Saúde

Como pode a Fórmula 1 correr mais rápido do que os sinais nos nervos?

Minha filha virou fã de Fórmula 1, e tem curtido em especial ver o Kiminho correr. Kiminho é como ela chama o Kimi Antonelli, piloto italiano que mal completou 20 anos de idade e já venceu oito corridas este ano pela Mercedes, desde que estreou na Fórmula 1 ano passado como substituto do heptacampeão Lewis Hamilton.

Na minha temporada brasileira este ano, curti assistir a algumas corridas com ela, o que é melhor do que ouvir os comentaristas. A menina bate o olho na tevê e sabe identificar os carros, pilotos e escuderias, conhece as regras, está por dentro das estatísticas e fofocas, discute as penalidades, faz previsões e considerações bem-informadas.

Voltei para os EUA para começar o semestre letivo e resolvi tentar assistir a uma corrida junto com ela, via satélite, com vídeo no WhatsApp pra gente trocar comentários cada uma do seu país. Mas não deu. A AppleTV, que transmite a Fórmula 1 nos EUA, estava à frente da transmissão da Globo por mais de 30 segundos, que eu tinha que esperar para ela poder me explicar o que já havia acontecido. Tanta diferença de tempo inviabilizou a nossa brincadeira.

O engraçado é que, pela mesmíssima razão, não deveria nem ser possível pilotar um carro de fórmula 1 a mais de 300 km/h. Nesta velocidade, o mundo muda muito mais rápido do que os nervos conseguem transmitir os sinais dos sentidos. Mesmo as fibras nervosas mais grossas do nervo óptico não transmitem sinais dos olhos ao cérebro a mais de 72 km/h. As fibras táteis e proprioceptivas até chegam a comunicar as vibrações do corpo ao cérebro a uns 400 km/h, mas a volta é mais lenta: os sinais do cérebro aos músculos não passam de uns 200 km/h.

E tem mais. Só os fotorreceptores nos olhos que primeiro detectam luz levam uns 30 milissegundos para responder a um estímulo. Depois, cada sinapse no meio do caminho ainda acrescenta mais 2 ou 3 milissegundos ao tempo de transmissão, chova ou faça sol. Só dentro da retina, lá se vão uns 60 milissegundos até o sinal deixar o olho. Até chegar ao córtex visual, cem milissegundos já se passaram – e, a 300 km/h, o carro já avançou mais de oito metros. Até o cérebro reagir com um sinal aos músculos e causar uma ação em resposta ao que viu, lá se foram ao menos 200 milissegundos no total, ou mais de 16 metros.

Ou seja: se pilotar Fórmula 1 dependesse de o piloto reagir aos eventos na pista, ninguém conseguiria fazer uma curva a 300 km/h. Se o atraso aceitável for de 1 metro entre estímulo e reação, corridas de carro aconteceriam no máximo a excitantes… 18 km/h. Até a pé se corre mais rápido.

O espetáculo verdadeiro da corrida de fórmula 1 acontece muito antes da corrida. Pilotos de fórmula 1 não reagem à pista; eles apenas usam seus sinais para ajustar a execução do modelo interno das suas ações, a coreografia que eles aprenderam durante o treino, correndo em simuladores onde erros não custam a vida. Mais do que saber o circuito de cor, eles já têm todos seus movimentos decorados, na sequência certa, na hora certa.

E ajuda, claro, que Kimi é um garoto que mal completou 20 anos. O tempo de reação dele ainda está em pouco mais de 200 ms, mas vai aumentando com a idade. Hamilton, com seus 41 aninhos, cedeu o trono para Max Verstappen, agora com 28, que passou o cetro para o Lando Norris, agora com 26, no processo de ser destronado pelo Kiminho, de 20. Aproveita enquanto pode, Kiminho…


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Informação

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo