Política

Dois candidatos diante do mundo

Os extremos se tocam, diz um ditado popular. Talvez, mas no Brasil, quando se trata de política externa, invertem suas posições históricas e compartilham curiosas simpatias.

São divergentes, mesmo opostas, as visões de mundo de Lula e Flávio. Na Assembleia-Geral da ONU, o presidente discursou como nítido contraponto de Trump, o líder e herói reverenciado pelo candidato bolsonarista. Numa ponta, os conceitos de paz, multilateralismo e cooperação internacional. Na outra, a lei do mais forte, as esferas de influência, um nacionalismo imperial e xenófobo.

Um Lula moderado e pragmático contra um Flávio alinhado a Trump, arauto de uma política exterior ideológica? Síntese fácil, mas um tanto ilusória.

Não foi Flávio ou Jair, mas Lula, que introduziu o componente ideológico nas relações internacionais do Brasil. Quem se esquece de seu comício na Venezuela, ao lado de Chávez, às vésperas das eleições de 2006 no país vizinho? Da ativa interferência brasileira nas crises institucionais hondurenha (2009) e paraguaia (2012)? Do apoio explícito do Planalto aos candidatos peronistas na Argentina? Da coalizão política de esquerda materializada pela Unasul e pela Celac?

Hoje, contudo, moderação e pragmatismo, tornaram-se imperativos. Rodeado por governos de direita aliados à Casa Branca, Lula aprende a velha lição ensinada pelo Brasil Império sobre a arte de evitar uma coalizão antibrasileira dos vizinhos hispânicos. No lado oposto, o bolsonarismo traduz o interesse nacional no idioma cruzadista utilizado por Trump e Rubio, almejando inscrever o Brasil na Internacional da direita nacionalista. Flávio é, de certo modo, o Lula de ontem.

O mundo gira. Lula e o PT abominavam o livre comércio, rotulado como política “neoliberal”, insistindo no anacronismo protecionista. Agora, sob a pressão da guerra tarifária deflagrada pelos EUA, assimilaram a linguagem das economias abertas. Queima o que adoraste e adora o que queimaste: o Lula do presente fala como entusiasta e promotor de acordos comerciais.

A Lusitana roda, provocando inversões paradoxais. O Jair Bolsonaro de 2018, tempos de Paulo Guedes, pintava-se como cavaleiro andante da abertura comercial. Passado enterrado: à sombra de Trump, o Flávio de 2026 elogia o protecionismo da Casa Branca e, como boneco de ventríloquo, reproduz as investidas retóricas de seu ídolo contra a União Europeia e o Canadá. A extrema direita batizou de “globalismo” aquilo que a esquerda condenava como “neoliberalismo”.

Flávio despreza a ideia de soberania, que Lula exalta noite e dia. Nesse terreno, porém, nem tudo é divergência. Um e outro recusam-se a condenar nitidamente a invasão imperial russa da Ucrânia. É que, cada um a seu modo, atribui a Putin funções geopolíticas positivas. Lula enxerga o ditador russo como contrapeso ao poder dos EUA, enquanto Flávio o admira como autocrata cristão ultraconservador e parceiro de Trump.

Convergências estranhas. Lula não pede eleições livres na Venezuela pois nutre a esperança de um renascimento do regime chavista no futuro pós-Trump, enquanto Flávio exalta a conversão do país vizinho em protetorado petrolífero dos EUA.

Princípios? Leis internacionais? Interesse nacional? Esqueça: na dança das cadeiras, a única coisa permanente são as obsessões ideológicas.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo