Economia

Apenas uma das quatro ações dos grandes bancos brasileiros ganha do CDI em mais de cinco anos

Quando se fala em viver de renda com dividendos e em ações pagadoras de dividendos, logo vem a mente o nome dos grandes bancos brasileiros. Os quatro maiores bancos nacionais ganharam fama pela frequência e montante de dividendos pagos. Entretanto, nos últimos cinco anos, eles viveram só da fama, pois retorno que é bom, os acionistas não estão vendo.

Empresas pagadoras de dividendos são usualmente aquelas de setores maduros e sem grandes oportunidades de crescimento. A maturidade da empresa proporciona a geração de caixa. Já a ausência de oportunidades de investimentos permite que a destinação deste caixa seja direcionada aos acionistas ao invés de crescimento futuro. Logo, os dividendos destas empresas são maiores.

Setores que se enquadram nestas características são setores de concessões públicas, como energia elétrica, saneamento e rodovias, mas também o setor de bancos.

Todos sabem que os lucros dos bancos são elevados. Isso não é novidade. Com um alto lucro e a falta de necessidade de sua utilização, ele é convertido em dividendos, recompra de ações e outros benefícios ao acionista.

Um ponto que muitos investidores iniciais não entendem e só descobrem depois de um certo tempo é que sempre que uma ação distribui dividendo, seu preço é ajustado. Isso quer dizer que o preço da ação cai do mesmo valor do dividendo pago.

Por exemplo, considere uma ação que tem valor de R$ 30 e declara um dividendo no valor de R$ 1. No dia seguinte, ou mais precisamente, no dia seguinte da data “ex-dividendos”, sua ação amanhece ao preço de R$ 29 e você tem R$ 1 em dinheiro na mão.

Portanto, a riqueza de um investidor não sobe com o simples pagamento do dividendo. Esse é um mito que muitos se iludem.

A riqueza do indivíduo que investe em ações pagadoras de dividendos só se eleva se a ação sobe e recupera o valor do ajuste do dividendo.

Portanto, é uma ilusão comprar uma ação apenas por causa dos dividendos. Muitas vezes, você pode ganhar mais e correr menos riscos apenas investindo em uma renda fixa.

É justamente isso que tem ocorrido com três dos quatro grandes bancos brasileiros.

Dentre os quatro bancos abaixo, qual você acha que foi o único que ganhou do CDI quando se considera o retorno de ganho de capital e de dividendos?
a) Banco Bradesco
b) Banco do Brasil
c) Banco Itaú Unibanco
d) Banco Santander

A tabela a seguir apresenta apenas a taxa de dividendos recebida pelos investidores de cada um dos bancos e o retorno proporcionado pelo CDI. A taxa de dividendos, ou retorno por dividendos é calculado pela divisão do dividendo por ação recebido pelo preço de cada respectiva ação.

Retorno por dividendo 2019 2020 2021 2022 2023
Bradesco 6,2% 2,1% 4,1% 2,4% 11,2%
Brasil 5,5% 2,8% 5,8% 14,4% 13,2%
Itau Unibanco 7,9% 3,5% 3,5% 4,9% 5,0%
Santander BR 4,9% 5,7% 6,7% 7,5% 5,9%
CDI 6,0% 2,8% 4,4% 12,4% 13,0%

Normalmente, esta tabela é mostrada como uma grande vantagem de se investir nestes bancos, pois só em dividendos o investidor poderia em vários casos receber mais que o retorno do CDI.

Entretanto, essa tabela é enganosa e muitos só entendem a ilusão tempos depois.

Como falei anteriormente, não se pode considerar apenas o retorno dos dividendos. É preciso considerar também o ganho de capital, ou seja, a variação do preço da ação.

Alguns tolos repetem a frase “só o dividendo importa”, mas isso não é verdade.

O correto é “só o retorno total importa”.

O retorno total é formado por todos os ganhos que um acionista pode ter provenientes de seu investimento na ação, por exemplo: dividendos, bonificações, variação de preço, recompra, e outros.

Afinal, do que adianta você receber de um bolso se o dinheiro sai do outro bolso?

E é isso que tem ocorrido com alguns dos bancos brasileiros.

Em dois dos quatro bancos, o investidor que aplicou no fim de 2018 tem hoje menos do que investiu. Apenas um dos bancos obteve retorno maior que o CDI desde 2018, até a data de hoje (12/04).

Retornos totais Desde 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024
Bradesco -23,6% 18,9% -15,2% -18,7% -11,3% 25,7% -16,4%
Brasil 83,0% 19,6% -23,6% -19,9% 34,9% 76,2% 5,1%
Itau Unibanco 46,9% 12,9% -11,2% -16,8% 24,2% 42,3% -0,4%
Santander BR -8,8% 21,3% -3,2% -25,5% 0,8% 21,7% -15,1%
CDI 48,8% 6,0% 2,8% 4,4% 12,4% 13,0% 3,0%

A tabela acima apresenta o retorno total dos quatro bancos desde 2018 e o retorno do CDI.

Perceba que apenas o Banco do Brasil obteve retorno desde 2018 maior que o CDI, quando se considera o ganho de dividendos e a valorização das ações. Ou seja, o retorno total do Banco do Brasil compensou. Entretanto, o mesmo não pode ser dito dos outros.

Quem investiu no fim de 2018 nas ações do Bradesco e do Santander possui hoje menos do que o valor inicial aplicado. Isso mesmo. Se você aplicou R$ 100 mil, no Bradesco, mesmo considerando os dividendos recebidos e os reinvestindo na própria ação, teria um valor hoje de apenas R$ 76,4 mil.

Cuidado com os mitos do passado. O mundo corporativo é muito dinâmico. Um setor que foi muito bem no passado, pode ter comportamento completamente diferente no futuro.

No caso dos bancos, o comportamento mudou por causa da forte entrada de novos competidores.

Os novos bancos como Nubank, XP, BTG e outros estão entrando pesado e reduzindo as margens de ganho para conquistar os clientes dos bancos tradicionais. Esse é um movimento que destrói valor dos bancos antigos. Estes têm maior dificuldade para competir, pois se ajustarem os preços de seus serviços para não perderem clientes, perdem retorno, além dos clientes.

Ao refletir sobre o investimento em ações pagadoras de dividendos, considere sempre a capacidade de valorização dos preços do ativo. Afinal, o que faz crescer patrimônio é retorno total e não o fluxo de pagamento recebido.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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Folha de São Paulo

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