Saúde

Em novo livro, Monja Coen reflete sobre envelhecimento e finitude

No espelho acompanho as rugas se formando, os cabelos clareando, a vista enfraquecendo, os músculos afrouxando. Ainda que faça exercícios, tente fazer regimes, raspar os cabelos e os pelos que insistem em crescer no queixo, é diferente hoje. Na minha juventude não era assim.

Agora tudo se transforma sem cessar: o corpo, a mente, o espírito. O nariz cresceu. As orelhas e os pés também. Nas mãos, os dedos grossos e tortos de artrose não se deixam ser esquecidos.

A vontade de viver jovem para sempre se perde, mas sem perder com ela a vontade de viver e ser.

Em cada instante nascemos e morremos bilhões de vezes

 

Reconheço e aprecio o vovô português, careca de cara redonda, como a minha de agora, com a qual me surpreendo ao me olhar no espelho: eu sou eu e sou ele; ele em mim e eu nele. No espelho, vejo ainda a mãe idosa e jovem, a criança e a adolescente, a jornalista, a feminista, a monja e toda uma linhagem de Budas ancestrais. Sou em todas e todas são em mim.

Podemos envelhecer de forma macia, com ou sem dignidade. E, durante esse processo, rir e chorar, ficar neutro, brigar, ir esquecendo sem pressa, sem esforço para lembrar. Já sem a necessidade de mostrar ao mundo coisa alguma.

Viver a cada instante todos os momentos da vida, que podem ser os últimos.

Repetir frases antigas e novas, criar novas maneiras de ser. Declamar de memória poemas da infância e músicas da juventude, ainda que apenas trechos, confusamente misturados. Isso porque a memória, minha amiga e inimiga, algumas vezes confunde o futuro com o presente.

Sigamos juntos nessa jornada da vida: cada dia nunca é mais, é sempre menos.

Porém, nem por isso essa certeza deixa de causar espanto ou aflição, além da dor nos joelhos e nas costas, ou do sono em horas estranhas e da insônia nas noites com ou sem lua.

Ah, a lua! Esta continua encantando a todos, mesmo sabendo que é apenas um pedaço de terra em que habitam um coelho batendo arroz num pilão e São Jorge, o cavalo e um dragão.

O sol, por sua vez, alimenta o corpo e a mente pelas plantas e sementes. E envelhecemos mais rápido quanto mais nos expomos a ele durante a vida.

* Monja Coen é autora de, entre outros livros, do recém-lançado Em cada instante nascemos e morremos bilhões de vezes, do selo Academia da Editora Planeta

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