Eduardo Leite tem dificuldade para emplacar vice como sucessor e vê grupo político ameaçado no RS

De saída do comando do Rio Grande do Sul e preterido pelo PSD como candidato à Presidência da República, o governador Eduardo Leite enfrenta dificuldade para emplacar seu sucessor e garantir a sobrevivência de seu grupo político nas eleições de outubro.
O vice-governador Gabriel Souza (MDB) está com 9% dos votos na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 24 de agosto, um distante terceiro lugar ante Luciano Zucco (PL), com 26%, e Juliana Brizola (PDT), com 23% —os candidatos apoiados por Flávio Bolsonaro (PL) e pelo presidente Lula (PT), respectivamente.
É um leve avanço em comparação aos 6% que Souza marcou na pesquisa do mesmo instituto em julho, mas outros números acenderam um alerta. Perguntados se Eduardo Leite merece eleger um sucessor, 33% dos eleitores disseram que sim, 56% que não e 11% não sabem ou não responderam.
45% dos consultados desaprovaram o governo Leite, ante 42% de aprovação e 13% que não souberam ou não responderam. Do total, 44% avaliaram o governo como regular, enquanto as avaliações positiva e negativa aparecem empatadas em 26%.
Outro desafio é o baixo nível de conhecimento: 72% dos entrevistados disseram não saber quem é Souza. Entre os que o conhecem, 11% afirmam que poderiam votar nele, enquanto 17% dizem que não votariam.
À Folha, Souza disse que encara o baixo resultado nas pesquisas com tranquilidade. “Temos um governo bem avaliado, com entregas concretas, e quanto mais a campanha avançar, mais essa aprovação vai se tornar escolha e voto.”
Procurada por mensagem na tarde desta terça-feira (25), a assessoria de Eduardo Leite não retornou até a publicação deste texto.
Outros números da pesquisa colocam em dúvida a aposta da campanha em ampliar seu eleitorado em um eventual segundo turno. Nos dois cenários testados, ele aparece atrás de Juliana Brizola por 32% a 24% e de Luciano Zucco por 33% a 22%. Em ambos os casos, a soma de indecisos e votos em branco e nulos supera 40%.
O campo de Leite também enfrenta a divisão das candidaturas de centro e disputa votos com o ex-prefeito de Guaíba Marcelo Maranata (PSDB), que marca 2%.
Ainda assim, o cenário mostra que Souza tem espaço para crescer em um eleitorado fragmentado. A pesquisa indica que 39% da população querem um candidato independente, enquanto 32% querem um aliado de Flávio e 25%, um aliado de Lula.
“Não queremos importar a polarização nacional, mas discutir educação, saúde, segurança, infraestrutura, desenvolvimento e aquilo que efetivamente será responsabilidade do próximo governador”, disse Souza.
O vice-governador subiu o tom no início da campanha contra Zucco e Brizola, primeiro atacando a ausência dos dois nos primeiros debates e, depois, afirmando que os candidatos faziam críticas à atual gestão sem apresentar propostas concretas de mudança.
A campanha de Souza busca se inspirar nas eleições de 2014, quando José Ivo Sartori (MDB) foi eleito governador após passar quase toda a campanha em terceiro lugar e ser beneficiado por uma arrancada nos últimos dias.
Sartori tinha o slogan “Meu partido é o Rio Grande”, fazendo oposição ao governo de Tarso Genro (PT), mas com menos identificação à direita do que a candidata liderava a pesquisa, Ana Amélia Lemos (PP).
Ele se beneficiou de um derretimento da candidatura de Ana Amélia, maior alvo de ataques de Genro, e saltou de 7% na pesquisa Datafolha de 15 de agosto de 2014 para 25% na última pesquisa, em 4 de outubro, véspera da eleição. Sartori acabou fazendo 40,4% dos votos no primeiro turno e derrotou Genro no segundo com 61,2%.
Em 2018, Sartori tentou se colar a Jair Bolsonaro (PL), mas foi derrotado por Leite —filiado na época ao PSDB. O então tucano também apoiou Bolsonaro, mas recebeu maior apoio de eleitores de esquerda.
Natural de Tramandaí, no litoral norte gaúcho, Souza tem 42 anos e milita desde os 16 no MDB, partido que venceu quatro das dez eleições para o governo do estado desde a redemocratização —cinco, contando o apoio a Leite em 2022.
Em 2022, uma aliança costurada por Souza, então presidente da Assembleia Legislativa, selou o apoio do partido à reeleição de Leite e provocou uma divisão interna com a ala que defendia uma candidatura própria.
A Serra Gaúcha, reduto do MDB por décadas e hoje região de forte presença bolsonarista, deu mais votos a Onyx Lorenzoni (PL) no segundo turno.
Nesta eleição, Souza também perdeu partidos importantes que deram sustentação à coalizão de Leite nos dois mandatos. São os casos do PP, que indicou a deputada estadual Silvana Covatti como vice de Zucco, e do PDT de Juliana Brizola, que encabeça a chapa apoiada pelo PT.
Souza também não conta, na chapa, com a força política do próprio governador, que cogitou concorrer ao Senado, mas optou por não disputar as eleições deste ano. Ele tentou viabilizar uma candidatura presidencial de centro no PSD, mas o partido lançou o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, mais identificado com a direita tradicional.
Leite, assim como Souza, apoia Caiado, que marcou 5% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto.
“[O apoio a Caiado] é uma escolha clara, mas que não será usada como muleta na eleição estadual. Nossa campanha é 100% voltada ao Rio Grande do Sul”, disse Souza.
Folha de São Paulo



