Condenado por PowerPoint falso contra Lula, Dallagnol é escolhido por Flávio Bolsonaro para analisar dados de sigilos do presidente

O ex-procurador e senador eleito pelo Paraná, Deltan Dallagnol (Novo), foi escolhido pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para analisar os documentos da quebra de sigilos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nesta quinta-feira (22), os dois candidatos formalizaram a abertura de sigilos bancário, fiscal e telefônico ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Lula havia desafiado Flávio a quebrar sigilos no debate na Band de domingo (18).
Flávio não aceitou a proposta de imediato. Depois, para fugir do desafio, impôs diversas condicionantes e exigiu que Lula fizesse o mesmo com dados de assessores (como Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola), familiares (como Frei Chico), o Instituto Lula, a empresa L.I.L.S., registros de entrada da empresária Roberta Luchsinger no Palácio do Planalto e dados do cartão corporativo.
Lula aceitou a contraproposta nessa quarta-feira (21). Camilo Santana, coordenador da campanha do presidente, cobrou o cumprimento do acordo e exigiu que Flávio abrisse o sigilo dos dados até as 11h desta quinta, no TSE.
Em frente ao TSE, na manhã desta quinta, Dallagnol lembrou os casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia: “Nós queremos analisar esses documentos para podermos resgatar a história”. Os dois imóveis foram atribuídos a Lula, embora o processo que condenou o presidente apresente diversas fragilidades. Em 2022, o triplex foi sorteado na internet pelo verdadeiro dono.
A defesa de Lula sempre sustentou que os processos eram lawfare (uso político do Judiciário para fins de perseguição), argumentando que ele não era o proprietário legal dos imóveis (o triplex não chegou a ser transferido para seu nome e o sítio pertencia à família Bittar) e que não havia provas reais de propina ou ligação com desvios na Petrobras.
Em 2021, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba, comandada pelo ex-juiz Sergio Moro, não tinha competência legal para julgar os casos do triplex, do sítio e as duas ações envolvendo o Instituto Lula.
Perguntado pela imprensa, Dallagnol se absteve de comentar sobre a quebra de sigilo de Flávio e atribuiu a tarefa à advogada do candidato. Flávio Bolsonaro é ou foi alvo de investigações de esquemas de corrupção, como no caso das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no inquérito do filme “Dark Horse” e a proximidade com Daniel Vorcaro, do Banco Master, no novo inquérito que envolve Willer Tomáz e a lavagem de dinheiro em plataformas de apostas, em transações imobiliárias (como a compra de uma mansão em Brasília) e conexões com investigações paralelas (como o caso do “Careca do INSS”).
Dallagnol e Moro perseguiram Lula na Lava Jato
A campanha de Bolsonaro defendeu a “experiência” de Dallagnol e seu “conhecimento sobre os métodos e engrenagens financeiras” para desvendar esquemas de corrupção. Em 2025, o ex-procurador foi condenado pela Justiça brasileira a pagar uma indenização de R$ 146 mil por danos morais a Lula, devido à famosa apresentação em PowerPoint de 2016.
Em setembro daquele ano, Dallagnol e a força-tarefa da Lava Jato usaram um slide em PowerPoint com o nome de Lula no centro, cercado por termos como “propinocracia”. A apresentação ocorreu em uma coletiva para anunciar uma denúncia sobre o triplex do Guarujá.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outras instâncias julgaram que o ex-procurador cometeu abuso de direito, antecipou juízo de culpa e usou qualificações fora dos limites formais da denúncia, violando a honra e os direitos de personalidade de Lula.
Em 2019, mensagens da “Vaza Jato”, divulgadas pelo The Intercept Brasil em parceria com outros veículos, revelaram conversas privadas via Telegram entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato, liderados por Dallagnol. As conversas revelaram que Moro orientava a acusação, sugerindo linhas de investigação, cobrando rapidez em operações, antecipando decisões e atuando quase como um parceiro do Ministério Público Federal (MPF).
Dallagnol e Moro debatiam estratégias jurídicas em conjunto, em um esquema ilegal de parcialidade entre juiz e procurador. Os dois, que depois concorreram a cargos eletivos — Moro é governador eleito e Dallagnol, senador eleito, no Paraná — combinavam o cronograma de operações, discutiam o momento certo para apresentar denúncias e planejavam como lidar com a repercussão na imprensa.
Nas conversas, os procuradores debatiam a fragilidade das provas contra Lula e expressavam preocupações sobre a atuação já vista como politicamente direcionada, antes do vazamento.
Em 2022, o Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) concluiu que Moro foi parcial no julgamento dos processos contra Lula, na Lava Jato, e que os direitos políticos do ex-presidente foram violados na eleição de 2018.
Dallagnol teve o mandato de deputado federal pelo Paraná cassado em 2022 pelo TSE, por fraude à Lei da Ficha Limpa. O senador eleito pediu exoneração do cargo de procurador do MPF em 2021 para fugir de processos administrativos disciplinares pendentes e que poderiam deixá-lo inelegível. Segundo a lei, essa prática leva à ineligibilidade por 8 anos.
O ex-procurador conseguiu concorrer no pleito de 2026, mesmo com uma candidatura irregular, e foi eleito ao Senado. A candidatura ainda não está deferida de forma definitiva pelo TSE e Dallagnol ainda pode ser cassado.



