Saúde

A pior coisa que pais podem fazer pelos filhos é criá-los sem ajuda, diz pediatra

Nascido em Nova York e formado em medicina pela State University of New York, o pediatra Harvey Karp abriu seu primeiro consultório do outro lado dos Estados Unidos, em Los Angeles. Lá, ele atendeu tanto as pessoas por trás das câmeras, roteiristas, produtores, figurinistas, quanto as celebridades. “Tive um bom número deles, como Pierce Brosnan, Michelle Pfeiffer, Larry David, Madonna. As pessoas acabavam me encontrando”, disse o médico, em entrevista por Zoom, editada neste texto.

Karp lançou, em 2002, “O Bebê Mais Feliz do Pedaço”, um best-seller instantâneo e que não para de vender e de ser passado de mão em mão de cuidadores de crianças mais velhas para pais de recém-nascidos.

Tornou-se um fenômeno literário que nunca saiu da lista dos mais vendidos. Traduzido em mais de 30 línguas, baseia-se em um conceito muito simples: é possível fazer um bebê se acalmar e, consequentemente, dormir, simulando os truques para os quais todos os cuidadores apelam quando nada mais funciona: enrolar bem o bebê como um burrito, fazer um pouco de movimento, como passear de carro ou chacoalhar de leve, um barulhinho constante, como o de um secador de cabelo ou mesmo de uma pessoa fazendo sons com a boca, e dar uma chupeta.

O livro fez de Karp um homem rico e famoso e resolveu o problema de muitos pais desesperados. Mas criou outro, bastante mais complexo. Para seguir essas regras tão simples era preciso que um adulto ficasse acordado. Então, o pediatra tentou resolver o problema seguinte: como garantir que o bebê dormisse a noite inteira em segurança e sozinho no quarto, para que, assim, os pais também pudessem descansar?

E desse desafio surgiu o SNOO, um berço elétrico que faz com que o bebê fique contido e que balança automaticamente quando percebe choro, faz um barulhinho parecido com o que o feto ouve durante os meses em que está sendo gestado e transmite informações aos pais por wi-fi, direto para os celulares.

O problema do SNOO, no entanto, é que é caríssimo, cerca de R$ 8.500. Agora, o desafio do pediatra é torná-lo acessível a todas as mães de primeira viagem, sejam elas ricas, pobres, saudáveis, doentes, mais velhas, mais novas, com babás ou sem ninguém. O que, aliás, Karp considera “a grande mentira” dos nossos tempos. “A família normal não é formada por dois pais e uma criança. Isso é uma aberração social”, diz ele.

Por que o senhor diz que a família formada por um casal e uma criança não é normal?

Quando consideramos a evolução humana, isso é completamente anormal. A família estendida é o normal. A família nuclear é, de muitas maneiras, um caminho errado. Pense nisso dessa forma: se são dois pais e uma criança em uma casa, quantos relacionamentos essa criança pode ter? A criança tem um relacionamento com a mãe, com o pai, com ambos os pais juntos e consigo mesma. É muito pouca gente. É muito trabalhoso para os pais e prejudicial para a criança.

O que seria uma família normal?

Durante toda a história, até muito recentemente, as famílias moravam perto [uns dos outros]. Você tinha três irmãos, avós por perto e as crianças da casa ao lado, o que dá um total de 12 pessoas, no mínimo, o número de combinações aí passa de cem. O impacto disso em nossos filhos é imenso. Vimos isso claramente durante a pandemia. O que deixa os pais loucos é que eles não só têm que cozinhar, limpar, trabalhar e manter um relacionamento, mas também têm que ser cuidadores em tempo integral e companheiros de brincadeiras para seus filhos pequenos. Não é fácil. Leva o dia inteiro para ser um companheiro de brincadeiras. Quando você não tem outras pessoas por perto, as crianças e os pais sofrem.

O que um casal deve fazer se mora longe do resto da família e tem um bebê?

As pessoas que contratam babás ou colocam seus filhos em creches não estão fazendo nada de errado muito menos abdicando de suas responsabilidades, estão fazendo algo bom e proporcionando um ambiente socialmente muito mais rico para seus filhos. Descobriu-se que o maior indicador de depressão pós-parto não é a falta de ajuda que você tem após o nascimento do bebê, mas a expectativa de ter ajuda ou de não precisar dela —e depois, de repente, precisar. É um desajuste entre expectativa e realidade.

Quer dizer que é melhor tolerar uma sogra intrometida do que fazer tudo sozinha?

Não precisa exagerar. Mas, de novo, é normal que os parentes ajudem uma nova mãe. O bebê não é único trabalho de uma nova mãe, ela muitas vezes precisa cozinhar, limpar, lavar a roupa. Então a avó, a sogra, a irmã, a vizinha poderiam segurar o bebê no colo. As mulheres costumavam compartilhar essas responsabilidades. Isso era uma família normal. Agora, dizem às mulheres que elas têm que segurar o bebê o tempo todo, cantar para o bebê enquanto ele dorme porque o cérebro dele está se desenvolvendo. As responsabilidades só se multiplicam. Precisamos ajudar as pessoas a aprender como equilibrá-las para que não fiquem tão cansadas que não consigam cuidar nem de si mesmas nem de seus bebês.

Você está dizendo que as mulheres devem fazer todo o trabalho? Como esse modelo pode funcionar quando ambos os pais precisam trabalhar em tempo integral?

Não estou dizendo isso, de maneira nenhuma. Costumava ser assim e funcionava bem melhor do que nos dias de hoje, mas as coisas mudaram. Nos Estados Unidos temos visto cada vez mais homens cuidando de crianças. Ainda é um percentual pequeno em comparação com o que as mulheres fazem, mas é duas ou três vezes mais do que os homens costumavam fazer. A outra coisa é que as mulheres precisam ser mais bem remuneradas. Atualmente, as mulheres fazem mais trabalho doméstico porque os homens geralmente ganham mais dinheiro no emprego. E isso faz sentido. Mas à medida que pagamos mais às mulheres, haverá mais homens que podem cuidar das crianças. Os homens podem fazer isso perfeitamente bem. Não podemos amamentar muito bem, mas podemos fazer outras coisas muito bem.

A realidade brasileira, socialmente muito mais injusta em relação à remuneração de quem faz trabalhos domésticos ou cuida das crianças, permite que muitas famílias tenham ajuda o tempo todo. Isso parece bom para os pais e para as crianças, mas e para quem faz os trabalhos domésticos ou de babá?

Esse é outro problema que precisa ser resolvido. Precisamos pagar muito mais às mulheres que trabalham com cuidados infantis, para que tenhamos pessoas inteligentes e capazes, e não apenas adolescentes de 15 anos sem nenhuma experiência [nos Estados Unidos é comum que estudantes adolescentes cuidem de crianças na ausência dos pais, como um bico], mas, sim, pessoas que veem isso como uma profissão. Todas essas mudanças sociais vão ocorrer quando a gente reconhecer que é fundamental apoiar as novas famílias, o que tornará a vida de todo mundo melhor e, no final das contas, reduzirá os custos com saúde.

É muito comum ouvir falar de depressão pós-parto, mas acho que existe a depressão dos dois anos, a depressão dos cinco anos. Você concorda com isso?

Conforme a criança cresce, aumentam a culpa e os problemas. Muitas pessoas que estão criando filhos hoje nunca seguraram um bebê antes na vida. Isso não existia na cultura humana até os últimos 50 anos. Em geral, quando uma mulher tinha um bebê, ela já tinha anos de experiência criando os irmãos, as irmãs, os primos. Não precisava de nenhuma intuição ou essas crendices populares sobre instinto materno, as pessoas aprendiam com a experiência. Os pais de hoje não têm essa experiência e, pior, como são bem educados academicamente, acreditam que vão resolver tudo com o cérebro.

As coisas mudaram muito na pediatria desde que você começou a praticar até os dias de hoje?

Sim, muito, e sempre vão mudar. Quando comecei a clinicar, fui treinado para dar ópio a bebês que choravam muito. O tratamento médico normal era chamado de paregórico, que era ópio misturado com álcool. Você podia comprar isso em qualquer farmácia. Depois aprendemos que os bebês devem ficar presos em cadeirinhas quando estão no carro, e não no colo da mãe no banco da frente. Então aprendemos diferente do que eu sempre ensinava às pessoas, que o bebê só deveria dormir de bruços, o que era muito perigoso e tivemos que mudar nossa abordagem. Os bebês devem dormir de lado. Agora, quero ensinar às pessoas que elas devem deixar os bebês contidos quando estão dormindo, o que é muito mais seguro do que deixá-los soltos no berço, onde podem rolar e ficar numa posição em que prendem a respiração.


HARVEY KARP

Pediatra formado em medicina pela State University of New York, é criador do berço elétrico SNOO e autor de diversos livros traduzidos para mais de 30 idiomas, entre eles o best-seller ‘O Bebê Mais Feliz do Pedaço’ (2002).

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Informação

Folha de São Paulo

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