doença do neurônio motor. Também houve uma transição da tendência de mortalidade prematura para incapacidade crônica.
Essa transição epidemiológica se deve principalmente a três fatores interligados: o envelhecimento da população, que leva a maior prevalência de condições neurológicas e declínio cognitivo acumulado; o aumento da sobrevida; e a melhora no diagnóstico. “Por conta das melhorias nos cuidados médicos e tratamentos, indivíduos que antes enfrentavam uma mortalidade precoce agora sobrevivem por muito mais tempo. Como consequência, essas pessoas passam a conviver por décadas com sequelas e limitações funcionais de longo prazo”, analisa a neurologista Cristina Gonçalves Massant, do Einstein Hospital Israelita.
É o caso, por exemplo, de condições vasculares e congênitas que antes causavam óbito precoce e agora são tratadas com maior eficácia, permitindo que os pacientes sobrevivam por muito mais tempo. Segundo Massant, o aumento nos registros de transtornos do neurodesenvolvimento, como o autismo, e de doenças neurodegenerativas ou neuromusculares também se deve à maior conscientização e capacidade dos sistemas de saúde de identificar, testar e diagnosticar essas condições.
A contrapartida é uma sobrecarga e maior pressão sobre o sistema de saúde, já que condições crônicas e de longo prazo exigem cuidados continuados, tratamentos multidisciplinares e serviços de reabilitação integrados, bem como grande número de profissionais capacitados. “Reduzir o impacto de condições neurológicas tão heterogêneas e complexas exige cautela com abordagens genéricas”, observa a neurologista.
Ações por toda a vida
O novo levantamento propõe uma estratégia integrada ao longo do curso de vida (life-course approach), combinando a prevenção de fatores de risco modificáveis com o fortalecimento estrutural dos sistemas de saúde, já que em cada etapa os desafios são diferentes.
Na infância e adolescência, o foco deve ser o cuidado com o neurodesenvolvimento. Isso inclui a prevenção da exposição às causas ambientais, já que se estima que quase 60% da carga de deficiência intelectual na América pode ser atribuída ao chumbo, metal que interfere no desenvolvimento do sistema nervoso e que está presente em algumas tintas, encanamentos, entre outros. “É urgente aplicar regulamentações ambientais rígidas, realizar a remediação de áreas contaminadas e prevenir a poluição industrial ativa”, frisa a médica. No caso de transtornos como o autismo, inclui a integração entre os sistemas de saúde, educação e assistência social.
Na juventude e na idade adulta, é preciso atenção aos fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão, além do combate ao tabagismo e consumo nocivo de álcool, associados, respectivamente, à esclerose múltipla e à epilepsia idiopática. Condições como enxaqueca e epilepsia devem ter tratamento adequado, já que são as principais causas de incapacidade nessa faixa etária.
Nos idosos, a prioridade são as estratégias de prevenção de demências, já que se estima que até 40% dos casos de Alzheimer e outras demências poderiam ser evitados com controle dos fatores de risco, entre eles glicemia de jejum elevada, obesidade, tabagismo e poluição do ar. Em todas as fases, é necessário implementar reformas estruturais de saúde para fortalecer os serviços de reabilitação, capacitação de profissionais de saúde e facilitar acesso a exames, consultas e tratamentos.
Informação
Folha de São Paulo



