Política

Documentário mostra susto de Haddad com avanço da onda Bolsonaro em 2018

Chega nesta quinta-feira (4) às plataformas digitais o documentário “Partido”, que traz bastidores da campanha presidencial de Fernando Haddad (PT) em 2018, ocasião em que o petista foi derrotado por Jair Bolsonaro (então no PSL).

Embora a obra de 1h22min tenha sido feita por simpatizantes do hoje ministro da Fazenda, tenha recebido chancela do personagem principal e seja claramente favorável a ele, ela reúne momentos de intimidade que, no geral, dão um panorama da derrota sofrida pelo PT com a onda de direita que predominou naquele ano.

Entre eles, uma conversa de Haddad com familiares na véspera do primeiro turno.

“Eu estou perplexo. Não estou assustado, mas estou perplexo com o que eu estou vendo. Não é razoável. Ele [Bolsonaro] continua crescendo. Não acho que cresça a ponto de ganhar amanhã [no primeiro turno], mas vai dar trabalho”, diz um preocupado Haddad.

No dia seguinte, Bolsonaro recebeu 46% dos votos válidos contra 29,3% do petista. Os dois foram para o segundo turno, e o então candidato do PSL acabou eleito com 55,1% dos votos.

Apesar de acesso a esses bastidores, a equipe não obteve autorização para fazer filmagens em algumas ocasiões, entre elas um momento capital na disputa, a reunião em que ficou definido que Haddad, e não Jaques Wagner, seria o substituto de Lula.

O ex-presidente estava preso devido a condenação na Lava Jato —anulada em 2021—, mas o PT inscreveu seu nome e só fez a substituição a menos de um mês do primeiro turno, após esgotadas as tentativas jurídicas de validar a candidatura .

Em determinado ponto, o filme mostra Haddad falando a Jaques Wagner, por telefone, que ouviu do próprio Lula a manifestação de que ele, Jaques, era o preferido para o posto.

Não é possível saber nem é relatado o que o ex-governador da Bahia respondeu a Haddad. Wagner acabou concorrendo ao Senado, tendo sido eleito. A Folha procurou o senador da Bahia, por meio de sua assessoria, mas não houve manifestação.

O documentário também mostra Haddad, um tempo depois, conversando por telefone com uma pessoa não identificada e reclamando de quintas-colunas no PT. “Quinta-coluna é um negócio que dói, né?”

“Partido” —o nome teria a ver com o racha no país— é distribuído pela O2 Play. A direção é de César Charlone, Sebastián Bednarik e Joaquim Castro. A produção, de Andrés Benedykt.

Charlone foi diretor de fotografia de “Cidade de Deus” (2002) e Dois Papas (2019) e diretor de “O Banheiro do Papa” (2007) e da primeira série brasileira da Netflix, “3%” (2016-2020).

Charlone e Benedykt disseram à Folha que a ideia surgiu por volta de 2015 e 2016, período em que o PT enfrentava o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e que via em Haddad, na Prefeitura de São Paulo, um dos últimos bastiões do partido no poder.

As filmagens tiveram início na tentativa de Haddad de se reeleger prefeito de São Paulo. Após a derrota em primeiro turno para João Doria (PSDB), em 2016, a ideia foi deixada de lado e as imagens não chegaram a ser aproveitadas agora.

De acordo com Benedykt, em dezembro de 2017 Haddad convidou o grupo a retomar as filmagens após ser escolhido como coordenador do programa de governo da candidatura de Lula.

A ideia original era lançar “Partido” em outubro de 2022, entre o primeiro e o segundo turno das eleições daquele ano, mas isso foi adiado a pedido de Haddad —na ocasião, ele disputaria o segundo turno com Tarcísio de Freitas (Republicanos); Lula, com Bolsonaro.

De acordo com Nunzio Briguglio, ex-secretário de Comunicação de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo e que respondeu às perguntas enviadas ao Ministério da Fazenda, “Partido” é uma criação coletiva, assim como foi a decisão de não lançar o filme entre o primeiro e o segundo turnos de 2018.

Ele também encaminhou manifestação de Haddad, feita por meio de sua assessoria. “Partido registra um momento histórico importante. Revela e documenta detalhes de uma caminhada política que culmina com a vitória de Lula em 2022 e se transforma em um legado para as próximas gerações.”

Charlone disse ter reunido 400 horas de filmagem após se tornar, em 2018, uma espécie de “mobília” na casa de Haddad, que teria franqueado a ele amplo acesso. A mulher de Haddad, Ana Estela Haddad, e os dois filhos do casal são figuras constantes no documentário.

Ele afirmou ainda que seu trabalho como cineasta está ligado à conscientização de que vivemos no continente mais desigual do planeta e que, em “Partido”, buscou “favorecer um candidato, político e intelectual que trabalha na direção dessa conscientização”.

Benedykt destacou trecho do documentário que retrata uma crítica de Haddad à imprensa, que, segundo o petista, estava se omitindo em relação aos ataques que ele recebia de Bolsonaro e do bolsonarismo. “O filme é um documento histórico de um processo que a gente ainda está vivendo, de extrema direita, ódio aos contrários e fake news.”

“Partido” já esteve em festivais no exterior e, nesta quarta-feira (3), terá exibição pública gratuita na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, São Paulo), às 20h30, com retirada de ingressos uma hora antes, na bilheteria.

Folha de São Paulo

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