Saúde

Com quantos anos você aprendeu que era ‘errado’ ser você?

Esta é a sexta edição da newsletter Todas, que apresenta discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres. Quer recebê-la às quartas-feiras no seu email? Inscreva-se abaixo:


  • Com quantos anos você aprendeu que era ‘errado’ ser você?

Essa foi a pergunta feita em publicação que viralizou no Instagram ao mostrar páginas de revistas antigas em que mulheres evidentemente magras se assumiam como “gordinhas”. Numa delas, Priscila Fantin se diz “feliz com o próprio corpo”, uma vez que estava “longe de ser magrinha”. Na capa da Capricho de 2002, a atriz posa de calcinha e camiseta, como se precisasse esconder qualquer saliência na barriga.

Nas poucas publicações exploradas pela postagem, não há uma garota negra. Apenas a ilustração de uma menina de cabelos rebeldes (lê-se cacheados) ilustrando a propaganda de um produto que prometia domar os fios.

Meus pais me presentearam com a assinatura de uma dessas revistas por um tempo. Com a ajuda dela, devo ter aprendido lá pelos 8 anos que meu corpo era “errado”. Em meu aniversário de 10, lembro que vivia um misto de excitação e constrangimento. O primeiro por ter todos os meus amigos no salão do prédio para festejar comigo, e o segundo porque não parava de me comparar com a Fernanda, uma colega de escola magra, loira, de cabelos lisos e que era unanimidade no quesito beleza entre todos os meninos.

Como eu, a criança negra, gordinha e de cabelos cacheados poderia competir com ela, uma miniatura do padrão vendido pelas revistas da época, nos idos dos anos 2000?

Um estudo de 1997 avaliou estudantes universitárias e concluiu que mulheres que liam revistas de moda preferiam pesar menos. Eles se diziam mais insatisfeitas com seus corpos, frustradas com seu peso e preocupadas com a magreza. Também tinham mais medo de engordar do que colegas que liam publicações noticiosas.

Com o avanço das redes sociais, a forma como acessamos conteúdo de beleza mudou, mas os efeitos são semelhantes. Estudo feito com jovens adultos em 2021 com um grupo formado majoritariamente por mulheres mostrou que o nível de insatisfação com o corpo está associado à frequência com a qual os usuários se comparam com quem seguem nas redes sociais.

“O uso generalizado das redes sociais entre adolescentes e jovens adultos pode aumentar a insatisfação corporal, bem como o seu desejo de magreza, tornando-os, portanto, mais vulneráveis a distúrbios alimentares”, escreveram os autores do artigo publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health.

Desprender-me da noção de que meu corpo não é errado está levando anos. Na conta entram sessões de psicanálise com uma especialista em transtornos alimentares e tentativas de ser positivamente influenciada: prefiro seguir mulheres com corpos não magros, negras e que falem sobre como desenvolver uma relação positiva com o seu próprio corpo e com a comida.

Entre aquelas que sigo no Instagram e gosto de acompanhar estão a Letticia Munniz (@letticiamunniz) e a Rita Carreira (@ritacarreira), mulheres gordas que nos mostram que a moda é para todas; a Mayra Fernandes (@midmayra), que explora o conceito de midsize – nem magra, nem gorda; e a Mirian Bottan (@mbottan), que fala sobre como superou transtornos alimentares e hoje tem uma relação melhor com seu corpo.

Para ler na Folha

Sente dor ou ouve estalos ao abrir a boca? Pode ser um sintoma de alterações na ATM (articulação temporomandibular). As disfunções são mais comuns em mulheres. A Sílvia Haidar explica detalhadamente como isso ocorre.

O abuso processual é visto como uma extensão da dor de mulheres que sofreram violências. A repórter Isabela Menon conta como agressores abrem processos contra suas vítimas como estratégia para calar e intimidar.

Fim de ano já está aí e a época dos panetones (ainda bem) chegou. Por isso, a Folha provou opções tradicionais, recheadas e com gotas de chocolate para dizer a quais são os melhores.

Também quero recomendar

Para comer, essa receita de batata palha do Marcão. Meu hobby é testar suas indicações, e como uma amante do estrogonofe, nada melhor do que aprender a fazer uma versão decente e mais saudável.

Informação

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo