Saúde

Como vermes, como cisticercos, chegam ao nosso cérebro? Especialistas explicam

A revelação de Robert F. Kennedy Jr. de que um médico aparentemente encontrou um verme morto em seu cérebro gerou perguntas sobre o que são parasitas cerebrais, o dano que podem causar e como, exatamente, eles chegam lá.

Como os vermes parasitas infectam as pessoas? E o que eles podem fazer no cérebro?

Os parasitas cerebrais englobam muito mais do que vermes. Existem “legiões” de organismos que podem afetar o cérebro, disse Scott Gardner, professor de ciências biológicas da Universidade de Nebraska-Lincoln especializado em parasitas. Além de vermes, parasitas cerebrais comuns incluem organismos unicelulares como Toxoplasma gondii (causador da toxoplasmose) e algumas amebas.

O dano varia dependendo do tipo de parasita e de onde ele se aloja no cérebro. “Alguns deles invadem ativamente os tecidos e destroem tecidos”, afirma Daniel Pastula, chefe de doenças neuroinfecciosas e neurologia global na Universidade de Medicina do Colorado, nos Estados Unidos. Outros causam problemas devido à reação inflamatória que desencadeiam.

Vermes

Os humanos geralmente são expostos a vermes através de alimentos crus ou malcozidos ou por meio de alimentos contaminados com fezes.

“Muitas dessas patologias são transmitidas aos humanos através de fezes”, explica Edith L. Graham, neurologista da Faculdade de Medicina de Noroeste.

Especialistas consultados pelo The New York Times afirmam que Kennedy descreveu sintomas supostos de uma contaminação com larvas de tênia (Taenia solium) na carne de porco, um dos vários tipos de vermes que podem infectar o cérebro. Quando uma pessoa ingere acidentalmente ovos de tênia do porco, os ovos eclodem nos intestinos, e as larvas podem ser carreadas pela corrente sanguínea para outros órgãos, incluindo o cérebro. Lá, elas formam cistos, causando uma condição conhecida como neurocisticercose.

Pode levar meses, ou até anos, para as pessoas apresentarem sinais de infecção. Os sintomas variam com base na quantidade de cistos que se desenvolvem e onde estão localizados. (Os cistos podem se formar nos olhos, músculos e medula espinhal.) Geralmente, porém, pessoas com neurocisticercose experimentam dores de cabeça e convulsões, e às vezes se sentem confusas, têm dificuldade para prestar atenção e problemas de equilíbrio. A condição pode ser fatal.

Amebas

Outro tipo de parasita que pode afetar o cérebro é conhecido como ameba comedora de cérebro (Naegleria fowleri). Infecções desse tipo são extremamente raras, mas podem levar a um inchaço potencialmente fatal do cérebro ou da medula espinhal, explica Tajie H. Harris, professora associada de neurociência na Universidade de Virgínia. Os organismos entram pelo nariz quando as pessoas nadam em lagos e rios, podendo se alojar no cérebro. Há relatos também de pessoas infectadas ao usar potes de lavagem nasal com água não tratada ou não esterilizada.

Toxoplasmose

Uma das infecções cerebrais parasitárias mais comuns é a toxoplasmose. Mais de 40 milhões de pessoas nos EUA possuem o parasita que causa essa infecção, de acordo com o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) americano. Indivíduos podem se infectar ao comer carnes ou frutos do mar malcozidos que estão contaminados, ao beber água contaminada ou ao aspirar acidentalmente o parasita ao entrar em contato com fezes de gato durante a limpeza das caixas de areia.

O patógeno que causa a toxoplasmose pode permanecer no corpo humano por anos —potencialmente, por toda a vida— mas a maioria das pessoas não desenvolve sintomas. “Em sua maior parte, nosso sistema imunológico faz um trabalho incrível em lidar com esse parasita, permitindo-nos viver sem nunca saber”, diz Harris.

No entanto, algumas pessoas podem manifestar sintomas similares os da gripe, como indivíduos imunocomprometidos, que correm maior risco de doenças graves e danos cerebrais se infectados, e fetos em desenvolvimento. Por isso, médicos recomendam que mulheres grávidas evitem exposição à areia de gatos.

Como descobrir se você tem um parasita?

“Você não saberia sozinho, a menos que alguém esteja procurando por ele”, disse Gardner. Às vezes, o sangue do paciente pode ser testado para anticorpos produzidos em resposta a um parasita. Em outros casos, os médicos diagnosticam parasitas alojados por meio de uma ressonância magnética ou tomografia computadorizada.

Já o tratamento vai variar com o tipo de doença, já que as infecções abrangem uma ampla gama. Dentre elas, medicamentos antiparasitários, tomados por algumas semanas, podem ser indicados, assim como esteroides para tratar a inflamação. Alguns pacientes podem precisar de cirurgia para remover cistos.

Nos EUA, infecções graves por parasitas cerebrais são raras, afirma Pastula, “mas em outras partes do mundo, são mais comuns“.

Felizmente, muitas dessas infecções são preveníveis, diz. Para reduzir seu risco, especialmente ao viajar ao exterior, o médico recomenda lavar as mãos antes de comer ou preparar alimentos, cozinhar os alimentos corretamente e garantir que a água que você está bebendo seja limpa.

Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times.

Informação

Folha de São Paulo

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