Saúde

Comecei a escrever para organizar as dores da morte


Mari pergunta como eu era aos 20 anos.

Eu era a mesmíssima coisa que sou hoje, mas ainda não precisava disfarçar que não tenho mais 20 anos.

Carina quer saber quando eu entendi que era uma escritora.

Já contei essa história algumas vezes, mas é um relato bonito e não me custa rememorá-lo.

Eu tinha 13 anos quando meu avô morreu. Até aquela data, não me lembrava de uma única tarde sem a sua companhia. Ele era uma figura peculiar: adorava me dar presentes de bancas de jornais, esquentava nossas meias atrás da televisão, fazia um lanche substancioso cinco minutos antes de almoçar e deixava quase todas as frutas de molho em um copo cheio de vinagre de maçã.

Seu velório foi em casa e ele estava deitado na cama. Assim que cheguei, fui tomar um copo de água e achei minhas uvas submersas num copo cheio de vinagre de maçã. Antes de morrer ele higienizou minhas uvas.

Sem saber o que fazer com aquela dor (eu não sabia nem como senti-la), e sem espaço para pedir ajuda (os adultos à minha volta sofriam demais) eu comecei a narrar, dentro da minha cabeça, tudo o que acontecia no velório.

Narrava quem chegava, quem chorava, quem trazia comida (me deram uma sopa horrível com tanto óleo que os legumes boiavam numa coloração dourada e brilhante). Fazia listas das pessoas que estavam lá e meu avô nem gostava. E elencava os motivos pelos quais ele não ia muito com a cara daqueles tipos indigestos.

Então comecei a fazer também um pequeno roteiro mental de como eu me sentia.

Eu segurava, pela primeira vez, um pequeno baú imaginário. Uma caixa com toda a minha infância e com a despedida dela. A caixa continha o motivo da solidão (e do desespero) que eu carregaria para sempre.

Mas eu não tinha a chave para abri-la, então eu a suportava fechada e pesada, sabendo que seria um longo caminho até eu entender onde poderia guardá-la. Era engraçado porque, ao mesmo tempo, eu estava feliz: o garoto por quem eu era apaixonadíssima havia me pedido em namoro na noite anterior.

Para dar conta de tudo que acontecia em torno daquela morte, fora e dentro de mim, e organizar as centenas de milhares de pensamentos que meu cérebro demandava a cada segundo, e comecei a, mentalmente, descrever cenas e sensações. E fui me acalmando.

No dia seguinte comecei a escrever em um papel, anos depois em um computador. Nunca mais consegui parar de fazer isso.

Adriana quer saber se já perdi amizades e amores por ser “assim”.

Olha, talvez eu as tenha perdido por sem “assim”, mas desconfio que, caso eu fosse “assado”, não teria sequer as achado.

Vera quer saber o que a minha pessoa jurídica faz que a minha pessoa física não faz.

Olha, a minha “PJ” promove muito sexo, encrenca e vingança. A “PF” só quer terapia e colinho.

Décio quer saber se tenho algum desejo “sadomasoquista“.

Eu só me apaixono por pessoas mais cultas e inteligentes do que eu na esperança excitante de que elas me humilhem. Mas elas também costumam ter mais caráter e saúde mental do que eu, e não compactuam com meu desejo velado e sombrio.

Então eu acho um ponto fraco e inverto a polaridade do gozo, na esperança que elas aguentem. E nem nisso contribuem. Gente normal chega a ser ofensiva.

Elisa quer saber se algum projeto meu foi “um sucesso inesperado”.

Sim, eu sou uma mulher branca, privilegiada e mimada que narrou em 160 páginas (que não saem do mesmo lugar e trazem exemplos absolutamente iguais) as suas crises de pânico. Como isso vendeu tanto e ainda virou filme eu me pergunto até hoje.

Ana Julia quer saber o que aconteceu com minhas pernas: “vi uma foto sua e você parece um salame”

Eu tomei muito sol na infância e adolescência e sou inteira manchada de sardas brancas. O nome “cabeça” é leucodermia gutata, mas o nome real é “anos 80”.

Na época o Pedro Bial ainda não tinha dado “só uma dica sobre o futuro” e mandado a gente usar filtro solar.


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Informação

Folha de São Paulo

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