Esporte

A nova cara, cara, dos tênis de corrida

O mundo era claramente outro no fim dos anos 1970, quando o estadunidense James Fixx lançou o livro ainda hoje canônico da corrida, cuja versão brasileira ganhou o nome de “Guia Completo de Corrida”.

A atividade fez com que o autor, antes fumante inveterado, abandonasse os 40 cigarros diários e perdesse quase ⅓ de seu peso, mas não o livrou de um infarto fulminante aos 52 anos –justamente quando corria. Fixx tinha um antecedente familiar: seu pai havia morrido do coração ainda mais jovem, aos 43 anos.

Em seu best-seller, Fixx ensinava ao leitor coisas como fazer um calção: bastava cortar o tecido das pernas da calça jeans. Vai vendo. O autor e o mundo ainda não haviam sido plenamente apresentados aos estratagemas da indústria de calçados esportivos, e Fixx talvez ficasse com muitas pulgas atrás das orelhas ao ouvir falar de coisas como “responsividade”.

Esse substantivo é hoje utilizado sem qualquer cerimônia pelos fabricantes para falar da suposta capacidade de seus tênis de corrida de devolver, como energia, o esforço muscular empreendido na primeira parte da passada, quando o pé toca o chão, na chamada aterrissagem.

(Fixx provavelmente também diria que só aviões, helicópteros e o Dadá Maravilha aterrissavam, mas bola pra frente.)

A Nike chega mesmo a indicar um coeficiente de responsividade de seu tênis Zoom X, que é, segundo os parças do Oregon, de 85%. Isso supostamente se deve à espuma futurista utilizada na entressola do calçado.

Cumpre dizer que o storytelling da indústria tem ficado mais convincente, especialmente depois do advento das placas de carbono, que ajudariam, novamente segundo os fabricantes, a poupar energia nos movimentos de corrida. Consequência disso: o cascalho ficaria mais veloz.

No caso de outro tênis da Nike, o Vaporfly, até 4% mais veloz.

Quem corre regularmente sabe a dificuldade desgraçada que é baixar, digamos, 10 segundos de seu ritmo (ou “pace”, em inglês, resultante da equação tempo por quilômetro).

Guardadas as condições atmosféricas e topográficas, corredores como eu, de pace 5 (um “K” a cada 5 minutos), passam uma encarnação para baixar seu tempo para 4’50”. Se eu colocasse um Vaporfly nos pés, como por milagre, correria a 4’48”.

Conta outra.

Não pretendo aqui afirmar que os investimentos em tecnologia das marcas são mais dignos da literatura de ficção, na linha quem sabe do realismo fantástico latino-americano, haja vista a quebra da barreira das duas horas na maratona, algo perseguido e concretizado pela indústria.

Mas é preciso estar atento: o corredor amador dificilmente irá se beneficiar desses supostos saltos tecnológicos que entusiasmam pequenos grupos de envolvidos.

Do ponto de vista do custo/benefício, valha-me Deus: hoje uma edição qualquer do Vaporfly bate nos R$ 1.800, três a cinco vezes mais caro do que um, digamos, Fila Kenya Racer, um tênis bastante bom para o serviço público apesar do inexorável e precoce rompimento do tecido do cabedal na altura dos dedões.

(A Fila também fala em responsividade, fazer o quê.)

Devo dizer que já fui muito fã de um Nike, o Nike Free, a primeiríssima edição, com seu “drop” mínimo e peso insignificante. Mas o minimalismo passou, assim como o entusiasmo pela corrida descalça, para o bem da indústria de calçados esportivos.

Afinal, como justificar valor agregado quando o estado da arte é não ter quase nada nos pés?

A propósito, cortei uns jeans para fazer uns shorts para correr, mas não recomendo: tive sérios problemas com o zíper.


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Folha de São Paulo

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