Economia

Combustão de lixo pode produzir energia e gera briga sem nem existir no Brasil

O Brasil ainda não tem uma planta de recuperação energética de resíduos a partir da queima —na qual o lixo é usado como insumo para termelétricas que o convertem em energia—, mas defensores e opositores da tecnologia tem posições cerradas sobre o tema, tratado como espécie de religião.

Recuperação energética é o nome em português para waste-to-energy, termo que reúne processos de produção de calor, energia elétrica e biogás a partir de resíduos sólidos urbanos por meio de combustão ou aterramento.

No Brasil, já há a transformação de rejeitos em combustível, chamado de CDR (Combustível Derivado de Resíduos), para fornos da indústria cimenteira. Pelo mundo, no entanto, o tipo de tratamento mais comum é a combustão de rejeitos para a geração de energia. O modelo existe em países como França, Alemanha e Estados Unidos.

O processo em geral funciona assim: os resíduos são introduzidos em uma fornalha a uma temperatura de cerca de 1.000° C. O calor é usado para aquecer água em caldeiras, de modo a gerar um vapor que aciona turbinas ligadas a geradores elétricos.

Por um lado, a tecnologia gera energia e diminui o volume resíduos que seriam destinados a locais inadequados. Por outro, é cara e complexa. Dioxinas e furanos, subprodutos do processo de queima, são considerados altamente tóxicos e cancerígenos. Eles requerem tratamento específico e dispendioso para não escaparem do processo, mas a eficácia desses métodos ainda assim é questionada.

A primeira unidade do Brasil e da América Latina está em construção em Barueri (SP) e deve ser inaugurada em 2027 com potência instalada de 20 MW e capacidade de tratamento de 300 mil toneladas anuais.

A estimativa é que a unidade gere uma energia equivalente ao consumo de 320 mil pessoas, suficiente para abastecer a cidade inteira de Barueri.

O projeto é uma parceria da Orizon, empresa de gestão de resíduos, com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), e receberá aproximadamente R$ 550 milhões em investimentos, sendo 80% da primeira e 20% da segunda.

“Hoje a tecnologia está completamente consolidada, sem nenhum tipo de problema ambiental, de poluição, de saúde”, diz Antonio Bolognesi, presidente do conselho da Abren (Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos).

Bolognesi afirma que a fumaça decorrente do processo é 100% tratada, com produtos químicos e filtragem, de forma que das chaminés só sai vapor de água.

Elisabeth Grimberg, coordenadora de projetos de resíduos sólidos do Instituto Pólis, diz que o monitoramento é uma dificuldade. “Um país onde não tem nem rede de esgoto para toda a população vai ter equipes fiscalizando essas emissões? Os filtros são a primeira coi sa que se desliga, se tira”, afirma ela, que também é cofundadora da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Segundo Grimberg, a prática de incineração também pode dificultar esforços de redução de consumo e produção durável. “O mundo continuará a produzir plástico, isopor nessa escala? Nenhuma mudança à vista? A indústria não vai avançar para uma produção mais sustentável? É uma aposta cega no crescimento da geração de resíduos contínua.”

Os resíduos utilizados no processo de recuperação enérgica por combustão vão desde pneus usados até fraldas geriátricas, que são contaminados ou não recicláveis. Mas os resíduos recicláveis podem entrar no forno também, o que é visto como ameaça à frágil cadeia de reciclagem de resíduos do Brasil.

Para Grimberg, investir nessa alternativa é um desincentivo a mudanças necessárias no modo de produção da indústria geradora de resíduos. “Por que vão mudar se existe algo que vai fazer ‘desaparecer’ esses resíduos sem custo para o setor produtivo?”

Uma diretiva europeia estabelece uma hierarquia para a gestão sustentável de resíduos. Reduzir o consumo está no topo, antes de reutilizar resíduos e reciclá-los. Recuperar energia e depositar em unidades de tratamento vêm por último.

A Carbogas tem outra técnica de recuperação, sem queima, a partir da gaseificação. A empresa brasileira produz CDR (Combustível Derivado de Resíduos) para alimentar um reator termoquímico em torno de 800° C. Lá, ocorre um processo de craqueamento. O gás produzido ao final pode gerar vapor ou energia elétrica.

“Não temos contaminação de solo, de lençol freático. É inegável que reduz a emissão de gases de efeito estufa. Se você for comparar com lixões ou aterros sanitários, uma tecnologia como essa é bem mais amigável ao meio ambiente”, disse Felipe Barbosa, diretor técnico da Carbogas. Ele preferiu não comparar com a técnica de incineração para evitar generalizações.

Suani Coelho, pesquisadora do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo), diz não haver uma solução única para o excesso de resíduos. “O problema é que as pessoas tratam a recuperação energética como religião.”

A professora afirma que as plantas de recuperação nem sempre são viáveis. Os projetos são caros e se encaixam somente em regiões com mais de 200 mil habitantes. Não dá para instalar unidades em todos os lugares, mas tampouco é possível reciclar tudo, com no exemplo da fralda geriátrica.

Milton Pilão, CEO da Orizon, à frente do projeto pioneiro no Brasil, considera a “discussão quase burra”, já que, “no final, o objetivo dessas tecnologias é tratar o resíduo e gerar circularidade”. O termo-chave, na visão dele, é “complementariedade tecnológica”, ou seja, diferentes tecnologias de gestão de resíduos que se complementam.

De acordo com Pilão, a recuperação gera circularidade porque converte em energia um produto que não pôde ser reciclado.

Em 2022, o Brasil gerou quase 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, segundo o Panorama de Resíduos Sólidos da Abrema (Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente). Quase 40% disso teve destinação final ambientalmente inadequada, ou seja, foi parar em terrenos desprotegidos, rios e o mar.

“Todas são tecnologias que visam resolver um problema”, continuou Pilão. “Até fico bravo quando vejo essas discussões. Existe um paciente no hospital e discutem qual medicamento administrar. Se os dois funcionam, dá logo o medicamento.”

Carlos Moraes, professor de Engenharia Civil na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), discorda de que há circularidade ou mesmo recuperação energética no processo de waste-to-energy.

Para ele, a recuperação ocorre, por exemplo, na transformação da biomassa em energia. Isso porque a planta absorve carbono da atmosfera. O elemento liberado na combustão da biomassa é o mesmo que havia sido capturado.

No caso do plástico, a dinâmica é diferente. O produto é derivado do petróleo, e o carbono estava intocado havia milhões de anos. “Não estou recuperando energia, estou gerando uma nova energia”, avalia ele, para quem o método não é neutro em emissões de carbono.

Para o professor, “queimar um resíduo, depois que ele foi gerado, não tem circularidade”, ou seja, faz parte de uma economia linear, e não de uma economia circular.

“Talvez a discussão seja burra para quem vai ganhar dinheiro com isso, mas não é para quem vai deixar de ganhar um pouco de dinheiro coletando materiais para reciclagem.”

Folha de São Paulo

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