Duas campanhas com as almas enfiadas na lama

A autorização para que a Polícia Federal tenha acesso aos dados colhidos pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme “Dark Horse” provocou tremores de regozijo entre militantes indignados com notícias que transpiram das investigações sobre tráfico de influência envolvendo um filho, uma amiga lobista e o ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio da Silva (PT).
Estaria aí pavimentado o terreno para uma paridade de vazamentos com potencial mútuo de constrangimentos. No caso do filme, a suposição é a de que, a partir da PF, comecem a ser conhecidas as informações que Flávio Bolsonaro (PL) prometeu, mas não forneceu, sobre as andanças dos milhões de Daniel Vorcaro de um fundo no Texas (EUA) até o caixa da Go Up Entertainment —e dali sabe-se lá para onde.
A dona da produtora, Karina Ferreira da Gama, aparece como destinatária, por intermédio de duas agremiações, de recursos em emendas parlamentares de autoria de cinco deputados federais do campo da direita. Da investigação compartilhada com a PF consta a suspeita de fraude em licitação da Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões, vencida pelo Instituto Conhecer Brasil, também de Karina.
Material para o embate, portanto, não falta. A questão em aberto é a motivação para a guerra entre duas campanhas à Presidência da República. O problema não são os vazamentos, mas o fato de um lado servir de vidraça e o outro ficar livre para atirar as pedras.
Quando ficam os dois na berlinda, há respiros de alívio pelo equilíbrio restabelecido, como se não houvesse mal algum estarem na corda bamba esticada sobre um pântano, arriscados a enfiarem suas almas na lama.
Os candidatos fogem de cobranças e fazem de conta que não é com eles. Lula dá entrevistas mandando o filho se explicar —que, no entanto, não se explica, só reclama por intermédio da defesa. Flávio Bolsonaro diz que não lhe cabe prestar contas de uma “página virada”. É como estamos: sem a menor noção de onde iremos parar.
Folha de São Paulo



