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Conheça o novo Cultura Artística, teatro de R$ 150 mi – 08/04/2024 – Ilustrada

Daqui a um mês, num dia de plena primavera no Hemisfério Norte, o canadense Jan Lisiecki, um dos pianistas mais concorridos da atualidade, terá uma tarefa em Hamburgo. Na sede da Steinway & Sons, a prestigiosa fabricante alemã de pianos, ele vai escolher um novo modelo do instrumento, a ser incorporado ao Teatro Cultura Artística, que será reaberto em agosto, unindo, em um programa, o solista Lisiecki à Filarmônica de Câmara de Bremen.

“A temporada de reinauguração será o test drive para a nossa Ferrari”, diz Frederico Lohmann, superintendente do Cultura Artística, abrindo as portas do espaço, na República, no centro da capital paulista. Seu renascimento se insere num “boom” da música de concerto. Além de receber estrelas internacionais, a maior cidade do país tem plateias lotadas e a inauguração iminente de outras duas salas —a Estação das Artes e o Teatro Baccarelli.

Ao todo, o surgimento dos novos equipamentos culturais deve movimentar mais de R$ 200 milhões, um caminhão de dinheiro que deve suprir a carência de espaços dedicados à música de câmara, isto é, o repertório de composições pensado para um grupo reduzido de instrumentistas, que o interpreta de um modo intimista, como se fazia nos palácios europeus.

O caso do Cultura Artística é particular. Em 2008, um incêndio, de causas não identificadas, destruiu boa parte do teatro, incluindo as duas salas de espetáculos. Assinado pelo arquiteto Paulo Bruna, o projeto de restauro, que se iniciou na década seguinte ao incêndio, buscou conservar a estética preconizada por Rino Levi, incorporando ao edifício as novas tecnologias de engenharia civil e de acústica.

Para tanto, a Sociedade Cultura Artística, a mais antiga organização sem fins lucrativos dedicada às artes no país, arrecadou R$ 150 milhões —10% do valor foi repassado por um patrocínio do BNDES. Além de doações diretas, o montante foi alcançado com leis de incentivo, como a Rouanet, e apoios de diversas empresas.

As assinaturas para a temporada já estão esgotadas. Por isso, apenas 10% dos ingressos para cada concerto estão à venda. Agora, a paisagem da rua Nestor Pestana voltou a apresentar o imponente mural concebido, em 1950, por Di Cavalcanti. “Alegoria das Artes” reúne dez musas da mitologia grega.

As formas conseguintes desenham um único corpo, representando o ímpeto modernista do Brasil, em tons pastel de verde, amarelo e azul. A entrada do teatro fica embaixo do painel, sendo sucedida pelo foyer.

Nele, as colunas de vidrotil do projeto original foram restauradas. À esquerda, a primeira porta leva o visitante até a livraria Megafauna; a segunda é a passagem para o bar, que será adornado com tapeçarias da artista Sandra Cinto. Do outro lado, ficará um bistrô, ainda a ser anunciado pela organização, com mesinhas na calçada.

Do hall em diante, tudo precisou ser erguido do zero. Ao fundo, está a primeira sala, a menor, com 150 lugares. A ideia é fazer dali um espaço próprio para seminários e apresentações menores, como a série dedicada ao violão brasileiro.

Subindo um lance de escadas, encontra-se a sala principal, com 773 assentos, 383 a menos do que o teatro antigo. A diminuição busca equalizar a acústica ao repertório intimista, a vocação original do espaço. Sua arquitetura prevê uma separação rigorosa entre o público e os artistas, dificultando o assédio dos fãs.

O palco terá 123 metros quadrados e um camarim em sua borda, atendendo a um desígnio comum às estrelas da música de concerto.

Fundada no início do século 20, a Sociedade Cultura Artística reuniu gente ilustrada, como Olavo Bilac, Bidu Sayão e Graça Aranha. O desejo de incentivar a vida cultural brasileira ensejou a criação, em 1950, do teatro. Na noite de abertura, Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri regeram obras suas e, desde então, o local se tornou um dos points da intelligentsia paulistana.

Antes do incêndio, o Cultura Artística também lançava tendências nas artes cênicas, apresentando peças do Grupo Experimental e do Grupo Universitário. Agora, o conselho, formado por empresários e intelectuais, decidiu priorizar a música. Pouco a pouco, o teatro vai receber também apresentações de MPB e de jazz. “Constatamos que não existe uma boa sala de espetáculos para tudo”, afirma Lohmann.

Em sua visão, a capital paulista já é um destino visado pelos artistas internacionais, que passaram a olhar para a cidade, com o desenvolvimento da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp. Contudo, a crise econômica na Argentina dificulta a vinda de conjuntos estrangeiros, sobretudo os de até 60 músicos, inclusive pela ausência de boas casas para apresentações.

“Agora São Paulo vai justificar a vinda desses grupos, porque eles podem fazer uma residência só no nosso teatro”, diz ele.

A própria Osesp decidiu preencher essa lacuna. Em setembro, quando completa 70 anos, a Estação das Artes será inaugurada no hall posterior à linha do trem. Assinado por Nelson Dupré, o mesmo arquiteto que desenhou a Sala São Paulo, o novo ambiente terá uma plateia retrátil, com capacidade para 700 lugares.

O projeto foi pautado pela reversibilidade, uma vez que o edifício é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. A Estação das Artes era um sonho antigo da Osesp, que só se acentuou com a criação do Quarteto e do Quinteto, os dois conjuntos reduzidos da orquestra.

Diretor-executivo da Osesp, Marcelo Lopes diz que o projeto custou R$ 26 milhões —metade do valor tem origem em repasses do governo do estado e a outra metade advém de patrocínios. Lopes diz que o Cultura Artística e a Estação das Artes não entrarão em disputa pelo público. “A música de concerto cria sua própria demanda. Não vejo um conflito entre os dois locais, precisamos de diversidade”, ele afirma.

Organizadora do Festival Sesc de Música de Câmara, Claudia Toni comemora os novos espaços, mas acredita que são iniciativas tardias. Para ela, São Paulo sempre quis ter uma Sala Cecília Meireles, como no Rio de Janeiro, para chamar de sua.

Acontece que, desde os anos 1980, a música que reunia a vizinhança em igrejas e no próprio Theatro Municipal desapareceu, com a prevalência da temporada lírica e do repertório sinfônico, mais popular.

O hiato, afirma a gestora, se acentuou com a ausência de escolas específicas, naquela época, para o desenvolvimento de músicos aptos a interpretar essas obras mais virtuosísticas. “Será preciso construir um movimento para criar um público fiel para esse tipo de música, que é pura abstração”, diz ela.

No Cultura Artística, o violinista Joshua Bell e os pianistas Lang Lang e Helène Grimaud são os destaques do ano. Já a Sala São Paulo recebe, neste mês, o pianista islandês Víkingur Ólafsson, um astro das plataformas de streaming.

Em perspectiva, os dois projetos mostram o interesse da iniciativa privada em atrelar seu nome à sofisticação erudita, sem perder um certo engajamento social. “Quem quer investir em cultura e educação hoje escolhe a música de concerto”, afirma Lopes, da Osesp.

Tanto que a Estação das Artes vai ampliar a visita das escolas públicas a Sala São Paulo, e o Cultura Artística oferecerá bolsas de estudos e 11 salas para a prática instrumental. Nesse contexto, a maior prova dessa tendência é a viabilização, após quase duas décadas, do Teatro Baccarelli, que deve ser inaugurado em dezembro, para servir aos alunos da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, oriundos da maior favela da capital paulistana.

Com projeto acústico de José Augusto Nepomuceno —o mesmo que fez o da Sala São Paulo e o da Sala Minas Gerais— o teatro terá capacidade para 547 pessoas, com fosso móvel para encenação de óperas e balés, além de energia gerada por paineis fotovoltaicos.

Ao todo, as obras custarão R$ 36 milhões, captados por leis de incentivo. Diretor do instituto, Edilson Venturelli afirma que o teatro possibilitará a ida de orquestras, como a Osesp, até Heliópolis, além de colaborar com o desenvolvimento sonoro dos alunos.

“Não se cria um artista sem a exposição de sua habilidade ou de sua fraqueza, sem o aplauso ou a vaia”, afirma Venturelli.

Matéria: UOL Notícias

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