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Allan Souza Lima revela que foi ameaçado na rua por causa de vilão de Quem Ama Cuida

É só Allan Souza Lima (40) surgir na telinha em alguma cena de Tom, seu personagem em Quem Ama Cuida, para despertar o ranço no público. Ao lado de Mariana Sena (31), a intérprete da Elenice, ele retrata uma relação abusiva na trama das 9 da TV Globo. Causa desconforto assistir, mas é justamente esse o objetivo: jogar luz sobre uma realidade vivida por milhares de mulheres.

No ano passado, o Brasil bateu recorde de casos de feminicídio. Os registros apontam que quatro mulheres foram mortas por dia. Por isso, mais uma vez, a arte prova que vai além do entretenimento e tem uma função social importante e necessária. “Nós, artistas, temos o dever de usar a nossa voz para tentar transformar o mundo de alguma forma positiva”, afirma o artista, feliz em poder contribuir para o debate sobre o tema.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

Com uma trajetória marcada pela versatilidade, o pernambucano vive um grande momento na carreira. Além do destaque no folhetim, este ano ele protagonizou a segunda temporada da série Cangaço Novo, da Prime Video, e estreará a série Dom de Iludir, da Netflix. O ator ainda se prepara para lançar um livro e o longa Poeta Bélico, no qual atua como diretor. “Posso dizer que estou feliz, mas tenho muito pé no chão, sempre tive. Já caí muito nessa vida”, diz ele, em papo exclusiva à CARAS.

O mergulho de Allan Souza Lima na complexidade de Tom

— Qual é a importância de falar sobre relações abusivas em uma novela?
— Eu sempre gostei de estudar a mente humana. Talvez um dos motivos de eu estar sempre fazendo personagens muito complexos também seja esse. Desde que comecei a estudar o Tom, a conversar com mulheres que sofreram abusos e a fazer minha pesquisa, minha pergunta desde o início sempre foi: o que faz a Elenice estar ao lado desse cara? Pode parecer uma pergunta simples, mas existe uma complexidade por trás dela.

Eu acredito que, muitas vezes, as formas mais graves de violência não surgem de repente. Elas costumam começar em comportamentos que parecem pequenos, diários, que são minimizados ou até normalizados no dia a dia. Começa com o controle excessivo de um lado, a manipulação do outro, passa pela humilhação, pela desvalorização da autonomia da mulher e vai minando o espaço da companheira. Acho que, nesse ponto, a ficção tem um papel importantíssimo, porque ajuda a tornar visíveis exatamente essas violências, que nem sempre deixam marcas físicas, mas que vão construindo relações de poder e submissão, destruindo o emocional e podendo chegar até o feminicídio.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

— Como criou o Tom?
— Eu adoro o processo de criação. Me encanta entender a psicologia humana que rege a cabeça de cada personagem. É um trabalho em conjunto, com a Mariana Sena, com a equipe, mas tenho minhas criações pontuais sobre o que acredito em relação ao personagem e tento trazer isso. Mas tudo acontece quando a gente entra no jogo de cena, na escuta. É importante ouvir o lado feminino de como é esse tipo de relação. Conversei com muitas pessoas.

E um detalhe importante foi que, quando recebi os roteiros, tentei transformar afirmações do Tom em perguntas condutoras. Em vez de afirmar, eu jogava a pergunta para ela, para confundir mesmo mentalmente. Acho que muitos narcisistas fazem isso, como se estivessem jogando a responsabilidade para o outro. São sutilezas que a gente vai entendendo dentro desse universo. E são nessas sutilezas que encontramos um entendimento do que é esse tipo de relação.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

— Como tem mexido com você contar essa história?
— Na primeira semana de gravação, quando a gente começou a entender e dar o tom dos personagens, tivemos uma sequência grande de cenas e rolou uma situação muito delicada de gatilho em uma cena abusiva. Eu e a Mariana ficamos um pouco mal e conversamos. Até comentei com ela que já tive situações muito delicadas com alguns personagens, de me envolver demais. Tive depressão. Nós, artistas, trabalhamos com criação, com a mente humana, e há personagens que podem dar gatilhos.

Então, pela minha experiência, comentei com ela que, já que vamos ficar um ano inteiro falando sobre esse universo, não vamos levar isso para casa. Vamos deixar os problemas dos personagens nos estúdios. Esse foi o nosso pacto.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

— O Tom é um personagem que desperta raiva. Como lida com essa reação do público?
— É gratificante essa reação dos espectadores, de já nas primeiras cenas terem criado ranço do personagem e entendido esse relacionamento. E ainda tem bastante coisa para acontecer. Como ator, fico muito grato. Tivemos muita delicadeza, junto com a equipe da novela e com a Mariana, para tentar chegar o mais próximo possível da realidade.

Em relação a separar o ator do personagem, passei por uma situação delicada na Avenida Paulista. Era mais ou menos 2 da tarde, e um cara falou: “Tom, vou descer a porrada, hein! Você está merecendo!”. Foi nesse tom. Não o senti muito amigável, mas brinquei dizendo que aquilo era o personagem, não eu. Espero que as pessoas saibam separar as coisas, porque, às vezes, acabam misturando um pouco. É delicado. Já tive meu primeiro alerta (risos).

— Muitas pessoas podem estar se reconhecendo ao assistir à trama de Tom e Elenice. Você tem recebido esse tipo de relato?
— Tenho recebido bastante feedback. Fico feliz, porque nós, artistas, temos o dever de usar a nossa voz para tentar transformar o mundo de alguma forma positiva. Todas as terças-feiras, dedico meus stories a compartilhar dados sobre violência contra a mulher, depoimentos de mulheres que sofreram abuso e informações sobre feminicídio. E acabo recebendo mensagens de mulheres que passaram por situações de violência. Acho importante dar visibilidade a essas histórias. Estudando mais sobre esse universo, percebi que existem muitas camadas de violência que a gente nem sempre conhece.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

— O Tom te faz refletir sobre a masculinidade?
— Acho que refletir sobre a masculinidade é entender que força não tem relação com controle, violência ou dominação. É sobre questionar comportamentos que foram normalizados por muito tempo e construir relações baseadas em respeito, empatia e responsabilidade. Acho que isso não protege apenas as mulheres e as crianças, mas também os próprios homens. No fundo, é sobre empatia. É sobre a gente ter empatia com o próximo

— O machismo ainda está muito enraizado na sociedade. Como busca desconstruí-lo?
— A desconstrução do machismo começa quando a gente questiona atitudes que, por muito tempo, foram tratadas como normais. Acho que é sobre rever comportamentos, ouvir mais, respeitar os limites e a autonomia das mulheres. E entender que relações saudáveis são construídas com igualdade, não com controle. Acho que é basicamente isso. E volto a falar, mais uma vez, sobre a palavra empatia com o próximo.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

— Você defende uma causa importante, que é o combate ao tráfico humano e ao abuso sexual infantil. Como é esse trabalho?
— Junto com a organização internacional The Exodus, criei a campanha Vozes pela Liberdade, que atua no enfrentamento ao tráfico humano e ao abuso sexual infantil. Ao conhecer mais de perto essa realidade, tive contato com dados que me impactaram e reforçaram a importância de levar informação às pessoas. É uma causa que ainda recebe pouca visibilidade e que precisa ser mais discutida. Quanto mais pessoas conhecerem essa realidade, mais preparadas elas ficam para identificar situações de risco, denunciar e ajudar a proteger, principalmente, quem está em situação de vulnerabilidade.

Fico feliz por poder usar a minha voz para dar visibilidade a esse trabalho. Sempre que tenho essa oportunidade, acredito que vale a pena colocá-la a serviço de causas que podem fazer diferença na vida de outras pessoas.

Allan Souza Lima. Foto: Gustavo Arrais

— Destaque em Quem Ama Cuida, protagonismo em Cangaço Novo, série para lançar na Netflix… Acredita estar vivendo o melhor momento da sua jornada profissional?
— Eu estou muito feliz, mas tenho pé no chão, sempre tive. Eu já caí muito nessa vida. Então, pensar sobre o melhor momento da carreira é muito relativo. Às vezes, a gente está em um grande momento, às vezes está em um momento de baixa, depois volta a subir. É sempre uma construção diária. Estou trabalhando, e isso, para mim, é muito gratificante. Na verdade, é uma consequência, é o resultado do que venho construindo há anos.



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