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Agricultura irrigada: tecnologia estratégica para o futuro do Brasil



A irrigação é uma das tecnologias mais antigas da humanidade para viabilizar a produção de alimentos. Há registros de seu uso há mais de três mil anos, sendo fundamental para o desenvolvimento de civilizações em regiões áridas, como a Mesopotâmia.
Sua principal contribuição continua a mesma até hoje: garantir a produção de alimentos quando a água é insuficiente ou irregular. Ou seja, a irrigação atua quando não há chuva ou quando ela não vem no momento certo. Gosto de definir essa característica da irrigação como efetividade. Ela reduz riscos e traz estabilidade à produção agrícola.
No Brasil, apesar de sua importância estratégica, a irrigação ainda ocupa uma área relativamente pequena, cerca de 10 milhões de hectares. Uma pergunta surge naturalmente: por que não irrigamos mais?
Minha interpretação é simples: porque nunca precisamos. Diferentemente de muitos países, nossa agricultura de sequeiro sempre respondeu bem à demanda por alimentos. Quando era necessário aumentar a produção, bastava incorporar novas áreas. Durante décadas, essa estratégia funcionou e criamos uma cultura de agricultura de sequeiro.
Mas o cenário mudou. As áreas mais favoráveis à expansão tornaram-se mais escassas e a sociedade passou a exigir, legitimamente, maior conservação ambiental. Nesse contexto, o desafio não é produzir em mais área, mas produzir mais nas áreas já abertas.
E poucas tecnologias contribuem tanto para isso quanto a irrigação.
Dependendo da cultura, ela pode dobrar ou até triplicar a produtividade. Em algumas situações, como no arroz, os ganhos podem ser ainda maiores. Algumas culturas, como as frutas, só são economicamente viáveis com a irrigação. Não por acaso, embora represente apenas cerca de 20% da área agrícola mundial, a agricultura irrigada responde por aproximadamente 40% da produção global de alimentos.

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Outro fator importante nesse contexto é o clima. O clima sempre foi o principal agente de transformação da agricultura. Ao longo da história, períodos de seca, chuvas excessivas, variações de temperatura e eventos extremos moldaram onde, quando e como os alimentos são produzidos. Precisamos observar atentamente os sinais que indicam mudanças nos padrões climáticos e compreender suas implicações para a agricultura.
Alterações nos padrões de chuva e de temperatura aumentam a incerteza sobre a produção agrícola. Mais do que desafios, eles representam oportunidades para adaptar nossos sistemas produtivos.
Nesse cenário, a capacidade de adaptação tornou-se ainda mais importante. A irrigação apresenta-se como uma tecnologia adequada para a produção de alimentos em um contexto de grande variabilidade climática e incerteza quanto à precipitação, apresentando-se como uma ferramenta importante na gestão de risco. Ela reduz a dependência exclusiva das chuvas e proporciona maior estabilidade à produção.
Para que a agricultura irrigada se desenvolva de forma sustentável no Brasil, considero fundamental olhar com atenção para os quatro pilares de sustentação do seu desenvolvimento: percepção da sociedade, legislação, energia e recursos hídricos.
O primeiro é a percepção da sociedade. Desenvolvimento e conservação ambiental não são objetivos opostos. Pelo contrário, uma agricultura mais produtiva reduz a pressão por abertura de novas áreas e contribui para a preservação dos recursos naturais.
O segundo é a legislação. Leis e normas são essenciais para garantir segurança jurídica, mas precisam acompanhar a evolução da sociedade, da ciência e das tecnologias. Aperfeiçoar instrumentos não significa reduzir a proteção ambiental, mas torná-los mais eficientes e adequados à realidade brasileira.
O terceiro pilar é a energia. Água e energia estão profundamente conectadas. Produzir, transportar e aplicar água exige energia. Melhorar a segurança energética significa aumentar a competitividade da agricultura e fortalecer a própria segurança hídrica do país.
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Por fim, temos os recursos hídricos (água azul). O Brasil possui uma das maiores disponibilidades de água doce do planeta. Embora a distribuição dessa água seja desigual entre as regiões, o Brasil dispõe de recursos hídricos capazes de sustentar o crescimento da agricultura irrigada em grande parte do território, desde que haja planejamento, monitoramento e gestão adequados. Precisamos valorizar esse diferencial hídrico, que representa uma das maiores riquezas estratégicas do país.
Temos que aprender a movimentar a água entre regiões aumentando o valor da água para o desenvolvimento. Isso exige planejamento, monitoramento e instrumentos de gestão modernos e eficientes. A outorga e a cobrança pelo uso da água são ferramentas importantes, mas devem contribuir para o uso sustentável dos recursos, sem se transformarem em obstáculos desnecessários ao desenvolvimento.
O Brasil possui ciência e tecnologia, produtores altamente capacitados e recursos naturais abundantes. Nas últimas décadas, os avanços tecnológicos aumentaram significativamente a eficiência do uso da água e da energia. Sistemas modernos de irrigação, técnicas de manejo em escala de planta, revestimentos de canais com geomembranas e sistemas híbridos de geração de energia reduziram perdas, aumentaram a segurança operacional e ampliaram as possibilidades de desenvolvimento agrícola em regiões antes consideradas limitantes.
Temos todas as condições para ampliar a agricultura irrigada de forma responsável, conciliando a produção de alimentos, a conservação ambiental e o desenvolvimento econômico. Esse crescimento, no entanto, não deve ocorrer a qualquer custo, mas sim de forma planejada, transparente e alinhada às demandas e expectativas da sociedade.
Talvez o maior desafio não seja hídrico, energético ou tecnológico. Talvez o maior desafio seja nós mesmos: nossa capacidade de construir consensos, aperfeiçoar instituições e reconhecer o enorme potencial que o Brasil possui para produzir mais, preservar melhor e gerar oportunidades para as próximas gerações.
15 de junho: Feliz Dia da Agricultura Irrigada!
*Lineu Neiva Rodrigues é conselheiro da Rede Nacional da Agricultura Irrigada (RENAI) e pesquisador da Embrapa Cerrados
As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural


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