Economia

Conheça opções de investimento para proteger seu dinheiro da inflação

Economistas costumam dizer que a inflação é o pior imposto que existe na sociedade, pois onera em maior escala os mais pobres, já que os ricos têm mais recursos e ferramentas para se proteger. Também dizem que, para fugir dessa espécie de taxa, o único caminho é o investimento.

Mas não é qualquer ativo que vai garantir essa proteção. Na verdade, especialistas não recomendam um ativo único e, sim, uma cesta balanceada que tenha uma rentabilidade média acima da inflação, independente do ciclo econômico.

“Investimento não é corrida de cavalo. Não se pode apostar em um só ativo. Mais importante para se proteger de riscos, incluindo a inflação, é ter uma carteira diversificada a para surfar momentos de euforia e frustrações [do mercado], diz Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual.

Reserva de emergência

O primeiro passo, de acordo com analistas, é garantir a reserva de emergência. Ela serve como um colchão de segurança em caso de imprevistos, como demissão, acidente ou enfermidades. A reserva deve equivaler a, no mínimo, seis meses de gastos e pode chegar a um ou dois anos, dependendo da estabilidade do ramo de atuação e do nível das despesas.

Esse montante deve estar alocado em um investimento de renda fixa de liquidez diária, como um CDB de banco grande tradicional ou o Tesouro Selic. Ambos acompanham a taxa básica de juros definida mensalmente pelo Banco Central e tendem a garantir que o dinheiro aplicado renda acima da inflação e, também, acima da poupança.

O que não vale é deixar esse dinheiro na conta do banco, por mais que ela renda. Além da tentação de usar o dinheiro à disposição, algumas dessas contas remuneram o valor depositado apenas após 30 dias e, muitas vezes, a remuneração é menor que a de um CDB ou do Tesouro Selic.

CDI

“Taxas básicas de juros são calculadas para garantir rentabilidade real. Se inflação a superar, é algo pontual”, diz Martin Iglesias, especialista em investimentos e alocação de ativos do Itaú Unibanco.

A taxa Selic é, atualmente, a principal ferramenta de controle da inflação. Nos últimos 12 meses, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumula alta de 3,93%, acima da meta de 3%, mas dentro do intervalo de tolerância.

Com o aumento do risco fiscal nos últimos meses, e consequente alta nos juros futuros, o Banco Central interrompeu o ciclo de cortes na taxa, deixando-a em 10,50%. Assim, o juro real está acima de 6%.

“Temos juros bem altos no Brasil, o que torna o investimento em CDI uma boa proteção, especialmente para as pessoas mais conservadoras. Fora que ele é melhor que a poupança”, afirma Iglesias.

Desde 2012, a rentabilidade da poupança é de 0,5% ao mês mais a TR (Taxa Referencial, calculada pelo BC) quando a taxa Selic está acima de 8,5% ao ano. Atualmente, a rentabilidade bruta da caderneta é de 7,13% ao ano. Considerando a inflação, o juro real é de 3,2%, bem menor que as aplicações que rendem perto de 100% da Selic, como os títulos Tesouro Selic e CDBs (Certificados de Depósito Bancário).

Nos 30 anos do real, o CDI foi a mais vantajosa das aplicações, acumulando uma rentabilidade de 7.927%, um ganho 11,26 vezes maior que a inflação do período, de 704%.

Diversos produtos de investimento têm sua rentabilidade atrelada ao CDI hoje em dia. Além dos CDBs, é o caso de muitas LCAs e LCIs (Letras de Crédito do Agronegócio e Imobiliário) e debêntures. Esses ativos têm o ganho equivalente a um certo percentual do CDI, como 100%, 97% ou 112%. Quanto maior o percentual, maior a rentabilidade.

IPCA+

Para garantir um retorno acima da inflação, especialistas recomendam a compra de títulos atrelados ao IPCA, que rendem uma determinada taxa de juros somada à variação do índice durante o período investido.

Um dos mais recomendados investimentos desta natureza é a NTN-B, que são os títulos do Tesouro Direto IPCA+. Atualmente, eles estão com um juro prefixado acima de 6,30%. Porém, se trata de um investimento de longo prazo, com vencimento mais curto disponível em 2029.

Segundo Iglesias, instrumentos atrelados ao IPCA são, inclusive, melhores que investimentos atrelados ao dólar. “O dólar não é boa proteção. Não supera o IPCA e a moeda americana também desvaloriza conforme a inflação dos Estados Unidos.”

Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual, concorda. “Não é porque um ativo rendeu mais da inflação que ele protege da inflação. Quem faz isso são os ativos ligados ao IPCA+ e ao CDI, porque a Selic é instrumento de controle da inflação.”

COMO SABER SEU PERFIL DE INVESTIDOR

Antes de investir, é necessário descobrir qual o seu perfil, para determinar que riscos está disposto a correr –e, a partir daí, definir os ativos de sua carteira.

O perfil é obtido por questionários e avaliação financeira de bancos, corretoras e casas de análise. Para ter uma boa parte da carteira em ações, como no perfil arriscado, por exemplo, é preciso ter sangue frio para lidar com eventuais desvalorizações do mercado.

Conservador
Preza estabilidade do investimento. Quer saber o rendimento ao fim do mês, sem arriscar perder dinheiro ou ter surpresas no meio do caminho. No passado, mantinha toda a carteira em renda fixa, mas, com a queda da rentabilidade, analistas recomendam uma pequena alocação em fundos multimercado.

Moderado
Aceita mais oscilações nos investimentos, especialmente a longo prazo, mas também preza a garantia do retorno. Sua carteira tem mais espaço para a renda variável.

Arrojado
Está mais disposto a correr risco em nome do retorno maior. Tem mais tranquilidade para lidar com oscilações bruscas na renda variável, que ocupa boa parte da carteira.

Agressivo
Não tem medo de perder em algumas aplicações para ganhar em outras. Tem sangue frio para aguentar o tranco de uma queda brusca de ações.

COMO DIVERSIFICAR INVESTIMENTOS

A diversificação depende do apetite ao risco. Conservadores devem ter a menor parte da carteira em ações, por exemplo. Veja diferentes tipos de investimento:

Pós-fixados
Acompanham a taxa de juros. Se ela sobe, a rentabilidade aumenta; se cai, o ganho diminui. São os investimentos mais seguros, e mesmo os mais arrojados têm uma parte do dinheiro nesses produtos.
Opções: poupança, CDBs, LCA e LCI, Tesouro Selic e fundos DI. A aplicação é de longo prazo, e o dinheiro fica parado até o vencimento.

Prefixados
Têm uma taxa de juros combinada no momento da aplicação, que não muda mesmo que a Selic seja alterada. Há risco em caso de venda antecipada e é o primeiro patamar de diversificação.
Opções: Tesouro prefixado e CDBs de bancos pequenos

Inflação
São investimentos que pagam uma taxa de juros fixa mais a variação da inflação. Como mudam de preço todo dia, o investidor precisa mantê-los até o vencimento para evitar risco de perdas.
Opções: Tesouro IPCA+ e CDBs de bancos pequenos

Fundos multimercados
Investem em mais de um tipo de ativo. Geralmente combinam aplicações conservadoras, como títulos públicos, com ativos mais arriscados, que podem ser dívidas de empresas (no Brasil ou no exterior) e ações. Para saber no que um fundo investe, é preciso ler o informativo.

Ações
Ações são a menor fração de capital de uma empresa, podendo ser negociada em Bolsa. Esse tipo de investimento é indicado para pessoas de perfil arrojado. É possível escolher papéis individualmente ou investir por meio de fundos de ações ou que acompanham um índice (ETFs).

GLOSSÁRIO

  • CDBs, LCAs e LCIs – os principais investimentos de renda fixa de bancos. Quanto maior o banco, menor a remuneração, porque o risco de calote é menor. As letras de crédito são isentas de IR. Em caso de calote, há cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até R$ 250 mil por CPF e instituição financeira
  • Debêntures – títulos de dívida emitidos por empresas para financiar investimentos. Quem compra uma debênture corre o risco de calote da empresa, já que não há garantia do FGC. Quando o dinheiro é destinado a obras de infraestrutura, há isenção de Imposto de Renda
  • Prefixado – investimento cujo rendimento é conhecido na hora da aplicação. É vantajoso quando há expectativa de queda de juros. Como os títulos mais longos consideram que as taxas vão subir mais do que a expectativa do mercado, há chances de rendimento maior em outros tipos de renda fixa
  • Tesouro IPCA+ título público emitido pelo Tesouro Nacional que paga uma taxa de juros fixa mais a variação da inflação. Garante o poder de compra do dinheiro em aplicações de longo prazo, mas pode sofrer oscilações de preços e gerar perdas em caso de resgate antes do vencimento
  • CDI – taxa de juro que acompanha a Selic e costuma ser referência para remuneração de investimentos de renda fixa emitidos por bancos
  • ETFs – fundos que replicam um índice de ações, como o Ibovespa. O ganho será, ao final de um período, o mesmo registrado pela média das ações que compõem o índice. Como é um fundo passivo (não há um gestor tomando decisões de investimento), tem taxas mais baixas

Confira a explicação de mais termos do mercado financeiro neste link.

Folha de São Paulo

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