Saúde

Chá revelação se consolida no Brasil com azul e rosa guiando torcida por sexo

O sexo de bebês, antes informado aos pais ansiosos em consultas médicas de rotina, agora ganhou uma festa digna de debutantes para anunciar ao mundo a chegada de meninos ou meninas. Explosões, fogos, fumaça, pó colorido, lutas entre personagens, animais de estimação carregando balões, guarda-chuvas, avós com cabelos pintados e bolos coloridos em supereventos que bradam, em azul e rosa, quem é menino ou menina antes de os bebês saírem da barriga.

Os chás revelação, tendência importada dos Estados Unidos que pega tração no Brasil graças às redes sociais, ganharam o calendário dos pais e assumiram proporções gigantescas —questionadas por psicólogos.

Segundo a planejadora de festas Ana Lucia, que comanda a empresa paulista Ana Banana, foi uma americana chamada Jenna Myers Karvunidis que começou a tendência ainda em 2008. Em entrevistas, a influenciadora diz que queria atenção dos familiares para sua gestação e inventou a celebração para conseguir uma casquinha de afeto.

O evento de Karvunidis foi no estilo bolinho, e revelou, via pão de ló rosa, que ela teria uma menina, mas, hoje, em uma tendência que cresce há cinco anos e que já acumula até mortos —vítimas de um acidente aéreo em Cancún, no México— e incêndios florestais —na Califórnia, em 2020— na conta.

Em suas devidas proporções, os pais brasileiros, de celebridades e influenciadores àqueles com Instagram fechado para poucas dezenas de seguidores, aderiram em peso à moda.

É o caso de Thandara Queiroz, de Santos (SP), que organizou um chá revelação só na sua segunda gestação, quando a moda já havia pegado.

“Quando tive meu primeiro filho esse tipo de evento ainda não era comum”, diz. O vídeo do chá de Thandara viralizou pela comemoração efusiva do primogênito depois do estouro do balão preto que revelou que viria uma irmãzinha.

Ele celebrou como se tivesse marcado um gol de Copa ao ver os balões em tom lilás saírem de dentro do balão maior, acompanhado de confete rosa. “Minha torcida sempre foi para ter uma menina e foi uma surpresa emocionante para todos.”

Rosângela Andrade e Regiane Cruz, da loja de balões paulistana Viva La Festa, dizem que, no começo da moda, a revelação era feita por meio de um balão de látex de cor preta, como o de Thandara, para ocultar o pó de estrela e os confetes que revelariam o bebê, e que as cores eram rosa e azul, “para ninguém ter dúvida”, segunda Rosângela. Agora, com a popularização desse tipo de evento, os pais procuram inovar com cores como lilás, verde e laranja.

Segundo Georgia Bianka, planejadora de festas do Rio de Janeiro por trás de chás como de MC Chefin, “como o azul e rosa está batido, a tendência hoje é a festa monocromática, em tons claros, com a revelação feita em alguma cor”. Ela diz que a revelação acaba recaindo no velho azul e rosa, mas por questões técnicas. “Não porque tenha uma obrigação azul e rosa. É para solucionar. São cores mais fáceis de fazer na fumaça, por exemplo.”

Lídia Noé, nutricionista de Santana de Parnaíba (SP), é uma das mães que apostou no verde e lilás e o anúncio, feito com fumaça e serpentina em tons próximos do azul que, em outro contexto, penderiam mais para o anúncio de um menino. Tudo é relativo —e Lídia disse que, embora queira ter meninos e meninas, não importava quem viesse primeiro.

A aposta em um sexo é tendência nesse tipo de festa. “O que os pais mais pedem é que os convidados possam opinar no sexo do bebê, seja vestindo as cores azul e rosa ou verde e lilás, seja colando adesivos e fitinhas, para fazer como se fossem apostas”, diz Bianka.

A torcida dos pais e os vídeos que viralizam em perfis de Instagram como @charevelacaoideias, @charevelacao._ não raro deixam escapar o estereótipo do pai empolgado com um menino e da mãe emocionada com a menina.

Segundo a psicóloga Ana Buontempo, especializada em clínica infantil e maternal, o chá revela não só o sexo, mas a forma como a criança será tratada pela sociedade em consequência disso.

Para Bianka, as famílias que fazem os chás consideram a festa uma celebração da vida e até do desejo de ter filhos —e não só a revelação do sexo do bebê. “Muita gente que sonha com isso, ou que demorou para engravidar, investe nessa celebração.” O investimento, estima, pode começar em R$ 2.500 em uma mesinha intimista e ultrapassar os R$ 100 mil.

Antes da moda dos chás revelação, a chegada de uma nova criança costumava vir acompanhada do chá de bebê, ou chá de fralda, uma festa geralmente feita em um estágio mais avançado da gestação em que familiares e amigos próximos, geralmente mulheres, davam presentes a um bebê que, àquela altura, já tinha até nome acertado e quarto pronto.

Grávida de uma menina, Isabela Albarello, de Vista Alegre (RS), diz que descobrir o sexo de sua bebê, Aurora, no chá revelação mudou a relação que ela tem com a gestação. “Eu não conseguia conversar com a minha barriga, nem comprar as coisas. Tudo mudou depois que descobri que a Aurora vinha. Comecei a conversar com ela, organizar enxoval, pedir coisas para Deus”, diz.

A fé marca muitos chás revelação, permeados por figuras de anjos, crucifixos e alguns até de um ou outro santo. Rafa Anjos, cantora especializada em produzir músicas personalizadas para chás, conta que a maioria dos pais que a procura “tem muita fé, crê em Deus e gosta que eu coloque isso [nas músicas]”.

Dona de um perfil com mais de 59 mil seguidores no Instagram, ela tem músicas de pegada sertaneja que usa de base e nas quais faz pequenos ajustes, incluindo detalhes da família e o nome da criança. “Será menina, uma bailarina, ou menino, um príncipezinho?”, canta. “Mamãe e papai estão me esperando, eu vim no tempo de Deus para esse mundo.” É uma forma de fazer a revelação, ou a canção pode acompanhar a parte visual, de fumaça e balões.

Buontempo diz que a festa tornou o momento da descoberta do sexo do bebê mais público do que quando pais e mães recebiam o laudo durante um ultrassom no consultório médico. “As comemorações ou frustrações não eram tão públicas”, diz a psicóloga. “Os pais criam uma imagem de como vai ser a vida da criança e eles às vezes não estão preparados para cuidar de um ser diferente do que eles esperavam.”

Isso inclui, segundo o psicólogo especializado no público LGBTQIA+ Hamilton Kida, a possibilidade da não conformidade com papéis e estereótipos tradicionais de gênero e da transsexualidade. “O chá revelação vem num movimento conservador. Penso na Damares Alves falando em meninos vestem azul, meninas vestem rosa. É uma tentativa de normatizar o gênero”, afirma.

E nem tudo são flores mesmo. Jenna Karvunidis, a inventora do chá revelação, disse em 2021 à revista People estar arrependida da ideia à medida que sua filha, anunciada ao mundo com um bolo rosa, mostrava interesse em usar o cabelo curto e ternos.

Kida afirma que essa associação de meninas com rosa e bonecas e meninos com azul e futebol são pressões sociais e que pais não precisam ceder a isso. “A preparação para receber a criança deveria vir sem tanta expectativa e idealização”, diz. “O chá revelação e o gênero nada mais são do que construções sociais.” Não se nasce mulher, torna-se, escreveu Simone de Beauvoir. Os chás parecem estar aí para desafiá-la.

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Informação

Folha de São Paulo

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