Esporte

Bandeira vermelha

Na Fórmula 1, a bandeira vermelha significa interrupção da corrida, geralmente pela ocorrência de um acidente de proporção mais grave que deixa a pista sem condições de segurança ideais.

No futebol, até a década de 1980, também existiu uma bandeira vermelha, que era empunhada por um dos assistentes do árbitro, o número 1, que substituiria o juiz em caso de lesão. O outro, o número 2, carregava uma da cor amarela.

Depois disso, determinou-se que o quarto árbitro assumiria as funções em campo quando o principal não pudesse continuar, e os assistentes de campo, comumente chamados de bandeiras ou bandeirinhas, passaram ambos a usar instrumentos que se dividiam nas cores vermelha e amarela. É assim até hoje.

Na rodada mais recente do Campeonato Espanhol, houve um acidente que teve uma “bandeira vermelha” que resultou na parada do jogo, mesmo sem relação alguma com a da F1.

Aos 12 minutos do primeiro tempo, em Sevilha, o atacante argentino Chimy Ávila recebeu um lançamento e tocou na saída do goleiro para fazer Betis 1 x 0 Athletic Bilbao.

Na lateral do campo, a assistente Guadalupe Porras Ayuso, sem verificar irregularidade na jogada (como um impedimento), virou-se para iniciar sua corrida em direção ao centro do campo, como é praxe nessas ocasiões.

Veio então o impacto. Um cinegrafista estava quase dentro do campo, bem ao lado de Guadalupe, e a cabeça dela chocou-se violentamente com a câmera de filmagem.

Houve a queda e verificou-se, no atendimento, que a bandeira estava com a face vermelha, toda ensanguentada, devido a um corte –na testa ou na têmpora– resultante da colisão. Imagens bastante fortes.

A partida teve de ser interrompida até os médicos dos dois clubes constatarem que Guadalupe, 37, que chegou a ficar inconsciente, não tinha condições de prosseguir.

Ela deixou o estádio em uma maca e foi levada de ambulância a um hospital para posterior recuperação. Em seu lugar ficou o quarto árbitro e a partida pôde ser reiniciada e concluída.

O ocorrido gerou indignação geral, especialmente nas redes sociais, pois não era aceitável que o cameraman estivesse onde estava, na área de trabalho da bandeirinha.

O risco de acidente era, desse jeito, bem alto, bastando um descuido para que acontecesse –como aconteceu, para infortúnio de Guadalupe.

Sabe-se que a televisão tem um papel de suma relevância no futebol e nos esportes em geral, pois sem ela quem não vai ao estádio não tem como acompanhar o evento.

Além disso, as emissoras que transmitem os campeonatos desembolsam altas somas (milhões de euros, no caso da Europa) para ter esse direito, e o que é pago é parcela significativa do que os clubes contam para fechar seus respectivos orçamentos.

Nesse contexto, é perfeitamente aceitável, e até desejável, que a TV ofereça o maior número possível de câmeras, para que todos tenham acesso aos mais diferentes ângulos das jogadas. Quando mais, melhor. Mais qualidade, mais riqueza de detalhes.

Com um porém. Um porém essencial. Que essas câmeras ofereçam perigo zero aos participantes do jogo: atletas, comissões técnicas, equipe de arbitragem, gandulas, torcedores.

A súmula de Betis 3 x 1 Athletic Bilbao, feita pelo árbitro Guillermo Cuadra, mostra que isso não ocorreu e, pior, que, mesmo depois do que se passou com Guadalupe, o cinegrafista continuou em área indevida.

Assim escreveu Cuadra:

“No momento em que isso aconteceu [o acidente com a bandeirinha], eu disse ao cinegrafista que ele saísse imediatamente da área, pois colocava em perigo a integridade física dos participantes. Nesse caso foi com a assistente, mas ele também se posicionava na área de trabalho [de aquecimento] dos jogadores”.

“Mais tarde, no segundo tempo, o cinegrafista apareceu novamente na mesma área, e em uma ocasião (…) percebi que estava incomodando os jogadores e preparadores físicos que faziam exercícios de aquecimento”.

Parece inacreditável, tendo-se passado menos de uma hora da trombada que vitimou Guadalupe, que os seguranças não tenham sido orientados a agir para impedir que problema similar pudesse acontecer. Não era outro dia, não era outro jogo. Estava tudo recente.

Passivos, além dos seguranças, foram o árbitro, os representantes de LaLiga (organizadora do campeonato), os treinadores, seus estafes e os jogadores, que, notando que o profissional de TV –ele sem noção e/ou seus chefes sem noção– continuava circulando ali, nada fizeram.

Deveriam se pronunciar indignados, parar a partida, mobilizar-se até que o cidadão se mancasse e definitivamente saísse dali.

Tremenda falta de bom senso e insensatez desmedida. Respeito nenhum à bandeirinha Guadalupe (que poderia ter tido uma lesão no olho, perdido dentes), naquele momento relegada a um leito de hospital.

Fazendo nova alusão à F1, deve ser dada uma bandeira preta, a da desclassificação (nesse caso, como pessoas), para todos eles. É o que merecem.

Folha de São Paulo

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