Como Lito Sousa conquistou a internet falando de aviação e agora mobiliza seguidores contra doença rara

Quando começou a falar sobre aviões na internet, Joselito Geraldo de Sousa tinha 43 anos e era conhecido sobretudo dentro dos hangares. Mecânico internacional de aeronaves, ele acumulava mais de duas décadas trabalhando com aviões comerciais quando decidiu levar para a internet o conhecimento adquirido ao longo da carreira.
Em 2010, criou o canal “Aviões e Músicas” no YouTube, onde passou a explicar o funcionamento das aeronaves, contar histórias dos bastidores da aviação e responder a dúvidas sobre um tema que desperta medo em muitos passageiros: afinal, quão seguro é voar?
O projeto cresceu junto com a audiência. Hoje, aos 59 anos, Lito Sousa —nome pelo qual passou a ser conhecido na internet— tem mais de 3,7 milhões de inscritos e se tornou um dos principais influenciadores brasileiros especializados em aviação.
Na última semana, porém, a relação construída entre Lito e seus seguidores ganhou outro significado, depois que sua esposa, Mila Seidl, revelou que ele foi diagnosticado com uma doença rara: Creutzfeldt-Jakob (DCJ).
Dias depois, foi o próprio Lito quem apareceu nas redes sociais. Mas em vez de falar sobre sua paixão, ele fez um apelo por acesso a estudos clínicos que investigam possíveis tratamentos para a doença.
Até a noite de segunda-feira (24), a publicação já havia ultrapassado 39 milhões de visualizações e sido compartilhada mais de 467 mil vezes.
A dimensão da mobilização é resultado de uma trajetória que começou muito antes de Lito se tornar um influenciador.
De mecânico para a internet
Antes de chegar à internet, Lito construiu uma longa trajetória na aviação. Ainda adolescente, fez um curso técnico da FAB (Força Aérea Brasileira). Em 1986, aos 19 anos, conseguiu seu primeiro emprego no setor, na Varig, enquanto ainda estudava.
“Foram anos de aeroporto, ferramenta na mão e cabeça nos manuais”, escreveu em uma publicação no LinkedIn em 2025, ao recordar os primeiros anos da carreira, marcados por “jornadas longas, folgas curtas e noites e madrugadas emendadas”.
“Natal e Ano Novo passados no pátio”, lembrou. “Mas cada parafuso apertado com responsabilidade me ensinou algo maior: nunca negociar a segurança.”
Em menos de dois anos na Varig, Lito se tornou inspetor. Depois, passou pela Transbrasil e chegou à United Airlines, onde trabalhou por 25 anos.
A relação com a internet começou em 2004, quando criou o blog Aviões e Músicas, incomodado com como a aviação era retratada na mídia. Em 2010, levou o projeto para o YouTube, onde explodiu.
O primeiro vídeo foi publicado em julho de 2011.
Em uma gravação ainda amadora, Lito entrevistava um expositor sobre um avião experimental durante uma feira em São Paulo. O formato que viria a se consolidar nos anos seguintes era simples.
Lito pegava assuntos que pareciam restritos a pilotos, mecânicos e engenheiros e os explicava para quem apenas embarcava em um avião como passageiro.
Turbulências, ruídos durante o voo, funcionamento de motores, procedimentos de emergência e acidentes aéreos passaram a aparecer com frequência nos vídeos. Em 2015, o canal ultrapassou 100 mil inscritos. Hoje, são mais de 3,7 milhões.
O crescimento levou Lito para além do YouTube. Ele passou a produzir conteúdo para outras plataformas como Instagram e TikTok e a participar de programas de televisão, podcasts e entrevistas como especialista em aviação e segurança aérea.
Em uma reportagem da BBC News Brasil em 2025 sobre quem inventou o avião, ele defendeu que apesar do avião dos irmãos Wright ter mais sustentação, o feito de Santos Dumont era maior porque o 14-Bis teria decolado pela própria força do motor, sem auxílio externo.
A experiência de Lito também acabou virando livro. Em 2019, ele publicou “Onde Morrem os Aviões”, obra em que narra um episódio marcante na carreira, quando acompanhou aviões Electra da Varig vendidos para o então Zaire, atual República Democrática do Congo.
“Eu fui com as aeronaves para ensinar os mecânicos de lá a lidarem com elas. Foi uma experiência incrível, que se transformou em um livro sobre aviação”, contou à Globo em outubro de 2025.
Aos 53 anos, tornou-se piloto
Em 2021, aos 53 anos, Lito decidiu acrescentar uma nova função à sua trajetória na aviação: tornar-se piloto.
A decisão veio depois de uma crítica, segundo ele, feita durante uma transmissão ao vivo no YouTube sobre simuladores de voo, quando Lito cometeu um erro ao explicar um assunto e foi questionado por seguidores. Durante uma transmissão ao vivo no YouTube sobre simuladores de voo, Lito cometeu um erro ao explicar um assunto e foi questionado por seguidores que diziam: “Ele não é piloto.”
E, de fato, não era. Mas em vez de ignorar os comentários, Lito decidiu transformar a provocação em um novo projeto para o canal.
Nascia a série “Decola Lito”, na qual ele registraria todo o processo para obter a licença de piloto, desde as aulas até o primeiro voo solo —que aconteceu em São José dos Campos, no interior de São Paulo.
O vídeo do voo teve quase 1 milhão de visualizações no canal.
“Que sensação. Tinha chegado aquele momento que eu esperava tanto. Estava me sentindo muito bem, uma alegria. É inexplicável”, disse no vídeo.
Em outro trecho, descreveu a sensação como uma espécie de liberdade para a qual ainda procurava palavras e fez questão de dividir o mérito com a esposa, Mila, que acompanhou o voo da pista, emocionada. “Eu não chegaria aqui sozinho. Precisa ter muito apoio de amigos, parceiros, minha esposa.”
Naquele mesmo ano, Lito criou um curso voltado para pessoas que têm medo de voar e, com Mila, fundou a Lito Aviation Academy, voltada à formação de comissários, pilotos, mecânicos e engenheiros.
“Hoje, empreender para fortalecer a segurança de voo através de gente bem treinada é a missão que me move”, escreveu em uma publicação no LinkedIn.
Lito e Mila estão juntos desde 2014 e têm um filho de 7 anos.
A doença e a corrida contra o tempo
Nos últimos meses, contudo, é a vida de Lito —e não a aviação— que passou a ocupar o centro das atenções na internet.
Em julho, ele revelou ter sido diagnosticado com câncer de próstata e, posteriormente, com um quadro de inflamação no sistema nervoso.
Na semana passada, sua mulher, Mila, publicou um vídeo contando que Lito havia recebido o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma doença neurodegenerativa rara e de evolução rápida, causada pelo acúmulo de proteínas anormais chamadas príons.
Segundo Mila, o influenciador, de 59 anos, perdeu parte da capacidade motora nas últimas semanas, embora tenha mantido a lucidez.
O caso chama atenção não apenas pela gravidade, mas também pela raridade. A DCJ tem incidência estimada de 1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano no mundo. Não existe um tratamento aprovado capaz de interromper a progressão da doença.
Diante da urgência, familiares, amigos e seguidores começaram a se mobilizar nas redes sociais em busca de pesquisadores e instituições que desenvolvem estudos sobre a doença.
Um dos alvos é um ensaio clínico com o ION717, medicamento experimental desenvolvido pela farmacêutica americana Ionis Pharmaceuticals.
Segundo a família, duas pesquisas são consideradas as alternativas mais promissoras neste momento.
Uma é ligada a Harvard, nos Estados Unidos, e a outra é multicêntrica, com centros de pesquisa na França, Alemanha e Inglaterra.
Há, porém, um obstáculo: nenhuma das duas pesquisas está, neste momento, aceitando novos participantes, segundo o relato da família.
Foi nesse cenário que Lito voltou a aparecer publicamente.
No domingo (23), em sua primeira aparição desde que Mila revelou o diagnóstico, o influenciador publicou no Instagram um vídeo em inglês. Na gravação, faz um apelo por uma vaga em uma pesquisa experimental.
“Oi, meu nome é Lito Sousa e tenho um apelo urgente para você. Por favor, ouça atentamente a seguinte mensagem. Este é um apelo urgente para a Ionis Pharmaceuticals, o Broad Institute, Harvard e a Mayo Clinic”, diz no início da gravação.
O pedido se espalhou justamente pela comunidade que Lito construiu ao longo de 15 anos na internet.
Durante esse período, ele se tornou uma referência para pessoas que queriam entender melhor situações que poderiam causar medo em um avião.
Agora, a mesma comunidade que durante anos recorreu a Lito em busca de respostas tenta ajudá-lo nessa corrida contra o tempo.
Informação
Folha de São Paulo



