Saúde

Até o preço de seu chocolate pode sofrer com El Niño

Em tempos de Copa do Mundo, aqui vai metáfora futebolística aziaga sobre El Niño: será um chocolate. O fenômeno está convocado para bagunçar a defesa adversária e aplicar uma goleada nos fregueses habituais da crise climática.

Se ocorrerá um 7 a 1 ainda está por definir. Mas é quase certo que o craque destruidor vai entrar em campo ainda durante o certame (82% de probabilidade até julho) e seguir causando estragos até o verão do hemisfério Sul (96%, de dezembro a fevereiro).

Dessa coincidência usual com a passagem de ano —época do Natal— nasceu o apelido El Niño (Menino Jesus, em espanhol). As águas superficiais do oceano Pacífico se aquecem, prejudicam a pesca ao oeste da América do Sul, subvertem a circulação de massas de ar e desestabilizam o clima em várias partes do mundo.

Os impactos no Brasil são conhecidos. Precipitação muito acima da média na região Sul, ressuscitando o fantasma das inundações que castigaram os gaúchos em 2024. Também podem escassear chuvas no Nordeste e no Norte, trazendo os espectros de secas severas no semiárido e de incêndios florestais na amazônia.

A boa notícia está na mobilização do governo federal para enfrentar os flagelos. O Planalto montou grupo de especialistas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para planejar a articulação dos três níveis de governo.

Coordenação é de bom alvitre, claro, mas não resolverá a falta de infraestrutura e de recursos para adaptação a eventos extremos do clima. São décadas de omissão, desde a cúpula do clima no Rio (Eco-92), para não mencionar os quatro anos de negacionismo no governo de um golpista.

Seus ecos ainda se podem ouvir no Congresso Nacional. A bancada vorcarista-ruralista segue aprovando pacotes antiambientais, como o banimento das notificações por desmatamento expedidas por sistemas automáticos de monitoramento.

Não adianta rezar, depois, para o pior não acontecer. Uma aeronave da seleção brasileira ainda dá para aspergir com caminhões-pipa de água benta; mais da metade do território nacional, não.

Se já não bastasse a América Latina figurar como o continente mais violento do planeta, a criminalidade tende a recrudescer por aqui quando a temperatura atmosférica se eleva de modo inusual. Foi o que mostrou com estudo de Sara Lopes de Moraes, da Faculdade de Medicina da USP, publicado em 15 de maio no periódico Environmental Research com dados de 2000 a 2019 em 307 cidades.

Ondas de calor já infernizaram a Europa em maio. Temperaturas de 35ºC na primavera do Reino Unido podem parecer fichinha para quem costuma assar a 40ºC no Rio, em Teresina ou em Cuiabá, mas o pessoal do Norte começa a cair pelas calçadas, abatidos na canícula. Já na Índia, uma onda de calor pode matar 3.400 pessoas num só dia.

Até o preço do chocolate deve subir por causa de El Niño. O impacto esperado na África Ocidental, de onde sai 70% do cacau mundial, fez o preço da amêndoa subir 10% em maio.

É chocolate. Mas não é metáfora.


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Informação

Folha de São Paulo

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