Ingleses fugiram com ouro após revolta em Goiás; cidade faz 73 anos

Uma revolta de garimpeiros fez uma companhia inglesa abandonar as minas de ouro de Crixás, no Norte de Goiás, em 1923. Os estrangeiros deixaram a região levando todo o ouro que já havia sido fundido. O episódio, registrado em documentos históricos da Prefeitura e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), marcou a economia local e integra a trajetória do município, que completa 73 anos de emancipação nesta sexta-feira (30).
A empresa responsável pela exploração era a John Taylor & Sons, que havia adquirido as terras onde estavam localizadas as minas Chapéu de Sol e Venâncio. A companhia encerrou suas atividades após o conflito com trabalhadores do garimpo.
Os registros não informam o que provocou a revolta, quantos garimpeiros participaram do movimento ou a quantidade de ouro retirada pelos ingleses. A documentação confirma, entretanto, que a saída da empresa afetou atividades comerciais associadas à mineração.
Geólogo descobriu minas e morreu após saída dos ingleses

A presença da companhia britânica em Crixás esteve ligada ao geólogo Albrecht Dietz, conhecido como “o Alemão”. Ele identificou as minas Chapéu de Sol e Venâncio no início do século XX, período em que a exploração aurífera voltou a ganhar espaço na economia regional.
Uma pesquisa acadêmica desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB), pela geógrafa Luana Nunes Martins de Lima, aponta que a extração de ouro também ocorria de forma independente, inclusive por mulheres que utilizavam bateias para procurar o metal no leito do Rio Vermelho.
A chegada da John Taylor & Sons modificou a estrutura de exploração das minas. A companhia passou a operar nas terras adquiridas e permaneceu na região até a revolta de 1923.
Dietz, além de atuar na identificação de jazidas, mantinha um comércio de suprimentos destinado aos garimpeiros estrangeiros. Com a interrupção das atividades da empresa, perdeu parte de sua clientela e enfrentou dificuldades financeiras.
Segundo a pesquisa, o geólogo chegou à falência, adoeceu e morreu em Crixás em 1927, quatro anos após a saída dos ingleses.
História da mineração em Crixás começou em 1726

A relação de Crixás com o ouro começou quase dois séculos antes da chegada dos ingleses. Conforme o histórico oficial da Prefeitura, a região foi alcançada em 1726 pela bandeira de Bartolomeu Bueno, filho do Anhanguera.
Naquele período, foram identificadas jazidas que estimularam a ocupação colonial. O território, entretanto, já era habitado por povos indígenas, cuja presença antecedeu a chegada dos exploradores.
O primeiro povoado recebeu o nome de Nossa Senhora da Conceição. Em 1740, foi elevado à condição de arraial e, em 1755, passou à categoria de paróquia.
A exploração de ouro contribuiu para a formação econômica e populacional da região. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a atividade passou por diferentes fases, com períodos de crescimento e retração.
Um estudo publicado pelo próprio Mais Goiás sobre a história da mineração colonial mostrou que Crixás possuía 1.366 pessoas escravizadas registradas em levantamentos de capitação de 1736, dado que evidencia a participação do trabalho compulsório na exploração aurífera daquele período.
Crixás completa 73 anos de emancipação em outubro
Embora a origem do povoado remonte ao século XVIII, Crixás conquistou autonomia administrativa em 30 de outubro de 1953, por meio da Lei Estadual nº 850.
A legislação desmembrou o território de Itapaci e criou oficialmente o município. A instalação administrativa ocorreu em 1º de janeiro de 1954.

Por isso, Crixás comemora 73 anos de emancipação política em 2026, embora sua formação histórica tenha começado aproximadamente três séculos antes.
A trajetória municipal reúne diferentes períodos de exploração mineral, mudanças administrativas e transformações econômicas. O episódio envolvendo a companhia inglesa ocorreu 30 anos antes da emancipação.
Mina de ouro foi vendida por US$ 72,8 milhões em 2025

Mais de um século depois da revolta, a mineração continua presente na economia de Crixás. A exploração industrial ganhou escala no fim da década de 1980, com a implantação da Mineração Serra Grande.
Em 1º de dezembro de 2025, a Aura Minerals concluiu a aquisição da operação, anteriormente controlada pela AngloGold Ashanti.
Segundo comunicado oficial da Aura Minerals, a transação envolveu um pagamento inicial de US$ 72,8 milhões, além de valores adicionais vinculados à produção mineral.
O complexo de Serra Grande reúne três minas subterrâneas, uma mina a céu aberto e uma unidade de processamento de minério.
Em 2024, a operação produziu aproximadamente 80 mil onças de ouro, equivalentes a cerca de 2,49 toneladas. Desde 1998, a produção acumulada ultrapassou 3 milhões de onças, de acordo com informações apresentadas pela empresa.
A presença da mineração industrial representa uma transformação em relação às atividades realizadas por garimpeiros independentes e pela companhia inglesa no início do século XX.
Mineração também enfrenta questões ambientais em Crixás
A continuidade da atividade mineradora no município envolve questões ambientais e de fiscalização.
Em dezembro de 2025, a Mineração Serra Grande assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad).
Conforme reportagem do Mais Goiás, o acordo estabeleceu obrigações ambientais e compensações de R$ 39,5 milhões. Também previu indenização de R$ 146 milhões em caso de descumprimento das condições estabelecidas.
As medidas estão relacionadas à regularização da operação e à reparação de danos ambientais.
O cenário demonstra como a atividade mineral, que participou da formação histórica de Crixás, permanece associada a decisões econômicas, fiscalização pública e impactos sobre o território.
A cidade chega aos 73 anos de emancipação com uma história que começou na mineração colonial, passou pela fuga dos ingleses em 1923 e chegou à exploração industrial contemporânea.
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