Acesso tardio ao pré-natal dificulta identificação de violência sexual

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Na semana passada, minha colega Angela Boldrini compartilhou nesta newsletter uma notícia alarmante: o Brasil registra 450 partos de crianças e adolescentes por dia. Vale lembrar que a lei brasileira considera estupro quaisquer relações sexuais com menores de 14 anos e que a gravidez nessa faixa etária é sempre um risco à vida da gestante.
Mesmo assim, quatro em cada dez meninas de até 14 anos não conseguem acessar o pré-natal antes do quarto mês de gestação. Esse é o período considerado ideal pelo Ministério da Saúde e a OMS (Organização Mundial da Saúde).
Especialistas ouvidos pela repórter especial Cláudia Collucci dizem que o acesso rápido ao pré-natal ajuda a rede de saúde a identificar violência sexual. “É durante as primeiras consultas que equipes médicas podem reconhecer sinais de abuso, realizar notificações obrigatórias, orientar sobre o direito ao aborto legal, acionar serviços de saúde, assistência social e jurídica”, escreve Collucci.
Os motivos da demora em acessar serviços de saúde são variados. É uma mistura de pobreza, desconhecimento sobre o funcionamento do corpo e estruturas familiares precárias.
Raça também entra na equação. Quase 75% das gestações abaixo dos 14 anos são de meninas negras. No caso do acesso ao pré-natal, só 46,3% das crianças indígenas com até 12 anos iniciaram o pré-natal antes da 12ª semana.
Em 2024 fui ao interior do Amazonas ver em primeira mão quais eram os fatores que levam a região Norte a ter índices tão elevados de gestação na adolescência e infância. O índice é comparável ao da África subsaariana. O que encontrei por lá era bem parecido com o cenário das pesquisas: pobreza extrema, falta de oportunidade e incentivo, e uma cultura de maternidade precoce. Um exemplo: em Autazes (AM), conheci Bruna. Ela deu à luz a Arthur aos 14 anos. Assim, sua mãe se tornou avó aos 30.
O problema é multifatorial e a resolução não é simples. Investidas como a a revogação da resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes) pelo Senado não ajudam.
Uma mulher para conhecer
Tamara Klink (1997)
Por alguns meses, Tamara Klink não se sentiu mulher. Para isso, a velejadora precisou navegar até a Groenlândia, onde atracou em um fiorde e lá ficou enquanto o gelo congelava seu barco no lugar por seis meses. Ao todo, a invernagem da paulistana de 29 anos durou oito meses. A preparação física e psicológica levou anos.
Tamara seguiu os passos do seu pai, o navegador Amir Klink, ao se jogar nas águas. Mas é também pioneira: é a primeira mulher a embarcar numa invernagem sozinha de que se tem registro. A aventura virou o livro “Bom Dia, Inverno”, relato cheio de reflexões sobre solidão, sobrevivência e a condição feminina.
Em entrevista à jornalista Jéssica Maes, Tamara diz que ser mulher vem com um monte de medos. “[…] de ser atacada na rua, o de ser agredida quando a gente está sozinha num lugar escuro. São esses medos enormes que muitas vezes fazem as mulheres abandonarem a ideia de viajar sozinhas”, ela diz. Têm, ainda, o desgaste que vem dos medos emocionais: desagradar, ser preterida. “Por isso foi tão grande a minha sensação de liberdade ao estar sozinha, em um lugar onde o meu gênero não era mais parâmetro”, diz.
Informação
Folha de São Paulo



