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CME Group aposta em novos contratos de commodities e alimentos diante de riscos climáticos e comerciais



“A agricultura é a única atividade que impacta todas as pessoas do planeta. Estamos sempre pensando em inovar, pois os riscos e as necessidades dos clientes estão mudando”. Com essa frase, John Ricci, chefe global de produtos agrícolas do CME Group, resume por que o conglomerado está apostando no lançamento de novos contratos de commodities e alimentos. Sorgo e carne bovina para processamento foram os mais recentes, e a promessa é de mais contratos em 2027, além da entrada no mercado europeu de lácteos.
Em entrevista ao Valor nesta segunda-feira (5/10), durante uma passagem pelo Brasil que contará com visitas a campo, o executivo afirmou que fatores como as tensões geopolíticas, extremos climáticos e mudanças de hábitos de consumo estão aumentando a busca dos investidores pelo mercado futuro, na tentativa de mitigar riscos. Com isso, o CME busca oferecer contratos cada vez mais alinhados com a demanda.
“Os mercados de commodities parecem estar sempre em um ambiente de maior propensão ao risco, com os fluxos comerciais globais sendo permanentemente reconfigurados, (impactos de) tarifas, tensões geopolíticas, maior volatilidade do mercado. Com choques de oferta e demanda, vemos uma procura crescente dos nossos clientes por formas de proteger-se (hedge) contra esses riscos”, disse.
Segundo ele, o recorde mensal de 1,1 milhão de contratos de soja em aberto, registrado em setembro, é um exemplo desse movimento. “Isso reflete a demanda dos clientes, que realmente impulsiona a necessidade de proteção contra esses riscos”, observou.
O CME Group é o maior mercado de derivativos do mundo, onde empresas, instituições e investidores negociam instrumentos para gerenciar riscos e identificar preços em diferentes classes de ativos, incluindo commodities agrícolas. A Bolsa de Chicago, onde são negociados os preços internacionais de soja, é controlada pelo CME.
Ricci disse que, em volume geral, a média diária de negociação é de 2,1 milhões de contratos de produtos agrícolas, somando futuros e opções — um montante que nunca havia sido visto antes. A soja é um dos principais motores desse volume.
O crescimento na demanda por energias renováveis ajuda a explicar o avanço de negociações da oleaginosa em grão e também do óleo de soja, matéria-prima utilizada em larga escala na fabricação de biodiesel. Os recordes de produção do grão em países como Brasil e Estados Unidos impulsionam a necessidade de estratégias de hedge, algo já consolidado no mercado.
Clima x sorgo
Mas nas viagens e mesas de reuniões entre a CME seus clientes, um dos temas que permeia todas as discussões sobre o que vem pela frente é o de mudanças climáticas.
“Problemas nas lavouras podem ocorrer em qualquer lugar. Por isso, um dos produtos que lançamos recentemente foi um contrato de sorgo com entrega física”, afirmou Ricci. Os contratos de sorgo entraram em operação no dia 24 de agosto deste ano.
Tendo os EUA e Brasil como os maiores produtores do mundo, respectivamente, o sorgo despontou como opção por ser uma cultura que exige menos água e menos fertilizantes para desenvolvimento.
“Ele serve como alimento humano e ração animal, além de poder ser processado para produzir etanol. Então, quando pensamos no que realmente impulsiona a produção agrícola, é quando existe demanda para múltiplos usos”, justificou, lembrando que a China é uma grande compradora do produto, com uso tanto para ração animal como para baijiu, tradicional bebida alcoólica local.
A precificação dos contratos de sorgo no CME é feita com diferencial de base em relação ao valor do milho. “Com a alta do milho nas últimas semanas, o diferencial do sorgo acompanhou esse movimento. Isso traz transparência de preços ao mercado e faz com que a cultura possa continuar com um foco importante”, avaliou.
Crise da carne
O rebanho bovino dos EUA está atualmente no menor nível dos últimos 75 anos, levando os preços do boi e da carne a níveis recorde. Nesse contexto, segundo Ricci, o CME começou a ser procurado por empresas do setor, frigoríficos e pecuaristas em busca de soluções.
Já existiam contratos do mercado pecuário, mas havia uma lacuna na carne que era direcionada ao processamento. No intuito de ajudar o setor com o gerenciamento de custos, a saída foi lançar um contrato para negociar o preço de “aparas de carne magra”, conhecido como beef trim.
“Pense neles como os contratos (de carne) para hambúrgurer. É basicamente isso”, explicou.
Devido à terminação em confinamento e alimentação com ração, em geral, o gado americano gera carnes mais gordurosas e, para atender a indústria de processamento, são necessárias carnes magras para a formação de blends. Brasil, Austrália e Nova Zelândia são países fornecedores.
Outra aposta recente foi a criação de um indicador que funcionasse como referência agrícola mais abrangente e diversificada, englobando grãos, oleaginosas, pecuária, cinco de seis dos contratos de laticínios e também madeira. Assim surgiu o Agriculture Index.
Próximos passos
O executivo da CME disse que há uma busca por proteína no mundo, atrelada ao avanço das “canetas emagrecedoras”, algo que se reflete também no setor de lácteos.
Tudo começa com o leite fluido, os produtores destinam esse leite para a produção de outros itens onde as margens são melhores. Essa demanda crescente por proteína gerou uma procura elevada por iogurte, queijo cottage, queijos em geral e whey (proteína do soro do leite), desviando o leite fluido de outras finalidades, como a produção de leite em pó desnatado.
Como resultado, o preço do leite em pó desnatado subiu mais de 100% no acumulado do ano, no mercado americano, justamente porque o leite fluido está sendo redirecionado para esses outros produtos.
“Assim, o mercado de laticínios dos EUA registrou recordes de contratos em aberto e volume de negociação no ano passado, e a tendência é repetir esse desempenho este ano. Foi isso que motivou nosso entusiasmo em entrar no mercado europeu de laticínios por meio da parceria com a EEX, anunciada há poucas semanas”, explicou.
Em setembro, o CME firmou uma parceria com a European Energy Exchange (EEX) que transfere os indicadores de laticínios da EEX no mercado europeu para o CME Group. Segundo o anúncio feito no mês passado, a expectativa é que a transição seja feita antes do fim de 2027.
Segundo Ricci, mais lançamentos de contratos, em geral, estão no radar. “Temos coisas empolgantes chegando, talvez no final deste ano ou no primeiro trimestre do ano que vem”.
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Globo Rural

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