Economia

Com mercado de pessoa física maduro, Mastercard mira pagamentos B2B

A Mastercard escolheu o setor de viagens para lançar uma nova solução de pagamentos corporativos no Brasil, mas a movimentação revela uma estratégia mais ampla. Com o mercado de pagamentos de pessoa física já em estágio avançado de digitalização, a companhia está voltando suas atenções para um segmento ainda dominado por boletos, duplicatas e processos manuais: os pagamentos entre empresas.

Dados apresentados pela companhia mostram que os cartões empresariais movimentaram R$ 409,5 bilhões em 2025, o equivalente a 9,1% do mercado total de cartões. Ao mesmo tempo, cerca de R$ 2,5 trilhões ainda circulam por meio de boletos bancários.

Levantamento da Qive reforça esse cenário. Segundo a empresa, 77% das operações B2B no Brasil são realizadas a prazo, movimentando R$ 4,1 trilhões entre 2023 e 2025. Boletos e duplicatas concentram aproximadamente 74% do valor dessas transações.

É justamente nesse ambiente que a Mastercard enxerga espaço relevante para digitalização, com a expectativa de um salto de 23% ao ano no volume dos pagamentos comerciais pelos próximos seis anos. Esta é, segundo Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard Brasil, a nova avenida de crescimento da companhia. “Quando o consumo privado eletrônico já ultrapassa 90%, o potencial de crescimento é menor do que quando olhamos para o mundo de pessoa jurídica”, afirmou o executivo.

O anúncio da estratégia aconteceu durante a Febraban Tech 2026, quando Tangioni também informou sobre a chegada ao país do Mastercard Wholesale Program (MWP), solução de pagamentos B2B baseada em cartões virtuais. A ferramenta foi desenvolvida para conectar agências de viagens, operadoras de turismo, hotéis, companhias aéreas e outros fornecedores por meio de pagamentos automatizados, com rastreabilidade e conciliação das transações.

O movimento ocorre em um momento em que a penetração dos meios eletrônicos entre consumidores já alcançou patamares elevados no país e, diferentemente dos cartões corporativos tradicionais utilizados por funcionários em despesas de viagem e representação, a solução foi criada para operações entre empresas. Cada pagamento gera um número de cartão único e temporário, configurado com parâmetros específicos, como fornecedor autorizado, valor da transação e prazo de utilização.

Segundo a Mastercard, o modelo aumenta a segurança, reduz riscos de fraude e facilita a conciliação financeira das operações. “Todos os termos comerciais da transação podem ser embarcados dentro desse cartão virtual”, explicou Walter Pimenta, vice-presidente executivo de Pagamentos B2B e Novos Fluxos para América Latina e Caribe da Mastercard. “Isso traz uma reconciliação automática, porque eu sei para quem estou pagando.”

A plataforma permite ainda a emissão de cartões em diferentes moedas para operações internacionais, um requisito comum no setor de viagens, cuja cadeia de pagamentos envolve empresas localizadas em diferentes países.

A escolha do setor de viagens não foi aleatória. Quando um consumidor compra um pacote turístico, uma passagem aérea ou faz uma reserva de hotel, uma série de pagamentos ocorre nos bastidores entre empresas. Agências, operadoras, companhias aéreas, hotéis e outros fornecedores precisam trocar recursos e reconciliar milhares de transações diariamente.

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Essa característica torna a indústria de viagens especialmente dependente de processos de controle financeiro. “Uma transação do consumidor gera uma série de transações entre empresas por trás. Esse problema de reconciliação é exponencialmente maior”, explicou Pimenta.

O turismo, porém, é apenas o primeiro passo. A empresa já estuda expandir sua atuação para segmentos como agronegócio, transporte e eventos, conforme antecipado durante o evento com jornalistas.

Leia mais: Boleto parcelado e Pix no crédito: empresas estão financiando os próprios clientes

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Reforma tributária

A estratégia da Mastercard coincide com um momento em que empresas se preparam para mudanças operacionais decorrentes da reforma tributária. Nesse sentido, Tangioni destacou que a implementação do modelo de split payment previsto no novo sistema exigirá adaptações do mercado.

Segundo o executivo, a indústria decidiu priorizar inicialmente meios como boleto e Pix, deixando os cartões para uma etapa posterior de implementação.

Infomoney

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