Política

A rainha que ri

Num tempo de celebridades pasteurizadas e poucas rainhas que riem, Margrethe 2ª da Dinamarca, com 83 anos nas costas e 52 de reinado, anunciou que no dia 14 entregará o trono ao seu filho Frederik, de 55 anos. Como a mãe ele também ri.

Para quem acompanha a casa real inglesa, com suas rainhas circunspectas, reis tristes e espirais de maledicências, o sorriso dessa rainha era um bálsamo. Dentuça, Margrethe ri desde criança. Ela tem o sorriso no rosto e uma certa alegria na alma.

Enquanto os ingleses fazem das crises de sua monarquia uma atração cultural, as realezas nórdicas sabem ficar longe dos holofotes.

Numa época em que grifes cultivam celebridades e celebridades cultivam grifes, Margrethe desenha suas próprias roupas. Octogenária, mantem um estilo “que se danem.” Com cores vivas e acessórios pesados, ecoa destaques de escolas de samba. Talvez por isso ela tenha sido convidada para desenhar cenários e figurinos para o filme “Ehrengard, a Ninfa do Lago”, da Netflix.

A Dinamarca é um país frio, plano e igualitário. Tem o tamanho do estado do Rio e um terço da sua população. A renda per capita dos dinamarqueses é nove vezes maior que a dos brasileiros. Margrethe foi sua segunda rainha depois de 500 anos, e a Constituição teve que ser emendada para que assumisse.

As monarquias nórdicas deram ao mundo Cristina da Suécia (1626-1689) e, ao seu estilo, Margrethe da Dinamarca. Tendo passado por três universidades, correu o mundo.

Esteve no Brasil duas vezes e tomou um café da manhã com Lula no palácio dela. Fala sua língua, mais o alemão, o francês e o inglês. Reinou sem escândalos, mesmo tendo aturado uma crise capaz de alimentar séries do tipo “The Crown”.

Margrethe conheceu o marido, um diplomata francês bem-apessoado, quando estudava na London School of Economics. Casaram-se em 1967 e ia tudo bem até que ela subiu ao trono.

Como príncipe consorte, Henryk incomodava-se com seu papel secundário e tornou-se um coitadinho profissional até que, em 2017, deu uma entrevista reclamando: “Minha mulher decidiu gostar de ser rainha, mas, como uma pessoa, ela deveria saber que, se um homem e uma mulher estão casados, eles são iguais.”

Estava enganado, mas ela tirava de letra: “Ele é um crítico inestimável”.

A fúria do príncipe chegou ao auge quando ele revelou que não queria ser sepultado ao lado dela. Problema dele, que passou a viver longos períodos no seu vinhedo francês.

Henryk morreu em 2018, na Dinamarca, e Margrethe atendeu seu desejo. Deu-lhe um funeral de rei, decretou luto de um mês e cremou-o. Suas cinzas foram espalhadas no mar e no jardim do palácio.

Em setembro passado, Margrethe surpreendeu a Dinamarca cortando os títulos de quatro dos seus oito netos, “para que eles possam cuidar de suas vidas”. (Um deles havia sido modelo num desfile da casa Dior e não gostou.) A rainha desculpou-se, mas cortava à metade os príncipes, pensando no “futuro da monarquia”.

Quem acompanha as trampolinagens do príncipe inglês Andrew e seu possível sobrinho Harry entendeu do que ela estava falando.

Uma mulher que demarcou seu espaço e usufruiu com alegria sua identidade.

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Folha de São Paulo

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