Saúde

Bipolaridade entra na mira da terapia psicodélica

O rol de transtornos afetivos com potencial de tratamento psicodélico acaba de engordar mais um pouco, com a incorporação da bipolaridade entre seus alvos experimentais. Não a bipolaridade de tipo 1, mais exuberante, mas a bipolaridade 2, em que os episódios de mania podem até passar despercebidos.

O ensaio clínico patrocinado pela empresa Compass Pathways testou dose única de psilocibina sintética (25 mg) em 15 pacientes passando por fase depressiva de pelo menos três meses no recrutamento. Foram 9 mulheres e 6 homens, a maioria deprimida há mais de dois anos.

Três meses depois, 12 dos voluntários estavam em remissão. Ou seja, marcavam menos de 10 pontos na escala padronizada MADRS (Montgomery-Åsberg Depression Rating Scale). Os resultados estão em artigo publicado no periódico da Academia de Ciências dos EUA, JAMA.

Não ocorreram efeitos adversos graves durante o experimento, só sintomas leves, como dor de cabeça. Nenhum episódio de mania, nem de surto psicótico ou ideação suicida. Observou-se correlação entre a intensidade da experiência psicodélica (alteração da consciência) e o benefício terapêutico mensurado.

O estudo, conduzido no hospital Sheppard Pratt de Baltimore por Scott Aaronson, da Universidade Columbia, contou com supervisão de Trisha Suppes, da Universidade Stanford. A Compass forneceu fundos e seu produto COMP360 (psilocibina), mas não teria participado diretamente da pesquisa.

A empresa com sede no Reino Unido responde também pelo teste clínico mais avançado com psilocibina para depressão, em fase 3. Enfrenta a concorrência do Instituto Usona, de Wisconsin, que não tem fins lucrativos e defende limites para a propriedade intelectual de psicodélicos de origem natural, em oposição à estratégia controversa da Compass.

Há dúvidas sobre ser de fato inovadora a formulação COMP360, a ponto de justificar concessão de patentes. O produto não seria diverso da psilocibina de cogumelos Psilocybe cubensis, que nasce em esterco bovino e se vende pela internet no Brasil, ou Psilocybe mexicana, consumido há séculos por populações tradicionais do México, como os mazatecas.

Com a retração de investidores em companhias psicodélicas, uma ampliação do mercado potencial da Compass viria bem a calhar. Estima-se que o transtorno bipolar, condição com poucas opções de tratamento eficaz e que carrega taxas de suicídio entre 5% e 15% dos diagnosticados, afete 0,4% da população adulta (mais de 1 milhão de pessoas, só nos EUA, ou quase meio milhão, no Brasil).

O estudo no JAMA foi pequeno e não contou com controle por grupo de placebo em esquema duplo cego, no qual nem participantes nem experimentadores sabem quem tomou o quê. Mesmo sem esse padrão ouro da pesquisa biomédica, seus resultados são notáveis: 80% de bipolares em remissão três meses após dose única de medicamente parecerá um sonho para pacientes e seus psiquiatras.

Os próprios autores, contudo, ressaltam que tal desfecho não pode ser extrapolado para todos os portadores de bipolaridade. Além da amostra diminuta, que pode conter vieses de seleção, eles tiveram o cuidado de escolher um subgrupo menos propenso (bipolaridade 2) a episódios maníacos intensos, que poderiam desbordar para surtos psicóticos sob efeito de psilocibina.

Em outras palavras: não se recomenda que ninguém com esse transtorno se automedique comprando cogumelos pela internet, muito menos ingerindo-os na ausência de pessoas confiáveis e sóbrias. Na dúvida, fale com seu médico.

Além do mais, o ensaio ocorreu em ambiente controlado e incluiu pelo menos 6 horas de psicoterapia, vale dizer, intensa supervisão. Foram 3 horas para preparar os voluntários, antes da dosagem de psilocibina, e outro tanto em 3 sessões de elaboração dos conteúdos aflorados durante o efeito psicodélico. Sem contar as 8-9 horas de viagem com acompanhamento de terapeutas presentes o tempo todo.

Esse sistema de psicoterapia assistida por psicodélicos (PAP) envolve duas dificuldades. Primeiro, relativo ao tal padrão ouro exigido por autoridades reguladoras: é difícil, se não impossível, discernir o que de fato estaria causando o benefício terapêutico, se a droga em si ou a terapia concomitante.

Defensores da PAP diriam que essa questão não faz sentido, pois em exame se encontram experiências psíquicas profundas, cuja integração pela psique sempre será facilitada pela participação de terapeutas experientes. Mal comparando, seria como tentar invalidar o benefício de certas cirurgias porque a cura e a recuperação do operado dependem também de fisioterapia subsequente.

O segundo ponto é que a PAP, sendo intensiva em mão de obra especializada, tem tudo para tornar-se cara e pouco acessível para quem precisaria dela, se e quando for regulamentada. Em lugares em que esquemas parecidos começam a ser implementados, como no estado de Oregon (EUA), em que mais de 600 pessoas já buscaram psilocibina em serviços credenciados, o custo de três sessões (preparação, dosagem e integração) anda pela casa de US$ 3.000 (quase R$ 15 mil).

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AVISO AOS NAVEGANTES – Psicodélicos ainda são terapias experimentais e, certamente, não constituem panaceia para todos os transtornos psíquicos, nem devem ser objeto de automedicação. Fale com seu terapeuta ou médico antes de se aventurar na área.

Sobre a tendência de legalização do uso terapêutico e adulto de psicodélicos nos EUA, veja a reportagem “Cogumelos Livres” na edição de dezembro de 2022 na revista Piauí.

Para saber mais sobre a história e novos desenvolvimentos da ciência nessa área, inclusive no Brasil, procure meu livro “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”.


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Informação

Folha de São Paulo

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