Em um relacionamento, ter HPV significa traição? Entenda como vírus age

O HPV (papilomavírus humano) é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo. Estima-se que cerca de 80% das pessoas entrarão em contato com o vírus em algum momento da vida, segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde).
Receber o diagnóstico dentro de um relacionamento, porém, costuma gerar alarme não só na saúde, mas também quanto à fidelidade do casal. Mas o vírus pode permanecer silencioso por anos antes de ser detectado, sem nova exposição sexual recente.
“O HPV é tão comum que já foi chamado de o resfriado das infecções sexualmente transmissíveis”, diz Maria Isabel de Moraes-Pinto, coordenadora em vacinas da Dasa e infectologista. Isso não significa que deva ser ignorado, mas também não é uma sentença.
Na maioria dos casos, o próprio organismo elimina o vírus: em até 90% das infecções, ele desaparece em dois anos, segundo Ricardo Zordan, supervisor da Disciplina de ISTs da Sociedade Brasileira de Urologia.
Pesquisas mostram que o HPV circula fortemente dentro do casal, e que o status de um parceiro é o principal determinante do risco do outro. Por isso, dizem os especialistas, intervenções como aconselhamento, rastreamento e vacinação devem ser feitas em ambos.
O que significa ter HPV?
O diagnóstico indica que o organismo entrou em contato com o vírus em algum momento da vida sexual. Não indica quando isso aconteceu nem de quem veio.
O vírus pode permanecer silencioso por anos antes de ser detectado, e a maioria das pessoas infectadas nunca apresenta sintomas.
O papel do acompanhamento médico é identificar as situações em que o organismo não elimina o vírus sozinho e agir antes que lesões mais sérias se desenvolvam, diz Adriana Campaner, presidente da Comissão Nacional Especializada em Trato Genital Inferior da Febrasgo.
Isso quer dizer que houve traição?
Não necessariamente. O vírus pode permanecer em estado de latência no organismo por anos e reaparecer em exames sem que haja nova exposição. “O HPV jamais deve ser tratado como uma evidência de traição entre o casal”, diz Zordan.
A infecção costuma ser mais detectada em mulheres do que em homens, não porque elas a contraiam mais, mas porque vão com maior frequência ao ginecologista.
Isso cria um cenário em que o casal pode ter contraído o HPV junto, mas a mulher recebe o diagnóstico primeiro. Ou ainda, que um dos dois carregue o vírus de antes do relacionamento, sem saber.
O diagnóstico muda o relacionamento?
O casal deve conversar. Raquel Magalhães, ginecologista do Hospital Nove de Julho, recomenda que os dois procurem acompanhamento médico e recebam a vacina contra o HPV. A conversa franca, diz ela, é parte do cuidado.
O diagnóstico positivo não significa câncer nem fim da vida sexual. Significa que é hora de manter o acompanhamento em dia e, se ainda não foi feito, considerar a vacinação, diz Moraes-Pinto.
O que o parceiro deve fazer?
O parceiro deve procurar um médico para avaliação clínica. Se houver lesões visíveis, como verrugas genitais, o tratamento é indicado. Se não houver, o acompanhamento periódico costuma ser suficiente. “O tratamento deve ser feito em conjunto quando o homem apresenta lesões visíveis. Se não tiver lesões visíveis, ele não deve ser tratado”, diz Zordan.
Tratar o vírus em si não é possível. O que os médicos fazem é tratar as lesões, diz Campaner.
Como é o tratamento?
As verrugas genitais são as lesões mais transmissíveis. O tratamento pode ser feito com substâncias químicas aplicadas no consultório ou com métodos físicos, como cauterização, crioterapia com nitrogênio ou laser, diz Campaner.
Lesões pré-cancerosas exigem procedimentos para remoção. “Se ela fizer o tratamento do pré-câncer, ela não evolui para o câncer. E as verrugas não viram câncer”, diz a médica.
A vacina ainda vale para quem já tem HPV?
Sim. Mesmo quem já foi diagnosticado pode se beneficiar da vacinação, porque é improvável que uma pessoa tenha sido exposta a todos os tipos virais cobertos pela vacina, diz Moraes-Pinto.
Há evidências de que a vacina também reduz o risco de recorrência em quem passou por tratamento cirúrgico de lesões.
A versão quadrivalente, aplicada pelo SUS (Sistema Único de Saúde), protege contra quatro tipos do vírus: os tipos 16 e 18, responsáveis por 70% dos tipos de câncer de colo de útero no mundo, e os tipos 6 e 11, causadores de lesões genitais.
A nonavalente, disponível apenas na rede privada, protege contra nove tipos do HPV, responsáveis por 90% dos casos de verrugas genitais e pela maioria dos cânceres associados ao vírus. Ela inclui a proteção contra outros cinco tipos: 31, 33, 45, 52 e 58, além dos quatro incluídos na vacina quadrivalente.
O homem também corre risco?
Sim. O vírus está associado a cânceres de pênis, canal anal e orofaringe, região que inclui garganta, base da língua e amígdalas.
Com a redução do tabagismo e do consumo de álcool nas últimas décadas, o HPV se consolidou como principal fator de risco para o câncer de orofaringe, especialmente entre homens, diz Moraes-Pinto. Cerca de 40% dos tumores de cabeça e pescoço estão associados ao vírus, e 76% desses casos são diagnosticados em estágio avançado no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.
Em dezembro de 2024, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) atualizou a bula da vacina nonavalente para incluir a prevenção de cânceres de cabeça e pescoço associados ao HPV. Estudos de vida real mostraram redução de até quatro vezes na prevalência desse tipo de tumor entre homens vacinados.
Como se prevenir daqui para frente?
O preservativo reduz o risco de transmissão, mas não elimina completamente a possibilidade de contágio, já que o vírus pode estar presente em áreas não cobertas pela camisinha, diz Magalhães. A vacina é a ferramenta mais eficaz de prevenção disponível hoje, para homens e mulheres.
Para as mulheres, o acompanhamento regular com ginecologista é essencial. O câncer de colo do útero, causado pelo HPV, é o que mais mata mulheres de até 35 anos no Brasil, segundo dados do Inca de 2014 a 2024, e o instituto estima aumento de 14% na incidência da doença até 2028.
O exame de Papanicolau e os testes de detecção do HPV permitem identificar lesões antes que evoluam. Para os homens, a vacinação e a atenção a qualquer lesão genital suspeita são os principais caminhos.
Informação
Folha de São Paulo



