China acelera aposta em IA enquanto economia patina – 21/09/2026 – IA

“A vantagem dos EUA sobre a China em IA (inteligência artificial) praticamente desapareceu”
“China está levando a inteligência artificial ao máximo.”
“China acaba de apagar a vantagem dos EUA em IA.”

Xi Jinping prioriza setores de alta tecnologia, enquanto economistas pedem medidas para estimular a demanda
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Shen Hong/Xinhua
Essas avaliações sobre a disputa pela liderança em inteligência artificial apareceram recentemente em publicações americanas, e Xi Jinping ficará satisfeito em vê-las circulando enquanto chega a Washington nesta semana para uma visita de Estado. Sob a liderança de Xi, a China avançou significativamente no desenvolvimento daquela que é considerada a tecnologia mais importante de nosso tempo. O que será menos discutido é que ele também lidera uma economia que atravessa sua pior situação em décadas.
Os dois fatos estão relacionados.
Economistas chineses —inclusive alguns próximos ao governo— vêm alertando abertamente que o país está destinando recursos demais a uma tecnologia que cria relativamente poucos empregos, enquanto faz pouco para sustentar a economia como um todo.
E a economia está em crise: a taxa de desemprego entre os jovens, excluindo estudantes, chegou a 18,9% em agosto. Os consumidores não estão gastando. No primeiro semestre do ano, as vendas de carros no mercado doméstico caíram 20% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as vendas de imóveis recuaram outros 14%, prolongando anos de queda. O país está em uma espiral deflacionária.
Neste verão, os alertas dos economistas se transformaram em um coro. Li Daokui, ex-conselheiro do banco central chinês e professor da Universidade Tsinghua, afirmou em julho que a economia da China estava “fria demais”. Os setores de alta tecnologia em expansão, segundo ele, não seriam capazes de sustentar a economia como um todo.
Liu Shijin, outro ex-conselheiro do banco central, propôs em um fórum em junho elevar de US$ 30 ( R$ 153,21) para US$ 150 (R$ 766) por mês o valor básico das aposentadorias pagas aos moradores das áreas rurais, como forma de fortalecer o consumo.
No mesmo fórum, Huang Haizhou, conselheiro do banco central, afirmou que Pequim precisava estimular uma inflação moderada e a rentabilidade das empresas antes que pudesse haver um avanço tecnológico sustentado. “Um país preso à deflação não consegue alcançar inovação tecnológica”, disse.
Os comentários dos economistas foram divulgados anteriormente pela Bloomberg e por veículos de imprensa chineses.
É difícil saber o valor exato do apoio do governo à inteligência artificial. O AI Index Report, da Universidade Stanford, apontou que fundos de investimento criados pelo Estado aplicaram uma estimativa de US$ 184 bilhões (R$ 939,67 bilhões) em empresas de IA entre 2000 e 2023. No ano passado, Xi instruiu o governo a utilizar todas as ferramentas disponíveis, incluindo incentivos fiscais, contratos públicos, financiamento e acesso à infraestrutura, para impulsionar a IA. E, segundo a Bloomberg, a China se prepara para gastar cerca de US$ 295 bilhões (R$ 1,506 trilhões) nos próximos cinco anos para construir data centers em todo o país, que serão operados por empresas estatais.
A franqueza dos economistas chineses foi reveladora, assim como o momento em que se manifestaram, pouco antes da reunião de meio de ano do Politburo, órgão de cúpula do Partido Comunista chinês. Eles foram advertidos a não adotar um tom excessivamente pessimista, e alguns chegaram a ser censurados ou silenciados por isso. O fato de figuras ligadas ao governo terem feito declarações tão contundentes pouco antes de a liderança definir os rumos da política econômica indicava o grau de preocupação a que haviam chegado.
Em conjunto, a mensagem era clara: a economia chinesa estava em dificuldades, e uma alocação de recursos centrada na IA poderia ter custos para o padrão de vida da população e para o futuro econômico do país.
A liderança, porém, deu pouca atenção aos alertas. Quando a reunião do Politburo terminou, em 30 de julho, o Partido reconheceu a necessidade de medidas “proativas” para impulsionar a economia, mas manteve políticas de estímulo graduais e prometeu desenvolver uma “nova economia inteligente”. Os veículos estatais romperam com a prática anterior e não anunciaram uma meta para o crescimento doméstico.
O investimento em ativos fixos, que inclui infraestrutura, imóveis e equipamentos, caiu 4,1% nos primeiros cinco meses do ano. Li, o ex-conselheiro do banco central, afirmou que uma contração semelhante havia ocorrido apenas duas vezes na história da República Popular: em 1961, no auge da Grande Fome, e em 1967, no auge da Revolução Cultural. (O investimento também caiu em 1989, após o massacre da Praça da Paz Celestial, mas provavelmente não seria prudente mencionar isso em uma reunião em Pequim.)
Xi ofereceu uma explicação reveladora sobre como mede o progresso econômico.
“Não podemos olhar apenas para o crescimento do PIB”, disse ele, referindo-se ao Produto Interno Iruto, em um discurso em março. Segundo Xi, o que importava era o crescimento do “poderio” da China e o desenvolvimento de setores avançados. Na visão do líder chinês, um crescimento mais lento não necessariamente representa fracasso se o avanço tecnológico continuar “subindo passo a passo”.
Em vez de aumentar a renda disponível das famílias com dinheiro ou vouchers de compras, ou ampliar a rede de proteção social, como muitos economistas sugeriram, Xi acredita que avanços tecnológicos liderados pelo Estado modernizarão setores tradicionais e liberarão valor econômico no futuro. Mas esses ganhos podem levar anos para se materializar.
A China não pode se dar ao luxo de ficar de fora da corrida pela IA. No primeiro semestre de 2026, os investimentos em serviços de informação, setor que o Escritório Nacional de Estatísticas afirmou estar sendo impulsionado pela IA, saltaram 19,2%. A tecnologia pode transformar a economia chinesa e fortalecer a posição do país na competição com os Estados Unidos.
MAS A QUE CUSTO?
Xu Chenggang, economista chinês da Universidade Stanford, expôs de forma direta o que seus colegas em Pequim só podiam sugerir. A China dispõe de mais flexibilidade fiscal e monetária do que a maioria dos países porque Pequim controla o sistema bancário. Cada yuan destinado à tecnologia apoiada pelo Estado é um yuan que deixa de ser gasto em emprego e consumo.
“Quando você tem apenas essa quantidade de dinheiro, em que vai gastá-lo?”, disse.
Em uma crise semelhante à enfrentada pela China, muitos governos usariam estímulos para criar empregos, afirmou Xu. Quando as pessoas têm trabalho, disse ele, gastam mais, criando um ciclo econômico positivo. Em vez disso, Pequim está concentrando seus investimentos em IA, uma tecnologia que pode agravar o alto desemprego ao reduzir a demanda por trabalhadores.
A China demonstrou repetidamente que um Estado autoritário consegue manter um modelo insustentável funcionando por mais tempo do que os observadores externos esperam. Mas a história também mostra que “mais tempo” não significa para sempre.
Sun Liping, um sociólogo de destaque em Pequim, evocou o exemplo da União Soviética. No auge, sua economia equivalia a cerca de 70% da americana e o país chegou a superar os Estados Unidos em alguns campos da ciência e da tecnologia.
Ainda assim, sua economia administrada de forma centralizada acabou estagnando.
A China consegue produzir grandes quantidades de bens cada vez mais sofisticados, escreveu Sun em um artigo. Mas quem na China terá condições de comprá-los? Sem compradores, os produtos não são vendidos, as empresas não obtêm lucro, a renda das famílias não aumenta e o emprego não melhora.
“Esse é o problema fundamental da economia chinesa hoje”, escreveu.
Folha de São Paulo>



