Aprender um idioma mantém o cérebro saudável na velhice – 22/09/2026 – Equilíbrio

Aprender outro idioma é uma atividade mental extremamente complexa. Exige que as pessoas memorizem palavras, diferenciem sons desconhecidos, reconheçam padrões, deduzam regras gramaticais e encontrem a expressão certa no momento adequado. Tudo isso acontece enquanto elas ouvem, interpretam e preparam uma resposta.
Será que toda essa atividade mental também ajuda a manter o cérebro mais saudável durante o envelhecimento? Pesquisas indicam que sim.
A preocupação com a memória e a demência pode levar adultos mais velhos a buscar maneiras de exercitar o cérebro e preservar a função cognitiva, seja fazendo palavras cruzadas, seja tocando um instrumento musical. Aprender um idioma talvez não pareça o mesmo tipo de exercício cerebral, mas é uma atividade complexa que mobiliza vários processos mentais ao mesmo tempo.
Sou linguista e estudo a aquisição, o uso e a perda da linguagem. Meu novo livro, “Beyond Words: How We Learn, Use, and Lose Language” (Além das palavras: como aprendemos, usamos e perdemos a linguagem), examina a relação entre a linguagem e a mente ao longo da vida.
Um número crescente de pesquisas indica que o aprendizado de idiomas e o bilinguismo podem trazer benefícios cognitivos — inclusive para adultos mais velhos. Aprender outro idioma também pode criar oportunidades de comunicação e convívio social.
Um exercício para o cérebro
O cérebro humano continua capaz de mudar durante toda a vida. Essa capacidade de se adaptar em resposta às experiências é conhecida como neuroplasticidade.
Aprender sons, palavras e padrões gramaticais desconhecidos exige que o cérebro forme e fortaleça conexões. O aprendizado de idiomas mobiliza vários processos mentais simultaneamente, exigindo que as pessoas assimilem e recuperem informações, percebam quando algo não funciona e façam ajustes. Esse esforço mental contínuo torna o aprendizado de idiomas uma forma particularmente rica de exercício cognitivo.
Pesquisas sobre bilinguismo identificaram diferenças tanto na substância cinzenta do cérebro, que contém neurônios e suas conexões, quanto na substância branca, composta principalmente por fibras nervosas que ligam diferentes partes do cérebro.
Estudos demonstraram maior densidade de substância cinzenta ou melhor integridade da substância branca em pessoas bilíngues, em comparação com aquelas que falam apenas um idioma. Essas descobertas indicam que a experiência com idiomas pode se refletir tanto na estrutura quanto na atividade do cérebro.
Mas as diferenças cerebrais são apenas parte do quadro.
O cérebro durante o envelhecimento
Um dos motivos pelos quais os pesquisadores se interessam pela relação entre linguagem e envelhecimento é o conceito de reserva cognitiva. Esse termo se refere à capacidade de preservar a função cognitiva apesar das alterações ou dos danos cerebrais associados à idade.
O bilinguismo é apontado como um dos fatores que podem ajudar o cérebro a lidar com os efeitos do envelhecimento, pois administrar dois idiomas impõe exigências constantes à atenção e ao controle cognitivo — contribuindo, em última análise, para fortalecer a reserva cognitiva.
Alguns estudos constataram que pessoas bilíngues que desenvolvem demência apresentam sintomas mais tarde do que aquelas que falam apenas um idioma. Isso sugere que o bilinguismo pode oferecer alguma proteção contra os efeitos do envelhecimento cerebral, embora não necessariamente previna a demência ou as alterações cerebrais associadas a ela.
O possível benefício, portanto, pode estar em uma maior resiliência diante dessas mudanças, e não na prevenção da doença subjacente.
Aprender mais tarde na vida
Isso levanta outra questão: se o bilinguismo ao longo de toda a vida pode ajudar a proteger o cérebro à medida que envelhecemos, será que as pessoas podem obter benefícios semelhantes ao aprender um idioma mais tarde?
A idade muda a maneira como os idiomas são aprendidos, mas os adultos continuam capazes de aprender novas línguas durante toda a vida. Adultos e crianças trazem diferentes pontos fortes para essa tarefa. As crianças tendem a ter vantagens na pronúncia e em alguns aspectos da gramática, enquanto os adultos contam com um vocabulário mais amplo e estratégias de aprendizagem mais desenvolvidas.
Pesquisas com adultos mais velhos indicam que aprender um idioma pode trazer benefícios cognitivos, embora os resultados sejam divergentes. O possível benefício talvez venha menos da fluência alcançada do que do próprio processo de aprendizagem. Aprender um idioma é um desafio contínuo, que faz com que as pessoas sigam aprendendo, praticando e se adaptando.
Há também benefícios sociais. Aprender outro idioma pode aprofundar a compreensão cultural, melhorar a comunicação entre as pessoas e incentivá-las a desenvolver empatia pelas perspectivas e experiências alheias. Também pode aproximar pessoas de diferentes origens linguísticas e culturais, criando oportunidades de conversa e amizade.
Não existe uma fórmula estabelecida para determinar quanto tempo de estudo de um idioma é necessário para proporcionar esses benefícios. Os estudos avaliaram desde cursos intensivos em sala de aula até breves sessões diárias com aplicativos de aprendizagem de idiomas, durante períodos que variaram de semanas a meses, para verificar se esse aprendizado pode melhorar a função cognitiva. Mais do que um número mágico de horas, o que pode importar é o envolvimento contínuo em uma atividade desafiadora, como aprender um novo idioma.
Fortalecendo a resiliência cognitiva
Aprender outro idioma não é uma cura milagrosa para o envelhecimento e não pode garantir proteção contra a doença de Alzheimer ou outras formas de demência.
Mas é uma forma excepcionalmente rica de atividade mental.
Talvez a maneira mais útil de encarar o aprendizado de idiomas não seja como um meio de manter o cérebro jovem, mas como uma forma de favorecer a resiliência cognitiva — a capacidade de continuar aprendendo, adaptando-se e funcionando apesar das mudanças que acompanham a idade.
O envelhecimento inevitavelmente muda o cérebro, mas as pessoas preservam a capacidade de aprender durante toda a vida. Manter o cérebro envolvido em atividades novas e desafiadoras pode contribuir para essa resiliência.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.
Informação
Folha de São Paulo



