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Direita esquenta tema do aborto, esquerda entra com atraso, mas supera volume

Na última semana as redes sociais foram tomadas pela discussão em torno do projeto de lei 1.904/24, que proíbe a interrupção da gravidez por meio da assistolia fetal após 22 semanas.

O projeto prevê que mulheres que realizarem o método, recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), serão condenadas por homicídio simples, mesmo em caso de gravidez resultante de estupro.

Na análise de volumetria, observamos que o debate começa a se intensificar a partir do dia 17 de maio, quando Alexandre de Moraes suspende a norma do CFM (Conselho Federal de Medicina) que restringia o aborto legal acima de 22 semanas.

Observa-se que o tema apresenta um crescimento exponencial a partir do dia 10 de junho, atingindo seu pico no dia 16, com 194 menções a cada 100 mil mensagens.

Apesar de ter ganhado força nos últimos 30 dias, é possível observar que a direita vem “esquentando o assunto” desde março de 2024.

No dia 1º de março, começa a circular uma mensagem dizendo que é “absurda” uma nota técnica do Ministério da Saúde que recomenda a possibilidade de realizar aborto em período gestacional após a 21ª semana de gestação.

A primeira ocorrência de menção sobre “assistolia fetal” aparece no dia 4 de abril, quando Erika Hilton (PSOL) apresenta um projeto de decreto legislativo (PDL) para derrubar a resolução do CFM. A partir deste dia, grupos de direita começam a circular mensagens que defendem a resolução do CFM e atacam a deputada e o PSOL.

Após a decisão de Moraes contra o CFM no dia 17 de maio é possível notar uma explosão na discussão em grupos de direita.

Com vídeos de parlamentares e influenciadores bolsonaristas, como os deputados Zacharias Calil (União Brasil-GO), Maurício Marcon (Podemos-RS) e Júlia Zanatta (PL-SC), que circulam com alto índice viral, o foco da crítica é o STF, com textos que chamam o ministro de “assassino”, “monstro” e “servo do capeta”.

Na última quarta-feira (12), o texto do PL teve a aprovação de urgência na Câmara dos Deputados.

A partir deste dia, começa uma forte resposta contrária ao projeto, chegando a ser três vezes maior em volume que as mensagens defendendo o projeto. As palavras mais associadas são “estupro”, “criança”, “mulher” e “pena”, que indicam uma mudança de narrativa nas redes.

Diferentemente da direita, as mensagens contrárias ao projeto surgem de forma mais espontânea, com pouco índice viral ou mensagens repetidas.

Apesar do baixo índice viral o volume é maior, tendo uma circulação concentrada em grupos de esquerda associados ao presidente Lula, a Guilherme Boulos e a movimentos sociais. A mensagem que mais se repete compartilha o link do site “Criança Não é Mãe – Contra o PL da Gravidez Infantil”.

O debate digital colocou em evidência diversas figuras públicas, porém o mais afetado foi o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que é mencionado em memes como “líder da bancada do estupro” e que trabalha para o “talibã evangélico”.

A mensagem com maior número de encaminhamentos e viralidade é um vídeo onde sua ex-mulher, Jullyene Lins, o acusa de espancamento e estupro. Também com alto índice viral circulam mensagens que pedem a reabertura de seus processos no STF e que dizem ser “urgente” derrubá-lo da presidência da Câmara.

O comportamento das redes observado nas discussões sobre o PL 1.904 é reincidente em diversos eventos no passado.

Primeiro algum tema é “esquentado” de forma tímida em grupos de direita com uma diretriz clara.

Algumas semanas depois o assunto surge de forma pública, e a narrativa já está definida em bolhas da direita.

Por último o tema explode para fora da bolha e a esquerda coordena uma resposta. Na maioria das vezes, a resposta da esquerda é atrasada e pequena; desta vez, segue sendo atrasada, mas conseguiu vencer em tamanho.


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Folha de São Paulo

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